Artes e Letras

Mês: março 2026

A Cidade como Ficção e Memória: As Cidades Invisíveis de Italo Calvino

O Lugar do Leitor Comum

Chamado a falar sobre As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, venho para ocupar este lugar do leitor — aquele que, em língua inglesa, Virginia Woolf chamou de Common Reader, o leitor comum. Este leitor comum difere do crítico ou do estudioso; ele não é um erudito. Lê para seu próprio prazer e é guiado por um instinto de autocriação e autoeducação. Seu mais ilustre antecedente histórico seria Montaigne. Algo de um encanto genealógico deste tipo está sem dúvida nos Ensaios.

Penso que o essencial desta sentença seja a ideia da leitura como um prazer; não uma atividade ligada à criação ou ao mercado de circulação do livro, ou mesmo ao estudo e às universidades, mas a leitura como uma alegria pessoal, privada. Esta ideia da leitura como uma ação alegre está maravilhosamente expressa naquela frase de Borges (nos Nove Ensaios Dantescos), em que ele afirma que a leitura da Comédia é uma das formas da felicidade. Ou seja: um destes momentos mágicos da vida em que um encontro te completa e você vive uma espécie de epifania secularizada.

Então, é deste ponto de vista que vou dizer o que As Cidades Invisíveis significou para mim e o que este livro me ensinou.

A Estrutura Matemática e Poética de Calvino

As Cidades Invisíveis não é um romance. Calvino disse em uma entrevista que a base do livro foi construída sobre dois modos de retórica literária: o apólogo e a descrição. O apólogo, por definição, é uma narrativa em prosa ou verso, geralmente dialogada, que encerra uma moral, uma lição. A descrição é uma narração detalhada sobre algo ou alguém, que acontece através da enumeração de características ou eventos.

Ora, na estrutura do livro, isso é um pouco mais complexo. Temos 55 cidades (todas com nomes femininos) e 11 temas ou legendas. A configuração é dupla: 18 diálogos entre Polo e Khan (nove de abertura e nove de fechamento para cada estrutura). Na cidade número 3 do tema “os olhos” (Bauci), temos o meio exato da narrativa, com 27 cidades anteriores e 27 posteriores. Além disso, os temas se deslocam a partir do segundo bloco em ordem decrescente (5, 4, 3, 2, 1), onde o primeiro título esgota aquela série e o último inaugura uma nova legenda.

Isso se refere, basicamente, à matemática combinatória aplicada à literatura. Há também toda a proposição da relação da complexidade do livro com a de um jogo. Neste jogo complexo Calvino reinventa o apólogo e amplia a capacidade da arte da descrição. Seus dois recursos retóricos escolhidos são levados a um ponto máximo.

Mas não tentarei falar das complexidades estruturais e das várias proposições sobre a linguagem e a memória, sem dúvida essenciais para a compreensão do livro, correndo o risco de repetir o que outros podem falar melhor que eu. Vou dizer da minha relação desnudada, direta e franca com o livro.

Em primeiro lugar, penso que As Cidades Invisíveis é um livro muito poético. Quando o li pela primeira vez, a primeira coisa que me ocorreu é que era um livro para ser lido em voz alta, para ser recitado. Sendo uma obra muito visual, uma obra plástica, pareceu-me que a concretude da voz era o melhor meio de dar substância sonora às imagens que tão poderosamente apareciam no texto. Em voz alta, a materialidade das paisagens, casas e pessoas se tornava mais clara e mágica; o texto, como um desenho, formava-se em volta de nós.

Mas este desenho era como o de um sonho: grandes paisagens primitivas, arquiteturas do impossível e do improvável, cuja fugacidade o meu ato de enunciá-las tentava anular. Daí que a abertura do livro, em que aparece a angústia de Khan, fez-me refletir sobre a brevidade de minha própria vida e a fragilidade de minha época. Parece triste, mas isso dá uma certa perspectiva temporal quando vivemos em tempos tão pesadamente politizados e quando a própria história parece um pesadelo. Parece dizer: “isto também passará”. Ao enunciar o texto em voz alta, eu pressentia uma espécie de consolo.

O Rio de Janeiro e as Cidades Sobrepostas

Outro aspecto muito pessoal é como o livro agiu sobre a minha relação com a minha própria cidade, o Rio de Janeiro, onde nasci e envelheci. A cidade que nos anos sessenta era quase um balneário amável, onde Tom e Vinicius haviam inventado a Bossa Nova, transformou-se em uma megalópole ensandecida e violenta, uma cidade à beira do caos.

Veio-me à mente esta sobreposição de cidades sobre cidades, esta vertigem sem fim: a colonial do Paço Imperial e do Cais do Valongo; a imperial do Palácio da Marquesa de Santos; a da República Velha do Palácio Monroe; as construções em Art Déco e Art Nouveau no centro velho; o modernismo do antigo Ministério da Educação. Olhando para ela, vi Manuel Antônio de Almeida, Machado na Rua do Ouvidor, Manuel Bandeira no Beco da Glória, Drummond, Cabral, Nava, Gullar…

A Veneza de Marco Polo — a cidade da qual ele nunca iria se libertar — era, para mim, então, o Rio de Janeiro de minha memória, imaginação e afeto. Não uma cidade apenas, mas várias cidades soterradas. A da memória e do desejo; a dos símbolos e da sutileza; a das trocas e dos olhos; a dos mortos e a oculta. A cidade que abandonei e para a qual retorno e que talvez, como as de Calvino, não seja mais que uma ficção. E este foi o segundo impacto: entender que, da ampla meditação supratemporal sobre o espaço feita por Calvino, eu podia extrair uma experiência concreta, pessoal e íntima.

A Cidade Invisível

Esta percepção deu-se definitivamente há poucos anos, em 2018, nas escavações para o VLT no centro antigo do Rio. Na época, enquanto revolvia o solo da cidade, a companhia responsável pelas obras foi surpreendida ao encontrar um cemitério de escravos do século XVIII em frente à Igreja de Santa Rita. Com as obras suspensas, via-se no rosto dos responsáveis o aborrecimento com aquelas pedras veneráveis, aqueles esqueletos calcificados e nus brotando do solo — coisa mineral e, portanto, eterna. Eles testemunhavam a existência dos mortos, recordando-nos de que todo aquele mundo moderno ali em torno também morrerá; que a impaciência, a velocidade e a indústria de hoje também estão fadadas à decadência, à morte, ao sepultamento e ao olvido. Pois, convivemos com uma cidade invisível debaixo dos nossos pés e esquecida. No entanto, ela é maior que a cidade visível, mais persistente e de certa forma mais real. E mais real pois se constrói de nossa desaparição e fugacidade e aumenta com a nossa ruína e esquecimento, sendo edificada indefinidamente na medida em que nos consumimos na ação inexorável do tempo.

A Razão do Poema

Ou “A Quimera Resolvida: Quase um Ensaio sobre um Morto Sem Nome”

Pensei este blog como uma arena de ensaios, a exposição não sistemática de uma trajetória um pouco equívoca de muitas leituras desencontradas. A biografia de um leitor de livros, de quadros, de mundo. Tangenciei uma pequena fuga ao inserir um leve poema sobre Rodin, que se justificava por ser uma observação ensaística sobre a filosofia da arte em forma de meditação sobre as esculturas do mestre impressionista. Ou seja, contrabandeei um poema no universo eminentemente prosaico (como determinei no princípio) do Blog.

Não posso evitar. Rebelado contra os meus princípios, mais uma vez venho para romper as minhas próprias regras e proponho um poema. Não posso evitar. A minha única desculpa é dizer que, talvez, haja nestes versos despretensiosos algo de uma meditação filosófica que não desmereça a pretensão ensaística deste blog. E se, ao final, tudo é apenas pretendido, fique os versos como uma dissonância, o ruído complementar que na totalidade dos escritos ofereça uma Gestalt e assim fique tudo dito.  

Litania

este morto não tem nome não tem voz 

falta-lhe mesmo o corpo, está a sós

perto de si mesmo, longe de nós

sutilizado em seu destino.

este morto não possui, não é possuído

está puído na lembrança, no esquecimento

tem uma sombra de cimento que não pesa,

é como eu e você;

 tem uma beleza

que já não se vê

 e uma calma.

este morto terá alma?

e se alma tiver, tem um destino? 

destinava-se desde menino a morto

(como todos nós). agora chegou a bom porto

— chegaremos nós.

este morto agora é como se já fosse

quando dormia; é claro que já não respira 

mas quem jurará que não suspira

que no átrio da lembrança não trará 

um coração nostálgico de não ser

quando era, agora que a quimera resolvida 

fá-lo ser na morte o que não foi em vida?

este morto é morto há um longo tempo

(mais longo do que foi em vida).

é morto há milênios como morreremos, 

como um dia estaremos juntos.

agora já não olha para nós, nos ignora,

o pesadelo da historia já não o assusta.

a música já não soa a seus ouvidos.

ele é perfeito silêncio em solidão

perfeita comunhão com o mundo. 

este morto não tem nome, não tem fome 

a faina da vida não o asfixia 

conhece a ataraxia

e, talvez, a sabedoria.

DANTE: DA VITA NUOVA A DIVINA COMMEDIA

O ensaio que segue foi escrito há mais de trinta anos. Publico-o aqui como um registro de um momento de minha leitura da Commedia, não como formulação de uma interpretação definitiva (a qual nunca alcançarei), mas como etapa de um diálogo que essa obra continua a exigir de seus leitores.

As Três Eras da Leitura de Dante

                                                   “Chi è costui che sanza morte

                                                   va per lo regno de la morta gente?”

                                                                                       Inferno, canto VIII, 84/85.

                                                                            

“Amor, ch’a nullo Amato amar perdona,

mi prese del costui piacer sí forte

che, come vedi, ancor non m’abbandona.

Amor condusse noi ad una morte”.

Inferno, canto V, 103/106.

Das várias leituras possíveis da Comédia foram três, cronologicamente, as mais importantes: até o Renascimento ela era tida como uma espécie de verdade: a arquitetura descrita por Dante apavorava os pecadores com o Inferno, os consolava com o Purgatório e os rejubilava com o Paraíso. Afinal, Dante havia recolhido do imaginário cristão de sua época o que os homens julgavam fosse a verdade; apanhara as imagens espectrais dos sonhos de seus contemporâneos e as transformara  na mais alta poesia. Porém ninguém se iludia, ele era tido como o homem que fora ao Inferno e voltara e que nunca mais sorriu. Sua mensagem poética, apocalíptica no Inferno também trazia a boa nova evangélica do Paraíso e esta imagem se casava com a crença profunda do Medievo onde a religião era a realidade total do mundo. Assim até o Renascimento (o final da Idade Média) a Comédia tinha o estatuto de verdade teologal, descrição inspirada da ordem perfeita do universo, composta em um todo tripartido como a trindade, mas misticamente una e inteligível em sua organização.

Com o advento do racionalismo grego no coração do Renascimento esta esfera da verdade se diluiu. A Comédia começa a ser lida como história e simbolismo, crônica de uma época unida a uma poética superior. Até o Iluminismo, que historicizaria até mesmo a Bíblia, a Comédia foi lida como documento de época (as conturbações políticas da dividida península itálica durante a Idade Média) e como manual de excelência poética. Seu maior encanto era ainda a força intelectual do poema que subordinou o complexo universo do Trecento à terza rima. Porém seu poder disciplinatório (pelo medo e recompensa) já não era mais levado a sério.

Por fim, do Iluminismo em diante, a Comédia começa a ser lida como Arte Poética perfeitamente realizada, ápice da construção poética do Ocidente, clássico entre clássicos, o mais importante poema da Cristandade. Sua ideologia, amparada em um domínio absoluto da escatologia cristã sobre a alma humana já estava tão distante da vida cotidiana como os deuses gregos da Odisséia. A Comédia tinha cumprido o seu ciclo e dessacralizara-se em um mundo alheio ao sentimento do sagrado. De verdade explanatória total de todo o universo, transformara-se em explicação parcial de um determinado momento da história, a tradução de uma filosofia datada (a escolástica tomista) em poesia elevada. Desta maneira resvalou, como outros clássicos, para o abismo dos livros muito citados, mas pouco lidos.

Mas em todas as épocas a Comédia foi tida como alta poesia, a perfeita organização da palavra para o mais belo fim. Jamais perdeu sua aura de perfectibilidade poética. As escolas de poesia vão e vem, os poetas nascem e morrem e a catedral perfeita da Comédia continua na paisagem literária como a mais bela obra já forjada em palavras. Aventurar-se a lê-la é compreender o privilégio de um poeta como Dante, ver o porquê de seu orgulho, deleitar-se com sua inteligência, compartilhar com ele da perfeição. Lendo a Comédia compreendemos porque Dante foi o único homem de toda a história que, não sendo santo, foi objeto de uma encíclica papal e como nesta encíclica a Religião paga seu tributo a Poesia.

A Poética Visual e o Silêncio do Inferno

Antes de tudo Dante é um poeta visual, poroso, concreto. Vê e faz ver. Observe-se esta personificação do medo logo no início do poema, um medo completo dentro e fora de nós: 

Allor fu la paura um poço queta

che nel lago del cor m’era durata

la notte ch’i’ passai com tanta pieta.

O medo, aquietado no lago do coração após uma noite inteira de pavor, se presentifica nestes versos em uma imagem clara através da repetição da letra ‘a’  (paura, queta, era, durata, pieta); um exemplo da poética material de Dante que apresenta aquilo que fala, mostra o que diz. É interessante notar também no Inferno imagens que persistem na ausência de luz: “mi ripgneva lá dove il sol tace”, “io venni in locco d’ogne luce muto”, imagens que remetem ao escuro, mas curiosamente a um escuro que é uma ausência de voz, o retirar da fala, a treva do mutismo onde a voz humana estanca. “Me encurralava onde o sol se cala”, “eu venho a um lugar que a toda luz é mudo”. Ou seja, o Inferno não é só ausência de luz, é também onde a palavra iluminadora se cala, onde o mais humano dos dons se volatiliza. O sol da verdade em Aristóteles, que através de Sto Tomás, seria interpretado como Deus, é no Inferno puro silencio e ausência. No Inferno o princípio que é o Verbo está ausente. Só a palavra, o falar, consegue dar perspectiva a aventura humana e conferir-lhe sentido. Virgílio neste caso é emblemático deste poder na medida em que é ele que conduz Dante, poeta e peregrino, através do Inferno até Beatriz:

o anima cortese mantoana,

di cui la fama ancor nel mondo dura

e durerá quanto ‘l mondo lontana.

O discurso clássico (e afinal Dante foi formado pelo mundo clássico) explica o caminho para “il primo amore”. Mas, os clássicos Dante os deixa em uma espécie de vestíbulo do Inferno: Diógenes, Anaxágoras, Sêneca, Heráclito e “il maestro di color che sanno” Aristóteles. Seu acerto de contas com o mundo do paganismo se dá com leveza, um aceno de despedida no início da viagem. Daí por diante seu contato com outros personagens da história seria mais violento.

Piedade e Paixão: O Episódio de Paolo e Francesca

Na geografia do Inferno o terror é um crescendo. Desde o primeiro canto, onde é encurralado por uma loba, até o final, a cada ciclo o horror aumenta e as metáforas se tornam mais escuras e deprimentes. No mais famoso episódio do Inferno, o admirável canto sobre Paolo e Francesca di Rimini, a pena terrível ainda é suportada, há uma beleza no discurso de Francesca sobre o amor que nós leitores, julgando inescapável a maldição sofrida por ela, a compreendemos:

Amor, ch’al cor gentil ratto s’apprende,

prese costui de la bella persona

Che mi fu tolta; e ‘l modo ancor m’offende.

Amor, ch’a nullo amato amar perdona

mi prese del costui piacer sí forte

che, come vedi, ancor, non m’abbandona.

Amor condusse noi ad uma morte.

Quem já tendo amado não compreenderia estes versos? Dante que amou Beatriz, mas que não foi por ela amado, deve ter invejado tal paixão e, apesar da pena terrível sobre os dois amantes, sentimos que ao menos neste lugar o Inferno talvez não pese; longe ‘del primo amor’ (o curioso primeiro amor que criou o Inferno) este amor humano é, talvez, quase divino. E Dante o sabe, pois amou e perdeu e só resta projetar seu amor em uma complexa metafísica para novamente restituir-se à sensação de possuí-lo:

Nessum maggior dolore

Che ricordarsi del tempo felice

ne la  miséria.

Quem o disse? Francesca. Mas são também as palavras mais verdadeiras do coração de Dante. Afinal a Comédia nasce deste ‘maggior dolore’, só que projetivamente Dante tenta criar um tempo feliz no futuro (o tempo de reencontro com Beatriz) para fugir de sua miséria. Neste canto o peregrino medita sobre si, pesaroso e melancólico indaga Francesca e põe na sua boca os mais belos versos da paixão sensual. É seu mais alto momento de piedade. Por Francesca, por Virgílio (e esto sabe il tu dottore), por si mesmo, já que todos amamos e perdemos, todos guardamos os retalhos da felicidade que um dia possuímos e cujo brilho aumenta a nossa dor. Dante faz Francesca falar por ele e ele fala por nós.

O Rigor Medieval e a Crueldade de Dante

Mas a partir daí há a erupção da fraqueza no coração do sábio. No canto oitavo, ao reconhecer um inimigo pessoal (Fillipo Argenti)  que se dirige a Dante pedindo piedade (vedi che son um che piango), o poeta o desdenha e amaldiçoa (con piangere e con lutto, spirito maladeto, ti rimani)  e o que é pior é elogiado por Virgílio pelas sua imprecações (alma sdennosa, bevedetta colhei che’nte s’incide). Que tipo de olhar é este de Dante? Excludente. Fruto dos horrores da sua época ele também está tocado pela intolerância e o amargor de uma época amarga. Vê seus inimigos pessoais como merecedores da pena do Inferno, goza com seus sofrimentos e é elogiado por isto. Neste aspecto a Comédia diz o quão longe Dante tinha se afastado do ideal do mundo clássico. Sua teologia exigente não é fruto do humanismo grego – que ele não por acaso deixa no vestíbulo do Inferno – mas é o resultado da perspectiva mosaica da Bíblia. Dante a partir daí começa a descrever o Inferno como uma câmara de torturas. Seu rigor no julgamento dos homens é tal que chega a contagiar a poesia clássica, ou seja, Virgílio torna-se tão desapiedado quanto Dante e exige o deleite com esta impiedade (avante che la proda ti si lasci veder, tua sarai sazio:(di tal disio convien che tu goda). O estranho prazer sádico de Dante. O mundo clássico se cala. Afinal foi um sinal se sanidade metafísica da sociedade grega, o Hades ser concebido como um espaço estático, moradia de sombras, e não um lugar onde o horror seria apreciado. Dante contagia nosso julgamento do mundo e retira a luz que os gregos deixaram para a civilização. Balbucia como um bárbaro em versos perfeitos. Mesmo no contexto edificante do poema a crueldade de Dante é demasiada. Assim, como, perguntamos, poderia se identificar o Amor Divino com tanta crueldade? Uma distinção, no entanto, é necessária: para Dante aquele sofrimento era real e justificado, sancionado pela justiça de Deus. Um Deus bárbaro para uma época bárbara, um Deus a imagem e semelhança do homem que n’Ele cria. Na supervisualidade de Dante testemunhamos um terror mais poderoso que o cinematográfico, pois a imagem do Inferno passa, não em uma tela, mas dentro de nós.

A base da cultura de Dante é a Idade Clássica mais os Evangelhos. Mas são os evangelhos os filtros através dos quais ele vê o passado. Nada mais alheio a seu entendimento que a vastidão compreensiva da cultura grega, sua heterodoxia abrangente. A teologia intolerante de Dante não pôde ser generosa nem ao menos com aquilo que o formara. Dante não está interessado na Justiça e sim na Verdade. É neste aspecto que ele é o ápice e o final se uma época, ele fecha a Idade Média dando-nos a sua súmula mental. Logo depois viria o Renascimento com a sua veneração pelos gregos, encerrando o sentido total do domínio mental da ideologia católica sobre o mundo. Todo o horror das imagens que ele nos dá são o psiquismo do homem medieval. Serão o nosso? De certa forma sim, ainda.

O Deus Bárbaro e o Espelho do Medo

As imagens do Inferno deram o tom para os horrores do castelo de Sade (em que pese a admiração de alguns intelectuais como Breton, Buñel, Paz por Sade); do imaginário de Kafka , dos campos de concentração, das várias prisões, do cinema de terror norte-americano. Suas imagens corrosivas tornaram-se parte de nosso repertório de pesadelos. Talvez por isso seja necessário lê-lo com cuidado. Afinal Dante é um poeta construtivo. Mesmo a sua descrição do Inferno é um contraponto para o Purgatório e o Paraíso, a sua visão ascendente mira a luz. Foi um determinado tipo de mentalidade que escolheu o Inferno como leitura mais constante. Uma leitura só da primeira parte da Comédia é uma leitura parcial e incompleta, pois não ressalta que a insistência de Dante no obscuro é um prenuncio gradativo da apoteose luminosa do Paraíso. Para ele seu poema tinha status de Verdade, substituía as escrituras. Como poeta ele assumia o papel do vate, aquele que adivinhava o mundo vindouro que seria de acordo com a sua voz. Desta forma o Inferno, escuríssimo, terrível, era uma passagem necessária do espírito que buscava se purificar. Mesmo na escuridão o poeta se sabia pretendido pela luz e por ela escolhido. Sua certeza de ser salvo é a do orgulho de alguém que é apenas um instrumento nas mãos da Verdade. Dele se pode dizer que o humano não lhe diz respeito, só o divino lhe interessa, o sobre-humano mesmo no sofrimento que é um prenúncio do sobre-humano na salvação.

Ulisses: O Embate entre Fé e Razão

Fico surpreso sempre  com o canto XXVI  onde é descrito o oitavo círculo, o lugar em que ardem em chamas os conselheiros fraudulentos. Ali o peregrino Dante encontra o pai de todos os peregrinos: Ulisses. E fico surpreso, pois, afinal, aprendi a amar Ulisses, o mais sofrido dos guerreiros gregos em Tróia, um rei-agricultor arrastado para uma guerra que não queria e que, finda a guerra, não consegue retornar para a sua mulher, seu reino, seu filho. Eu me pergunto: que razão teria Dante para condenar tão fantástico herói ao Inferno? Este herói homérico que engendra Virgílio e seu Enéas, um herói protótipo da inteligência e da astúcia? A única razão plausível para o destino de Ulisses no poema, é talvez, a desconfiança de Dante na pura inteligência humana não tocada pela fé, uma inteligência que prescinde de Deus e é em si um desafio a ordem estabelecida do mundo. Afinal, o que distingue a andança de Dante pela tríade Inferno-Purgatório-Paraíso das andanças de Ulisses pelo mundo é que Dante tem por objetivo o Paraíso, vai em busca do que já sabe que irá encontrar, seu ponto de chegada é igual a seu ponto de partida, pois desde o início já estava guiado ao seu destino. Ulisses não. E os versos de Dante o confirmam:

Ne dolcezza di figlio, né la pieta

Del vechio padre, ne’l debito amore

Lo qual dovea Penelopè far lieta,

Vincer potero dentro a me l’ardore

Ch’i ebbi a divenir del mundo esperto

E de li vizi umani e del valore.

É o puro saber que move Ulisses, uma alma curiosa, insaciável de conhecimento (ver o episódio das sereias). Ao contrário de Dante sua viagem não tem porto certo, a não ser o amor de uma mulher num horizonte mutável. O que Ulisses busca acima de tudo é o rompimento dos limites humanos. Ao pô-lo no Inferno Dante intuiu o quão perigoso seria para o seu estratificado mundo a força nua do mero desejo de conhecimento. Viu claramente que Ulisses era a alma humana, o anti-Dante por excelência, uma alma movida não pela fé ou pela luz, mas pelo ardor puramente intelectual do conhecimento. Nele Dante encontra um orgulho igual, mas dessemelhante ao seu em seus objetivos. Ulisses exorta seus homens no poema (e a todos os homens através dos seus):

Considerate la vostra semenza:

Fatti non foste a viver come brutti

Ma per seguir virtude e canoscenza.

Onde o mundo de Dante dizia non plus ultra o mundo de Ulisses respondia plus ultra. A Comédia, como testemunho maior de uma sociedade teológica voltada para Deus não poderia deixar impune este grande herói da astúcia e da inteligência humana, este protegido do intelecto, o amado de Palas Atenas. No fim quem venceu foi o destemido condenado Ulisses que mesmo no poema (uma ironia que não teria escapado a Dante) é chama, consome-se a si mesmo em uma luz mais alta, carboniza-se pelo que ousou, mas ousou, e foi preciso um Deus para matá-lo e um oceano:

Tre volte il fé girar com tutte l’aque

A la quarta levar la poppa in suso

E la prora ire in giú, com’altrui piaque

Infin che’l mar fu souvra noi richiuso.

Com todo um oceano sobre si, sepulto das águas, incendiado eternamente no Inferno, nada disso foi suficiente e, apesar de tudo, o símbolo Ulisses permaneceu como o mais espetacular exemplo de coragem humana. Do embate entre o peregrino da fé e o peregrino da razão, este último se mostrou mais persistente e no Renascimento, acima de Dante e apesar dele, reapareceu tal qual era, duplamente signo: a luz da inteligência que a si consome e que é a chama inesgotável da razão e da paixão.

A Comédia como Elegia de um Mundo

Mas, reflitamos: a Comédia é, afinal, um poema sobre a morte e isto é algo que frequentemente não é dito. É o maior poema sobre a morte do Ocidente, uma meditação, em versos frequentemente perfeitos, sobre a morte e a fugacidade da existência humana.  O tempo inteiro é dos mortos que ele fala, seus sofrimentos, sua esperança, sua felicidade; aquele “senza morte” é Dante, os outros são, ou conhecidos ou ocultos, pessoas que já não pertencem a vida e a seu ciclo. Em Dante o homem é um ser para a morte e ele poderia dizer como Montaigne que filosofar é aprender a morrer, se por acaso ele estivesse interessado na maneira como um homem morre. Mas não, para ele não se trata da preocupação humanista de Montaigne – já que Dante foi tudo menos um humanista – de facilitar a passagem do homem para a morte. Não, a preocupação de Dante é com a nossa relação moral com a Eternidade. Sua rígida ética é projetada na ação da vida – sempre relembrada pelos mortos – que no Inferno, Paraíso, Purgatório meditam sobre o destino inescapável que seus feitos engendraram.

Para Dante foi a morte de Beatriz, talvez, o que suscitou o poema, este ato que fez com que Dante passasse de um poeta da Vida Nova para o poeta da Comédia. É a tese de Borges. A morte deflagra o poema a partir de Beatriz, este grande amor ausente. A partir daí o real torna-se fantasmagórico e a região tripartida do além-túmulo torna-se real. É como se a morte do amor deslocasse o foco da poesia da vida para a morte. Um poema de amor enfim. Um poema sobre o amor que vence a morte, como Jesus saiu de entre os mortos, como Dante sairá de sua viagem pela morte para, na Comédia, dar testemunho de Beatriz, do Amor, da Divindade: do divino amor por Beatriz. Ele mira a vida da perspectiva de um amor guiado pela ausência. Em uma época em que a morte era banal Dante faz uma catedral em homenagem a ela, repensa-a, racionaliza-a, descobre na eternidade a soberania da ausência. A única coisa que pode se opor a ela é o poema, a forma perfeita que se sobrepõe ao nada, a perfeição que se opõe ao aniquilamento. Os tercetos de Dante são a exatidão que organiza o caos do não-ser. Aristotélico, Dante deu uma ordenação hierárquica ao inconsciente da Idade Média. Em uma rota ascendente do escuro a luz, do desespero até a esperança, cumpre as etapas da alma humana em seu périplo além da vida. Aquilo que viu, viu como uma imagem da eternidade, a ordem infinita do universo divino, suas fases, estágios, categorias. Viu o inframundo e o sobremundo; seu diálogo   com   os mortos determinava a ascendência da morte sobre a vida, do espiritual sobre o corpóreo, do meditado sobre o vivido, já que a sua viagem é uma ascensão em meio a fantasmas.

O que ele não sabia é que seu poema era uma elegia, o pensamento no crepúsculo de uma era. Seu evangelho não o era, em breve já não seria a verdade, mas o canto final de um mundo que se encerrava e fechava a cortina sobre o último ato de uma visão. O Renascimento já começaria a descrer daquela crença como verdade. Organizando o imaginário de medo e horror do homem medieval, este já poderia mirar o futuro e transformar-se. Neste sentido o poema de Dante é o trabalho de luto que liberta o espírito para um novo começo. Pacifica o sentimento obscuro pelo desconhecido da teologia medieval através de sua exposição; cura pela fala o terror exagerado, a esperança enganosa, o esplendor sem fundamento e torna o homem medieval mais livre. Enquanto toda aquela poderosa teologia foi não dita, poderia ainda dominar corações e mentes de milhares de homens e mulheres. Ao ser expressa (maravilhosamente expressa) perdeu a sua esfera de tabu intocável e tornou-se totem acariciado por várias mãos, uma teologia quase inócua, ou tendendo para a entropia. Talvez se Dante houvesse optado pelo latim a Comédia ainda seria uma arma obscura nas mãos dos padres e sacerdotes. Na língua do vulgo ela se doa sem áurea para todos. Desta maneira o poema se transcende, torna-se a sua negação. Ao invés de projetar para o futuro a sua visão da verdade, contra si, elabora o luto da morte de um mundo. É a última celebração, o ritual de passagem do bárbaro que, ao contato com cristianismo e o mundo clássico, supera a sua esquizofrenia. Uma das passagens mais dolorosas da alma humana, do sentimento confuso à luz do intelecto. Dante é o cantor de um mundo que agoniza, mas ele o ignora. É seu último vate, seu último bardo, deu derradeiro evangelista, e seu mais perfeito poeta.

10 de novembro de 1997

Posfácio: A Redenção no Purgatório

Este ensaio foi escrito há mais de trinta anos e deve ser lido hoje como aquilo que de fato é: um estágio de uma leitura que acabou por se estender por toda uma vida de dedicação a Commedia. Como todo estágio, ele deixa entrever tanto a possível riqueza quanto as evidentes limitações de qualquer leitura de uma obra dessa magnitude; uma obra cuja capacidade de gerar interpretações é necessariamente infinita e sempre maior do que qualquer leitor. E esta que aqui está, é claro, é uma análise necessariamente polêmica e imperfeita, pois a Commedia ao mesmo tempo que agiu, como suponho, lentamente, sustentou também toda a figuração de sua filosofia durante muito tempo e foi a armadura poética da fé durante centena de anos para milhares de leitores. Este movimento aqui descrito é o que se poderia chamar de efeito de longa duração numa leitura da história braudelianamente pensada.

Minha primeira tentação ao relê-lo agora foi então reescrevê-lo inteiramente: atenuar alguns de seus excessos, modular certas formulações demasiado enfáticas e corrigir o tom por vezes dogmático de alguma de suas afirmações. No entanto, pareceu-me mais fiel publicá-lo tal como foi escrito. Como testemunho de um momento de leitura, e também por fidelidade às virtudes e defeitos do leitor de trinta anos que o escreveu, ele permanece aqui sem alterações substanciais.

Cabe, porém, indicar o que hoje me parece ser a sua limitação mais evidente. Aquela leitura da juventude privilegiava, talvez excessivamente, o Inferno. Ao fazê-lo, acabava por reproduzir um equívoco frequente na recepção da obra, e que o ensaio espertamente deslocava para a interpretação de toda uma época: o de ler o Inferno como se ele fosse a parte essencial da Commedia. Essa perspectiva só poderia conduzir às conclusões a que o ensaio chega, conclusões que, embora muitas vezes inteligentes e defensáveis, permanecem inevitavelmente parciais e limitadas.

Com a renovada leitura e o amadurecimento, tornou-se para mim cada vez mais claro que a obra de Dante só revela plenamente sua força quando ultrapassamos esse primeiro reino. A partir do Purgatório — e depois no Paraíso — emerge aquilo que poderíamos chamar de sua fulguração humanista e sua luminosidade civilizatória, dimensões que relativizam e reordenam a experiência sombria do Inferno. E hoje sei que o poema só pode ser entendido corretamente quando pensado em seu conjunto. Uma afirmativa banal, mas que escapa frequentemente nas leituras críticas.

Não cabe desenvolver aqui essa outra leitura, assunto talvez para um outro ensaio. Mas posso dizer que, no estágio atual de minha relação com o poema, é sobretudo no Purgatório — esse canto intermediário, talvez o mais terreno e propriamente humano da obra, situado entre o submundo do Inferno e o supermundo do Paraíso — que hoje se concentram minha atenção, meu embevecimento e minha paixão de leitor.

Digo “estágio atual” com plena consciência de que nenhuma leitura da Commedia é definitiva, muito menos a minha. O conhecimento da Commedia é processual e sempre em movimento. Regressar a Dante é sempre recomeçar a perceber. A releitura do poema é um processo contínuo de aprendizagem, deslumbramento, surpresa, e a única atitude possível diante dele é permanecer disponível — humildemente aberto — às interpretações que ainda nos esperam em suas páginas. Peregrinos como Dante em sua leitura, sermos um pouco como Ulisses na frequentação de sua esfera infinita. Plus Ultra.

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