
Há encontros com a arte que não se dão pela grandiosidade, mas pela insistência silenciosa. Diante de certos quadros, a reação mais comum não é a admiração imediata, mas uma hesitação íntima — um estranhamento que pergunta se aquilo é profundo ou ingênuo, se é grandeza ou acaso. É nesse território sutil, na fronteira entre a simplicidade e o mistério da sofisticação, que a pintura de Paul Klee nos espera. Na história da arte sua obra opera um milagre de equilíbrio. Na minha experiência, descobri que a pergunta ‘você gosta de Klee?’, funciona como um delicado sinal da sensibilidade pictórica. Uma afirmação positiva — e são poucas — sinaliza um espectador habituado a buscar a poesia além da superfície narrativa. A resposta mais comum e reveladora, porém, é um ‘aquilo eu também faço’, que denuncia não a arrogância, mas uma acomodação ao gosto estabelecido, uma cegueira diante do refinamento que se esconde sob traços aparentemente infantis.
O Estranhamento e o Refinamento de Paul Klee
Pois Klee é um dos raros pintores modernos em que o refinamento coincide com a simplicidade, acredito que mais sofisticado que Miró, mais inventivo que Dali, mais amplo que Kandinsky, de quem foi discípulo e a quem, creio, ultrapassou na concretização sensível do espiritual como um projeto, transformando as teorias cósmicas e espirituais de Kandinsky em epifanias tangíveis de linha e cor.
Klee vs. Kandinsky: A Concretização do Espiritual
Pois, se Kandinsky concebeu o espiritual como um horizonte teórico a ser alcançado pela pintura, Paul Klee realizou o movimento inverso e daí mais raro: concretizou sensivelmente o espiritual, retirando-o do domínio da abstração doutrinária e devolvendo-o à experiência imediata do olhar. Em Kandinsky, o espiritual precede a obra e a orienta como um sistema de correspondências; em Klee, o espiritual emerge do próprio fazer pictórico, do gesto mínimo da linha que se desloca, da cor que vibra em sua simplicidade, da forma que se oferece como epifania e não como símbolo evidente. Onde Kandinsky aspira à ruptura com o mundo visível em direção a uma elevação cósmica e por vezes mística, Klee mantém-se fiel à imanência do sensível, permitindo que o invisível se manifeste discretamente naquilo que é pequeno, lúdico e aparentemente ingênuo. Sua pintura não quer traduzir o espiritual: ela o encarna. Não há nela a grandiloquência do profético, mas a delicadeza do poético; não a tensão dramática da ascensão, mas a calma profunda de uma progressão interior. Assim, Klee não nega Kandinsky — ele o cumpre, ao transformar as ambições metafísicas do espiritual em acontecimentos concretos de linha e cor, acessíveis ao olhar comum, mas exigentes à sensibilidade.
E assim Klee é o poeta central do expressionismo pictórico, seu maior lírico e, eu diria, o seu mais puro pintor.
Nascido na mesma década que Franz Marc, Picasso, Braque (todos de 1880), de uma geração de gênios – Modigliani, Chagall, Magritte – Klee de todos se distingue e individualiza sua personalidade em uma pintura intimista, direta e vigorosa.
O Universo Escritural: Linha, Massa e Cor
Os desavisados se espantam com a sua aparente simplicidade, suas linhas sem contradição evidente, seu grafismo infantil, sua imaginação geométrica. Procuram conteúdo em uma pintura essencialmente fenomênica, que se dá como uma epifania em pequenas telas, e suportes reduzidos. Mesmo o conteúdo, quando é demasiado aparente, é apenas um instrumento para a intensidade lírica de sua pintura. Lírica, porém não primitiva, já que a pintura de Klee é profundamente intelectual, mental, subjetiva, dá-se mais diretamente ao cérebro e ao inconsciente, a plenitude da sensibilidade, enquanto a pintura primitiva trabalha com pressupostos que estão além e aquém do mundo pictórico. Com Klee é o contrário que se dá, pois a ele só interessa o universo escritural da obra, sua verdade intrínseca, – aquela que é reflexão pura – e se mostra na linha, massa, cor, textura muito além daquilo que foi observado à primeira vista.
Tome qualquer quadro seu e a primeira relação que se estabelece é espiritual, um encontro fenomenológico cujo suporte está na relação entre o sujeito e o objeto, onde o centro focal, a estrutura, está presente e ausente ao mesmo tempo. Esta áurea misteriosa e mágica de sua pintura não se propõe por acaso, mas faz parte da intenção da obra, ela é uma força natural e abarcar o espectador é seu objetivo. Ainda que este tomar o espectador se dê em telas essencialmente pequenas cuja humildade artesanal é evidente, sua ambição é desmesurada, total, pois ele mira a formação de um novo tipo de sensibilidade do olhar.
A Poética do Minimalismo e a Conferência de Iena
Daí a sua extrema concisão, já que a concisão é um dos atributos centrais da poesia moderna, pois se ele estivesse interessado em expressões épicas optaria por suportes maiores e pela grandiloquência de superfícies extensas e dos murais, associando-se aos grandes temas. Mas não, seu suporte ideal é a aquarela e o nanquim, a estopa e o óleo, o tecido cru, crayon, o pastel. Este minimalismo do suporte trai a filosofia que sustenta toda a sua pintura: é da delicadeza do gesto, da pureza especial da arte que nasce o quadro e sua persuasão se dá pelo convencimento interior próprio do discurso lírico.
Na conferência de Iena ele confessa que sua grande matriz é a natureza, compara o artista a uma árvore cuja copa seria alimentada pela seiva da experiência, divaga a respeito da linha – e a linha seria a sua forma mais usual de expressão, seu instrumento perfeito de verbalização do mundo – fala da cor e da transparência, revela enfim o substrato teórico de sua arte informada, de sua sofisticação imagética ganha à custa de uma profunda meditação e muito trabalho.
Pois o que desnorteia em Paul Klee é a simplicidade infantil raramente conseguida na arte moderna e que na sua obra é a característica mais constante e evidente. Pegue-se, por exemplo, a aquarela “Carnaval na Montanha” de 1924 ou o belíssimo óleo e guache sobre gesso de 1927 chamado “Lua Cheia” e observe-se a pureza da cor e a inocência emblemática destes dois quadros, suas linhas precisas, sua breve alegria narrativa. Todo o lirismo de Klee está exemplificado nestas duas pequenas telas.
Senecio: A Mona Lisa de Klee e a Sabedoria da Infância
Em Senecio (óleo sobre tela de 1922) temos a síntese desta difícil simplicidade de Klee. Este quadro de pequenas dimensões (40,3×37,4) descreve um rosto onde predominam os olhos vermelhos que, dada a sua posição, nos olham e nos evitam. As cores quentes deste rosto aprisionam os nossos olhares. Sua penetrabilidade é apenas aparente, por trás do desenho simples há uma expressão tão enigmática quanto a da Mona Lisa. Círculo perfeito dominando a inteireza da tela, predomínio do geométrico sobre o sinuoso, esta face está cuidadosamente distribuída, mas a sua grandeza é irredutível às palavras. Pode-se olhá-lo no silêncio, pode-se mirá-lo como quem descobriu a chave de interpretação do mundo e, no entanto, este rosto perfeito é que nos pesa, interroga e medita, é nele que temos que nos mirar como ele nos mira e é sua beleza que nos julga. E ele nos pesa com um sobrolho pensativo já que há uma dissimetria contemplativa entre o olho esquerdo e o direito. Triangular e cético no olho destro, oriental neste levantar de pálpebras sem pestanas, erguido um pouco acima do olho esquerdo, frio e pensativo. No sinistro arredondado pela sobrancelha, calmo e mortal, genuinamente humano e triste, um olho que vê à morte sem pesares. Todo conjunto deste rosto exprime uma calma nobreza, uma compreensão infinita. E, no entanto, é um rosto estilizado, uma feição humana em um rosto de brinquedo. Eu acredito que seu caráter hierático e piedoso, a força de sua contemplação esteja na feição mágica que Paul Klee consegue imprimir em seus quadros. No caso de Senecio, sem dúvida, a forma redonda, sugerindo perfeição equilibrada de sol, as cores quentes (basicamente laranja, vermelho e amarelo) irradiando calor e conforto, o desequilibro sutil do olhar quebrando a placidez da figura, todos estes elementos constroem um desenho mítico, imerso no real e, ao mesmo tempo, absolutamente ausente de todo real. Todo o conjunto do quadro passa uma sensação de conforto. Sentimo-nos tentados a perguntar como sua figura nos vê, se nos compreende e aceita. Vê-lo é aspirar a nossa mais distante infância, mas uma infância que nos recebe e compreende, a sutil infância da alegria, ou, mais ou menos como se diz, a sabedoria da infância.
Lirismo como Resistência: A Esperança em Tempos de Barbárie
Da arte vasta de Paul Klee, é o sentido mítico da infância, a pureza da cor, a diretividade das linhas, a inocência do desenho sua descoberta mais específica. Apesar da inutilidade da comparação de duas artes diferentes como a pintura e a poesia, é difícil não o descrever como poeta e, ao menos para ele, a palavra lirismo não está fora do lugar. Paul Klee foi um lírico na realização de telas íntimas cuja amabilidade fala ao coração do mundo. Uma das poucas pinturas do pós-expressionismo alemão que prescinde da violência e que não é uma arte humanista, não ao menos no sentido em que foram humanistas Picasso e Matisse e sua invenção pictórica que visava aos grandes sentidos dos homens.
O radicalismo formal da pintura de Klee nunca o é como nas vanguardas do início do século 20, distanciado da inocência, mas sim, ao contrário, é na inocência, este ver e ater-se aos materiais e as cores como na infância, que Klee funda as raízes profundas de sua arte. Daí o lírico, pois o lirismo toma as coisas como inocentes e puras e projeta no mundo uma leveza que o transfigura sempre em um ato de esperança. Klee, mesmo renegado em meio ao furor nazista (arte degenerada) mesmo rejeitado pela estúpida burguesia suíça de sua época (pintor esquizofrênico) mesmo sofrendo da doença que o levaria à morte (esclerodermia), pintou com cores claras o coração misterioso da natureza. Jamais julgou com angústia o mundo ao seu redor. Até o fim a sua pintura manteve o equilíbrio entre a claridade e a alegria, entre o fulgor da descoberta e a realização visual do sonho. Sua obra, em um século de horrores e de matanças, nos conforta do mundo, é reflexiva, mas possui humor e leveza e tenta nos manter vivos e felizes na comunhão com o mistério sempre renovado da esperança.