
Em uma tentativa de definição resumida da Tetralogia Napolitana podemos dizer que ela é, na sua essência, um romance de formação – mas de uma formação dupla. Acompanhamos a biografia de Elena Greco desde a infância nos anos 1950 até o envelhecimento, num arco de mais de sessenta anos. Nesse percurso, a protagonista expressa não apenas a construção de uma personalidade individual perfeitamente delineada, mas também a trajetória de uma geração de mulheres que, por meio de suas vidas, consolidaram os avanços da emancipação feminina no pós-guerra italiano. A Tetralogia é, assim, o romance da formação individual e da formação histórica coletiva de mais de uma geração.
Mas há mais. Justaposta e dialeticamente articulada à trajetória de Elena, surge a figura singular de Lila Cerullo – polo de dinamização do processo de amadurecimento da amiga, elemento determinante e estruturador de suas escolhas e reflexões. Lila representa (entre outras coisas), por sua vez, uma variação das estratégias, custos, ganhos e perdas de outra parcela de mulheres que se emanciparam no mesmo processo histórico, mas em ambientes sociais distintos e outros percursos existenciais.
O Mapa do Mundo Feminino e a Acuidade Psicológica
No plano geral, a Tetralogia é um romance do mundo feminino: não só uma história de amizade entre mulheres, mas o mapa de suas formações – o comportamento de suas mães, o movimento de suas amigas, o desdobramento de suas filhas, as batalhas de seus afetos. A longa e conflituosa relação de Elena com sua própria mãe, por exemplo, é tratada com acuidade psicológica lancinante e reveladora. E esses tratamentos psicológicos são o ponto alto e a distinção maior do romance. Elena Ferrante demonstra sensibilidade apurada para o jogo psicológico, para as estratégias afetivas, as armadilhas dos relacionamentos e as dinâmicas complexas que os governam. Sua análise do jogo psicossexual entre a autoimagem e a carência da protagonista em seus apaixonamentos é um dos pontos luminosos em que a autora desvela a complexidade abissal de nossas respostas emocionais e as dinâmicas da afetividade.
Ferrante possui um olhar muito preciso para detalhes interpessoais. As pequenas humilhações no tratamento, as mudanças de tom em uma conversa, os silêncios, os olhares e alguns deslocamentos mínimos de linguagem adquirem enorme importância emocional ao longo de todo o texto e em diversas situações. Muitas vezes o drama das personagens não está nos acontecimentos que as conformam, mas numa frase aparentemente banal brevemente dita ou numa hesitação quase imperceptível de rancor ou afeto mascarado. Esta sofisticação na análise e descrição da fricção entre os variados sentimentos dos personagens não decai ao longo dos quatro volumes e se mantém aguda até o final.
É sobretudo na psicologia das mulheres que a obra alcança sua maior complexidade. Ferrante descreve com precisão a rivalidade feminina, a complexidade do jogo emocional, a vergonha social, o desejo intelectual, o ressentimento, a dependência afetiva, a maternidade ambivalente, o medo do envelhecimento, a necessidade de reconhecimento junto a indiferença e o amor.
Nestas descrições, as personagens femininas nunca são idealizadas. Elas são frequentemente cruéis, manipuladoras, narcisistas, destrutivas. Mas ao mesmo tempo solidárias, empáticas, bondosas. Permanecem profundamente humanas pois vivem na ambivalência do real e isso justamente porque a autora evita simplificações morais e valorações psicológicas fáceis.
Poder Silencioso e a Violência Estrutural em Nápoles
Se o espaço geográfico privilegiado é Nápoles, sobretudo a periferia de Nápoles, e se neste espaço a máquina social é na superfície masculina com seus códigos implícitos de violência e machismo, devemos ter em conta uma disputa onde muitas vezes é a prerrogativa do poder feminino que se manifesta silenciosamente. Como exemplo, no perigosíssimo clã Sollara é a matriarca o poder silencioso que orienta a violência dos filhos. Na própria família de Elena o poder organizador (até pela força da personalidade) é a mãe. É a professora e sua insistência determinada que vai determinar o destino de Elena. Mais tarde na família do primeiro marido dela é a sogra a editora poderosa e ativa (frente a figura relativamente apagada do sogro) e entre outros tantos exemplos, a força determinante de Lila como empreendedora capitalista.
Se os homens no romance exercem continuamente poder sobre as mulheres: controlam, vigiam, humilham, agridem, e negociam seus destinos. a violência patriarcal não aparece como o desvio moral de alguns indivíduos, mas como modo de ser histórico deste mundo social, agora em conflito. Mas mesmo aí há a inscrição de uma intervenção feminina silenciosamente negociada (na sexualidade, na maternidade ou no imaginário) que se afirma mesmo em meio a uma sujeição evidente.
O Pacto de Amizade entre Lenu e Lila
Originárias deste universo de violência e pobreza Elena Greco (Lenu) e Raffaella Cerullo (Lila) vão viver um pacto de amizade que a todo momento superará as categorias simples do relacionamento inicial. Penso que a relação entre as duas dificilmente pode ser reduzida à categoria comum de amizade. Trata-se antes de um vínculo de fascinação, rivalidade, dependência, amor e disputa por reconhecimento e sobrevivência. Ferrante percebe bem e sinaliza: os sentimentos humanos não são puros. Admiração e inveja coexistem. Afeto e hostilidade aparecem simultaneamente. O amor é uma longa disputa, um conflito. A amizade pode ser um terreno agonístico. E o maior mérito de Ferrante está precisamente aí: na descrição das relações humanas em sua profundidade psicológica. Especialmente a relação feminina. Ferrante escreve uma narrativa cuja centralidade absoluta é a experiência da mulher.
Essa centralidade feminina torna-se ainda mais evidente quando se compreende a tetralogia como romance de formação. Apesar do magnetismo narrativo de Lila, o verdadeiro percurso formativo é o de Lenu. É a sua narração que tenta dar forma a experiência vivencial de todos aqueles sujeitos. A trajetória de Elena Greco coincide com transformações históricas decisivas da segunda metade do século XX: democratização parcial da educação, expansão universitária, emancipação sexual, novos papéis femininos, segunda onda do feminismo, entrada das mulheres no mercado de trabalho intelectual. Lenu encarna uma experiência histórica específica: a da mulher italiana que atravessa a modernização social e cultural do pós-guerra.
Língua Culta versus Dialeto: A Subjetividade em Disputa
A educação desempenha papel central nesse processo. Aprender italiano culto significa para Lenu muito mais do que adquirir domínio linguístico. Significa reformar a própria subjetividade. O italiano padrão aparece associado à escola, ao Estado, à cultura letrada e à ascensão social, ao mundo externo. Já o napolitano permanece ligado ao bairro, ao corpo, à violência, à intimidade e à origem popular, a interioridade mundana,
Também aí a relação entre Lenu e Lila torna-se então especialmente significativa.
Lila funciona como contraponto radical de Lenu. As duas partem das mesmas condições sociais, mas percorrem trajetórias diferentes. Lenu encontra na educação uma via de emancipação relativa. Lila permanece mais diretamente aprisionada pela dinâmica da violência do bairro.
Mas Ferrante evita construir uma oposição simples entre “sucesso” e “fracasso”. Em muitos momentos, a narrativa sugere que Lila possui uma potência intelectual talvez superior à de Lenu, uma inteligência medular, natural, vital. Lida assim, essa questão torna-se então profundamente política: o que acontece com uma inteligência feminina extraordinária quando lhe faltam os mecanismos institucionais capazes de transformá-la em reconhecimento legítimo?
Lila é ao longo do romance o ponto de tensão de toda normatividade da trajetória de Elena e até o fim sinalizará a fratura e a cisão de uma vida que se supõe projeto.
A Linha Subterrânea da Repetição Involuntária
Um dos traços desta fratura é a força do atávico, o poder do hereditário, o ponto do determinismo. Uma parte importante do romance sugere que traços hereditários são conformadores e de uma certa forma inescapáveis. Por exemplo: Elena repete com suas filhas a contradição afetiva de seu relacionamento com sua própria mãe. A uma certa altura emula em si fisicamente o coxear da mãe, seu modo de andar e até de agir. Nino reproduz a superficialidade emocional do pai e seu frenesi sexual, sua afetividade estratégica e hipócrita. Lila expressa a profunda criatividade descoordenada de seu pai e seu feroz individualismo. Pascoale, fisicamente, historicamente, reencena o destino do pai preso.
Nesta linha a Tetralogia inscreve, paralelamente ao seu movimento de ascensão e emancipação, uma linha subterrânea de repetição involuntária. Elena manca como a mãe; Nino seduz como o pai; Lila desaba na mesma criatividade descoordenada de Fernando; Pasquale cumpre a pena herdada. Não se trata de simples biologia, mas de uma hereditariedade de gestos, afetos e destinos que mesmo a educação não apaga — apenas desloca. O texto recusa tanto o otimismo da formação absoluta quanto o determinismo do sangue. Sua afirmação talvez seja a de que podemos nos transformar, mas carregamos inapagáveis as determinações de nossa origem e de nossa classe social.
Parte disso é muito bem expressa na questão dos dialetos. O napolitano expressa, no romance, este mundo essencial do corpo e da vivencia direta e “autentica”. Falar italiano corretamente significava ascender socialmente, entrar no mundo escolar, adquirir legitimidade cultural, mas significava também afastar-se do próprio meio de origem. Mesmo quando Lenu domina plenamente o italiano culto, o bairro continua dentro dela como memória corporal da linguagem: vergonha, raiva, reflexo afetivo. Esta fala representa no romance uma atenção ao corpo, materialidade da classe social, a proximidade da linguagem popular, a violência verbal nos afetos.
Esta centralidade do dialetal me remete para outro aspecto central na Tetralogia: Nápoles, a cidade histórica que no romance se corporifica na dinâmica de suas personagens.
O Planeta como um Enorme Fosso Carbonário
No último volume Lila, em sua deriva espiritual após o desaparecimento da filha anda pela cidade e faz estudos complexos sobre a sua história e a sua geografia. E diz assim:
“ Agora estou lendo um velho artigo sobre San Giovanni a Carbonara, em que se explica o que era a Carbonária ou o Carboneto. Eu achava que ali antigamente houvesse carvão, que houvesse os carbonários. Nada disso, lá era o lugar do lixão, que todas as cidades tinham. Chamava-se Fosso carbonário, e para lá escorriam as águas imundas, lá eram jogadas as carcaças dos animais. E o Fosso carbonário de Nápoles se encontrava, desde os tempos antigos, onde hoje está a igreja de San Giovanni a Carbonara. Naquela área, chamada de piazza di Carbonara, em sua época, o poeta Virgílio ordenara que todo ano se fizesse o ioco de Carbonara, jogos de gladiadores, mas não com morte de homini come de po è facto — ela gostava desse italiano antigo, se divertia, o citava com evidente prazer —, e sim para exercitar os homini ali facti de l’arme, treiná-los para o uso das armas. Mas logo já não se travava de ioco ou de exercício. Naquele lugar onde se jogavam os bichos e as imundícies começaram a derramar também muito sangue humano. Parece que ali também foi inventado o jogo de atirar prete, as pedradas que a gente trocava na infância, lembra, quando Enzo me acertou uma vez na testa — ainda tenho a cicatriz — e se desesperou e me deu de presente uma coroa de sorvas. Mas depois, na piazza di Carbonara, das pedras se passou às armas, e ali se tornou o lugar onde se combatia até o último sangue. Mendigos, nobres e príncipes acorriam para ver como as pessoas se matavam por vendeta. Quando algum lindo rapaz tombava atravessado por lâminas batidas na bigorna da morte, burgueses, reis e rainhas se desfaziam em aplausos que subiam até as estrelas. Ah, a violência: lacerar, matar, arrancar. Entre fascinação e horror, Lila me falava misturando dialeto, língua italiana e citações eruditas que aprendera sabe-se lá onde e recordava de memória. Todo o planeta, dizia, é um enorme Fosso carbonário.
E no estabelecimento desta moldura para aquelas biografias encerradas, propunha uma leitura para além do recorte histórico e geográfico. De todo o narrado, com toda a sua complexidade moderna, estava disposta a violência e a fascinação de uma memória que naqueles fatos se atualizava. Onde a experiência feminina estava amalgamada a vertigem do todo. Onde os quatro atos da vida das personagens, infância, juventude, maturidade e velhice fossem as ilustrações momentâneas de um enorme Fosso.
Esta leitura, necessariamente incompleta e parcial de uma obra ampla e complexa, talvez possa contribuir como uma homenagem deferente aos poderes da literatura de ampliar o sentido de nossa existência e de nossas sensibilidades simpáticas aos limites do sofrimento humano. A melhor homenagem a um grande texto será sempre, eu creio, a sua reflexão honesta e ponderada. Este ensaio é a minha tentativa








