Ou “A Quimera Resolvida: Quase um Ensaio sobre um Morto Sem Nome”

Pensei este blog como uma arena de ensaios, a exposição não sistemática de uma trajetória um pouco equívoca de muitas leituras desencontradas. A biografia de um leitor de livros, de quadros, de mundo. Tangenciei uma pequena fuga ao inserir um leve poema sobre Rodin, que se justificava por ser uma observação ensaística sobre a filosofia da arte em forma de meditação sobre as esculturas do mestre impressionista. Ou seja, contrabandeei um poema no universo eminentemente prosaico (como determinei no princípio) do Blog.

Não posso evitar. Rebelado contra os meus princípios, mais uma vez venho para romper as minhas próprias regras e proponho um poema. Não posso evitar. A minha única desculpa é dizer que, talvez, haja nestes versos despretensiosos algo de uma meditação filosófica que não desmereça a pretensão ensaística deste blog. E se, ao final, tudo é apenas pretendido, fique os versos como uma dissonância, o ruído complementar que na totalidade dos escritos ofereça uma Gestalt e assim fique tudo dito.  

Litania

este morto não tem nome não tem voz 

falta-lhe mesmo o corpo, está a sós

perto de si mesmo, longe de nós

sutilizado em seu destino.

este morto não possui, não é possuído

está puído na lembrança, no esquecimento

tem uma sombra de cimento que não pesa,

é como eu e você;

 tem uma beleza

que já não se vê

 e uma calma.

este morto terá alma?

e se alma tiver, tem um destino? 

destinava-se desde menino a morto

(como todos nós). agora chegou a bom porto

— chegaremos nós.

este morto agora é como se já fosse

quando dormia; é claro que já não respira 

mas quem jurará que não suspira

que no átrio da lembrança não trará 

um coração nostálgico de não ser

quando era, agora que a quimera resolvida 

fá-lo ser na morte o que não foi em vida?

este morto é morto há um longo tempo

(mais longo do que foi em vida).

é morto há milênios como morreremos, 

como um dia estaremos juntos.

agora já não olha para nós, nos ignora,

o pesadelo da historia já não o assusta.

a música já não soa a seus ouvidos.

ele é perfeito silêncio em solidão

perfeita comunhão com o mundo. 

este morto não tem nome, não tem fome 

a faina da vida não o asfixia 

conhece a ataraxia

e, talvez, a sabedoria.