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A Cidade como Ficção e Memória: As Cidades Invisíveis de Italo Calvino

O Lugar do Leitor Comum

Chamado a falar sobre As Cidades Invisíveis, de Italo Calvino, venho para ocupar este lugar do leitor — aquele que, em língua inglesa, Virginia Woolf chamou de Common Reader, o leitor comum. Este leitor comum difere do crítico ou do estudioso; ele não é um erudito. Lê para seu próprio prazer e é guiado por um instinto de autocriação e autoeducação. Seu mais ilustre antecedente histórico seria Montaigne. Algo de um encanto genealógico deste tipo está sem dúvida nos Ensaios.

Penso que o essencial desta sentença seja a ideia da leitura como um prazer; não uma atividade ligada à criação ou ao mercado de circulação do livro, ou mesmo ao estudo e às universidades, mas a leitura como uma alegria pessoal, privada. Esta ideia da leitura como uma ação alegre está maravilhosamente expressa naquela frase de Borges (nos Nove Ensaios Dantescos), em que ele afirma que a leitura da Comédia é uma das formas da felicidade. Ou seja: um destes momentos mágicos da vida em que um encontro te completa e você vive uma espécie de epifania secularizada.

Então, é deste ponto de vista que vou dizer o que As Cidades Invisíveis significou para mim e o que este livro me ensinou.

A Estrutura Matemática e Poética de Calvino

As Cidades Invisíveis não é um romance. Calvino disse em uma entrevista que a base do livro foi construída sobre dois modos de retórica literária: o apólogo e a descrição. O apólogo, por definição, é uma narrativa em prosa ou verso, geralmente dialogada, que encerra uma moral, uma lição. A descrição é uma narração detalhada sobre algo ou alguém, que acontece através da enumeração de características ou eventos.

Ora, na estrutura do livro, isso é um pouco mais complexo. Temos 55 cidades (todas com nomes femininos) e 11 temas ou legendas. A configuração é dupla: 18 diálogos entre Polo e Khan (nove de abertura e nove de fechamento para cada estrutura). Na cidade número 3 do tema “os olhos” (Bauci), temos o meio exato da narrativa, com 27 cidades anteriores e 27 posteriores. Além disso, os temas se deslocam a partir do segundo bloco em ordem decrescente (5, 4, 3, 2, 1), onde o primeiro título esgota aquela série e o último inaugura uma nova legenda.

Isso se refere, basicamente, à matemática combinatória aplicada à literatura. Há também toda a proposição da relação da complexidade do livro com a de um jogo. Neste jogo complexo Calvino reinventa o apólogo e amplia a capacidade da arte da descrição. Seus dois recursos retóricos escolhidos são levados a um ponto máximo.

Mas não tentarei falar das complexidades estruturais e das várias proposições sobre a linguagem e a memória, sem dúvida essenciais para a compreensão do livro, correndo o risco de repetir o que outros podem falar melhor que eu. Vou dizer da minha relação desnudada, direta e franca com o livro.

Em primeiro lugar, penso que As Cidades Invisíveis é um livro muito poético. Quando o li pela primeira vez, a primeira coisa que me ocorreu é que era um livro para ser lido em voz alta, para ser recitado. Sendo uma obra muito visual, uma obra plástica, pareceu-me que a concretude da voz era o melhor meio de dar substância sonora às imagens que tão poderosamente apareciam no texto. Em voz alta, a materialidade das paisagens, casas e pessoas se tornava mais clara e mágica; o texto, como um desenho, formava-se em volta de nós.

Mas este desenho era como o de um sonho: grandes paisagens primitivas, arquiteturas do impossível e do improvável, cuja fugacidade o meu ato de enunciá-las tentava anular. Daí que a abertura do livro, em que aparece a angústia de Khan, fez-me refletir sobre a brevidade de minha própria vida e a fragilidade de minha época. Parece triste, mas isso dá uma certa perspectiva temporal quando vivemos em tempos tão pesadamente politizados e quando a própria história parece um pesadelo. Parece dizer: “isto também passará”. Ao enunciar o texto em voz alta, eu pressentia uma espécie de consolo.

O Rio de Janeiro e as Cidades Sobrepostas

Outro aspecto muito pessoal é como o livro agiu sobre a minha relação com a minha própria cidade, o Rio de Janeiro, onde nasci e envelheci. A cidade que nos anos sessenta era quase um balneário amável, onde Tom e Vinicius haviam inventado a Bossa Nova, transformou-se em uma megalópole ensandecida e violenta, uma cidade à beira do caos.

Veio-me à mente esta sobreposição de cidades sobre cidades, esta vertigem sem fim: a colonial do Paço Imperial e do Cais do Valongo; a imperial do Palácio da Marquesa de Santos; a da República Velha do Palácio Monroe; as construções em Art Déco e Art Nouveau no centro velho; o modernismo do antigo Ministério da Educação. Olhando para ela, vi Manuel Antônio de Almeida, Machado na Rua do Ouvidor, Manuel Bandeira no Beco da Glória, Drummond, Cabral, Nava, Gullar…

A Veneza de Marco Polo — a cidade da qual ele nunca iria se libertar — era, para mim, então, o Rio de Janeiro de minha memória, imaginação e afeto. Não uma cidade apenas, mas várias cidades soterradas. A da memória e do desejo; a dos símbolos e da sutileza; a das trocas e dos olhos; a dos mortos e a oculta. A cidade que abandonei e para a qual retorno e que talvez, como as de Calvino, não seja mais que uma ficção. E este foi o segundo impacto: entender que, da ampla meditação supratemporal sobre o espaço feita por Calvino, eu podia extrair uma experiência concreta, pessoal e íntima.

A Cidade Invisível

Esta percepção deu-se definitivamente há poucos anos, em 2018, nas escavações para o VLT no centro antigo do Rio. Na época, enquanto revolvia o solo da cidade, a companhia responsável pelas obras foi surpreendida ao encontrar um cemitério de escravos do século XVIII em frente à Igreja de Santa Rita. Com as obras suspensas, via-se no rosto dos responsáveis o aborrecimento com aquelas pedras veneráveis, aqueles esqueletos calcificados e nus brotando do solo — coisa mineral e, portanto, eterna. Eles testemunhavam a existência dos mortos, recordando-nos de que todo aquele mundo moderno ali em torno também morrerá; que a impaciência, a velocidade e a indústria de hoje também estão fadadas à decadência, à morte, ao sepultamento e ao olvido. Pois, convivemos com uma cidade invisível debaixo dos nossos pés e esquecida. No entanto, ela é maior que a cidade visível, mais persistente e de certa forma mais real. E mais real pois se constrói de nossa desaparição e fugacidade e aumenta com a nossa ruína e esquecimento, sendo edificada indefinidamente na medida em que nos consumimos na ação inexorável do tempo.

DANTE: DA VITA NUOVA A DIVINA COMMEDIA

O ensaio que segue foi escrito há mais de trinta anos. Publico-o aqui como um registro de um momento de minha leitura da Commedia, não como formulação de uma interpretação definitiva (a qual nunca alcançarei), mas como etapa de um diálogo que essa obra continua a exigir de seus leitores.

As Três Eras da Leitura de Dante

                                                   “Chi è costui che sanza morte

                                                   va per lo regno de la morta gente?”

                                                                                       Inferno, canto VIII, 84/85.

                                                                            

“Amor, ch’a nullo Amato amar perdona,

mi prese del costui piacer sí forte

che, come vedi, ancor non m’abbandona.

Amor condusse noi ad una morte”.

Inferno, canto V, 103/106.

Das várias leituras possíveis da Comédia foram três, cronologicamente, as mais importantes: até o Renascimento ela era tida como uma espécie de verdade: a arquitetura descrita por Dante apavorava os pecadores com o Inferno, os consolava com o Purgatório e os rejubilava com o Paraíso. Afinal, Dante havia recolhido do imaginário cristão de sua época o que os homens julgavam fosse a verdade; apanhara as imagens espectrais dos sonhos de seus contemporâneos e as transformara  na mais alta poesia. Porém ninguém se iludia, ele era tido como o homem que fora ao Inferno e voltara e que nunca mais sorriu. Sua mensagem poética, apocalíptica no Inferno também trazia a boa nova evangélica do Paraíso e esta imagem se casava com a crença profunda do Medievo onde a religião era a realidade total do mundo. Assim até o Renascimento (o final da Idade Média) a Comédia tinha o estatuto de verdade teologal, descrição inspirada da ordem perfeita do universo, composta em um todo tripartido como a trindade, mas misticamente una e inteligível em sua organização.

Com o advento do racionalismo grego no coração do Renascimento esta esfera da verdade se diluiu. A Comédia começa a ser lida como história e simbolismo, crônica de uma época unida a uma poética superior. Até o Iluminismo, que historicizaria até mesmo a Bíblia, a Comédia foi lida como documento de época (as conturbações políticas da dividida península itálica durante a Idade Média) e como manual de excelência poética. Seu maior encanto era ainda a força intelectual do poema que subordinou o complexo universo do Trecento à terza rima. Porém seu poder disciplinatório (pelo medo e recompensa) já não era mais levado a sério.

Por fim, do Iluminismo em diante, a Comédia começa a ser lida como Arte Poética perfeitamente realizada, ápice da construção poética do Ocidente, clássico entre clássicos, o mais importante poema da Cristandade. Sua ideologia, amparada em um domínio absoluto da escatologia cristã sobre a alma humana já estava tão distante da vida cotidiana como os deuses gregos da Odisséia. A Comédia tinha cumprido o seu ciclo e dessacralizara-se em um mundo alheio ao sentimento do sagrado. De verdade explanatória total de todo o universo, transformara-se em explicação parcial de um determinado momento da história, a tradução de uma filosofia datada (a escolástica tomista) em poesia elevada. Desta maneira resvalou, como outros clássicos, para o abismo dos livros muito citados, mas pouco lidos.

Mas em todas as épocas a Comédia foi tida como alta poesia, a perfeita organização da palavra para o mais belo fim. Jamais perdeu sua aura de perfectibilidade poética. As escolas de poesia vão e vem, os poetas nascem e morrem e a catedral perfeita da Comédia continua na paisagem literária como a mais bela obra já forjada em palavras. Aventurar-se a lê-la é compreender o privilégio de um poeta como Dante, ver o porquê de seu orgulho, deleitar-se com sua inteligência, compartilhar com ele da perfeição. Lendo a Comédia compreendemos porque Dante foi o único homem de toda a história que, não sendo santo, foi objeto de uma encíclica papal e como nesta encíclica a Religião paga seu tributo a Poesia.

A Poética Visual e o Silêncio do Inferno

Antes de tudo Dante é um poeta visual, poroso, concreto. Vê e faz ver. Observe-se esta personificação do medo logo no início do poema, um medo completo dentro e fora de nós: 

Allor fu la paura um poço queta

che nel lago del cor m’era durata

la notte ch’i’ passai com tanta pieta.

O medo, aquietado no lago do coração após uma noite inteira de pavor, se presentifica nestes versos em uma imagem clara através da repetição da letra ‘a’  (paura, queta, era, durata, pieta); um exemplo da poética material de Dante que apresenta aquilo que fala, mostra o que diz. É interessante notar também no Inferno imagens que persistem na ausência de luz: “mi ripgneva lá dove il sol tace”, “io venni in locco d’ogne luce muto”, imagens que remetem ao escuro, mas curiosamente a um escuro que é uma ausência de voz, o retirar da fala, a treva do mutismo onde a voz humana estanca. “Me encurralava onde o sol se cala”, “eu venho a um lugar que a toda luz é mudo”. Ou seja, o Inferno não é só ausência de luz, é também onde a palavra iluminadora se cala, onde o mais humano dos dons se volatiliza. O sol da verdade em Aristóteles, que através de Sto Tomás, seria interpretado como Deus, é no Inferno puro silencio e ausência. No Inferno o princípio que é o Verbo está ausente. Só a palavra, o falar, consegue dar perspectiva a aventura humana e conferir-lhe sentido. Virgílio neste caso é emblemático deste poder na medida em que é ele que conduz Dante, poeta e peregrino, através do Inferno até Beatriz:

o anima cortese mantoana,

di cui la fama ancor nel mondo dura

e durerá quanto ‘l mondo lontana.

O discurso clássico (e afinal Dante foi formado pelo mundo clássico) explica o caminho para “il primo amore”. Mas, os clássicos Dante os deixa em uma espécie de vestíbulo do Inferno: Diógenes, Anaxágoras, Sêneca, Heráclito e “il maestro di color che sanno” Aristóteles. Seu acerto de contas com o mundo do paganismo se dá com leveza, um aceno de despedida no início da viagem. Daí por diante seu contato com outros personagens da história seria mais violento.

Piedade e Paixão: O Episódio de Paolo e Francesca

Na geografia do Inferno o terror é um crescendo. Desde o primeiro canto, onde é encurralado por uma loba, até o final, a cada ciclo o horror aumenta e as metáforas se tornam mais escuras e deprimentes. No mais famoso episódio do Inferno, o admirável canto sobre Paolo e Francesca di Rimini, a pena terrível ainda é suportada, há uma beleza no discurso de Francesca sobre o amor que nós leitores, julgando inescapável a maldição sofrida por ela, a compreendemos:

Amor, ch’al cor gentil ratto s’apprende,

prese costui de la bella persona

Che mi fu tolta; e ‘l modo ancor m’offende.

Amor, ch’a nullo amato amar perdona

mi prese del costui piacer sí forte

che, come vedi, ancor, non m’abbandona.

Amor condusse noi ad uma morte.

Quem já tendo amado não compreenderia estes versos? Dante que amou Beatriz, mas que não foi por ela amado, deve ter invejado tal paixão e, apesar da pena terrível sobre os dois amantes, sentimos que ao menos neste lugar o Inferno talvez não pese; longe ‘del primo amor’ (o curioso primeiro amor que criou o Inferno) este amor humano é, talvez, quase divino. E Dante o sabe, pois amou e perdeu e só resta projetar seu amor em uma complexa metafísica para novamente restituir-se à sensação de possuí-lo:

Nessum maggior dolore

Che ricordarsi del tempo felice

ne la  miséria.

Quem o disse? Francesca. Mas são também as palavras mais verdadeiras do coração de Dante. Afinal a Comédia nasce deste ‘maggior dolore’, só que projetivamente Dante tenta criar um tempo feliz no futuro (o tempo de reencontro com Beatriz) para fugir de sua miséria. Neste canto o peregrino medita sobre si, pesaroso e melancólico indaga Francesca e põe na sua boca os mais belos versos da paixão sensual. É seu mais alto momento de piedade. Por Francesca, por Virgílio (e esto sabe il tu dottore), por si mesmo, já que todos amamos e perdemos, todos guardamos os retalhos da felicidade que um dia possuímos e cujo brilho aumenta a nossa dor. Dante faz Francesca falar por ele e ele fala por nós.

O Rigor Medieval e a Crueldade de Dante

Mas a partir daí há a erupção da fraqueza no coração do sábio. No canto oitavo, ao reconhecer um inimigo pessoal (Fillipo Argenti)  que se dirige a Dante pedindo piedade (vedi che son um che piango), o poeta o desdenha e amaldiçoa (con piangere e con lutto, spirito maladeto, ti rimani)  e o que é pior é elogiado por Virgílio pelas sua imprecações (alma sdennosa, bevedetta colhei che’nte s’incide). Que tipo de olhar é este de Dante? Excludente. Fruto dos horrores da sua época ele também está tocado pela intolerância e o amargor de uma época amarga. Vê seus inimigos pessoais como merecedores da pena do Inferno, goza com seus sofrimentos e é elogiado por isto. Neste aspecto a Comédia diz o quão longe Dante tinha se afastado do ideal do mundo clássico. Sua teologia exigente não é fruto do humanismo grego – que ele não por acaso deixa no vestíbulo do Inferno – mas é o resultado da perspectiva mosaica da Bíblia. Dante a partir daí começa a descrever o Inferno como uma câmara de torturas. Seu rigor no julgamento dos homens é tal que chega a contagiar a poesia clássica, ou seja, Virgílio torna-se tão desapiedado quanto Dante e exige o deleite com esta impiedade (avante che la proda ti si lasci veder, tua sarai sazio:(di tal disio convien che tu goda). O estranho prazer sádico de Dante. O mundo clássico se cala. Afinal foi um sinal se sanidade metafísica da sociedade grega, o Hades ser concebido como um espaço estático, moradia de sombras, e não um lugar onde o horror seria apreciado. Dante contagia nosso julgamento do mundo e retira a luz que os gregos deixaram para a civilização. Balbucia como um bárbaro em versos perfeitos. Mesmo no contexto edificante do poema a crueldade de Dante é demasiada. Assim, como, perguntamos, poderia se identificar o Amor Divino com tanta crueldade? Uma distinção, no entanto, é necessária: para Dante aquele sofrimento era real e justificado, sancionado pela justiça de Deus. Um Deus bárbaro para uma época bárbara, um Deus a imagem e semelhança do homem que n’Ele cria. Na supervisualidade de Dante testemunhamos um terror mais poderoso que o cinematográfico, pois a imagem do Inferno passa, não em uma tela, mas dentro de nós.

A base da cultura de Dante é a Idade Clássica mais os Evangelhos. Mas são os evangelhos os filtros através dos quais ele vê o passado. Nada mais alheio a seu entendimento que a vastidão compreensiva da cultura grega, sua heterodoxia abrangente. A teologia intolerante de Dante não pôde ser generosa nem ao menos com aquilo que o formara. Dante não está interessado na Justiça e sim na Verdade. É neste aspecto que ele é o ápice e o final se uma época, ele fecha a Idade Média dando-nos a sua súmula mental. Logo depois viria o Renascimento com a sua veneração pelos gregos, encerrando o sentido total do domínio mental da ideologia católica sobre o mundo. Todo o horror das imagens que ele nos dá são o psiquismo do homem medieval. Serão o nosso? De certa forma sim, ainda.

O Deus Bárbaro e o Espelho do Medo

As imagens do Inferno deram o tom para os horrores do castelo de Sade (em que pese a admiração de alguns intelectuais como Breton, Buñel, Paz por Sade); do imaginário de Kafka , dos campos de concentração, das várias prisões, do cinema de terror norte-americano. Suas imagens corrosivas tornaram-se parte de nosso repertório de pesadelos. Talvez por isso seja necessário lê-lo com cuidado. Afinal Dante é um poeta construtivo. Mesmo a sua descrição do Inferno é um contraponto para o Purgatório e o Paraíso, a sua visão ascendente mira a luz. Foi um determinado tipo de mentalidade que escolheu o Inferno como leitura mais constante. Uma leitura só da primeira parte da Comédia é uma leitura parcial e incompleta, pois não ressalta que a insistência de Dante no obscuro é um prenuncio gradativo da apoteose luminosa do Paraíso. Para ele seu poema tinha status de Verdade, substituía as escrituras. Como poeta ele assumia o papel do vate, aquele que adivinhava o mundo vindouro que seria de acordo com a sua voz. Desta forma o Inferno, escuríssimo, terrível, era uma passagem necessária do espírito que buscava se purificar. Mesmo na escuridão o poeta se sabia pretendido pela luz e por ela escolhido. Sua certeza de ser salvo é a do orgulho de alguém que é apenas um instrumento nas mãos da Verdade. Dele se pode dizer que o humano não lhe diz respeito, só o divino lhe interessa, o sobre-humano mesmo no sofrimento que é um prenúncio do sobre-humano na salvação.

Ulisses: O Embate entre Fé e Razão

Fico surpreso sempre  com o canto XXVI  onde é descrito o oitavo círculo, o lugar em que ardem em chamas os conselheiros fraudulentos. Ali o peregrino Dante encontra o pai de todos os peregrinos: Ulisses. E fico surpreso, pois, afinal, aprendi a amar Ulisses, o mais sofrido dos guerreiros gregos em Tróia, um rei-agricultor arrastado para uma guerra que não queria e que, finda a guerra, não consegue retornar para a sua mulher, seu reino, seu filho. Eu me pergunto: que razão teria Dante para condenar tão fantástico herói ao Inferno? Este herói homérico que engendra Virgílio e seu Enéas, um herói protótipo da inteligência e da astúcia? A única razão plausível para o destino de Ulisses no poema, é talvez, a desconfiança de Dante na pura inteligência humana não tocada pela fé, uma inteligência que prescinde de Deus e é em si um desafio a ordem estabelecida do mundo. Afinal, o que distingue a andança de Dante pela tríade Inferno-Purgatório-Paraíso das andanças de Ulisses pelo mundo é que Dante tem por objetivo o Paraíso, vai em busca do que já sabe que irá encontrar, seu ponto de chegada é igual a seu ponto de partida, pois desde o início já estava guiado ao seu destino. Ulisses não. E os versos de Dante o confirmam:

Ne dolcezza di figlio, né la pieta

Del vechio padre, ne’l debito amore

Lo qual dovea Penelopè far lieta,

Vincer potero dentro a me l’ardore

Ch’i ebbi a divenir del mundo esperto

E de li vizi umani e del valore.

É o puro saber que move Ulisses, uma alma curiosa, insaciável de conhecimento (ver o episódio das sereias). Ao contrário de Dante sua viagem não tem porto certo, a não ser o amor de uma mulher num horizonte mutável. O que Ulisses busca acima de tudo é o rompimento dos limites humanos. Ao pô-lo no Inferno Dante intuiu o quão perigoso seria para o seu estratificado mundo a força nua do mero desejo de conhecimento. Viu claramente que Ulisses era a alma humana, o anti-Dante por excelência, uma alma movida não pela fé ou pela luz, mas pelo ardor puramente intelectual do conhecimento. Nele Dante encontra um orgulho igual, mas dessemelhante ao seu em seus objetivos. Ulisses exorta seus homens no poema (e a todos os homens através dos seus):

Considerate la vostra semenza:

Fatti non foste a viver come brutti

Ma per seguir virtude e canoscenza.

Onde o mundo de Dante dizia non plus ultra o mundo de Ulisses respondia plus ultra. A Comédia, como testemunho maior de uma sociedade teológica voltada para Deus não poderia deixar impune este grande herói da astúcia e da inteligência humana, este protegido do intelecto, o amado de Palas Atenas. No fim quem venceu foi o destemido condenado Ulisses que mesmo no poema (uma ironia que não teria escapado a Dante) é chama, consome-se a si mesmo em uma luz mais alta, carboniza-se pelo que ousou, mas ousou, e foi preciso um Deus para matá-lo e um oceano:

Tre volte il fé girar com tutte l’aque

A la quarta levar la poppa in suso

E la prora ire in giú, com’altrui piaque

Infin che’l mar fu souvra noi richiuso.

Com todo um oceano sobre si, sepulto das águas, incendiado eternamente no Inferno, nada disso foi suficiente e, apesar de tudo, o símbolo Ulisses permaneceu como o mais espetacular exemplo de coragem humana. Do embate entre o peregrino da fé e o peregrino da razão, este último se mostrou mais persistente e no Renascimento, acima de Dante e apesar dele, reapareceu tal qual era, duplamente signo: a luz da inteligência que a si consome e que é a chama inesgotável da razão e da paixão.

A Comédia como Elegia de um Mundo

Mas, reflitamos: a Comédia é, afinal, um poema sobre a morte e isto é algo que frequentemente não é dito. É o maior poema sobre a morte do Ocidente, uma meditação, em versos frequentemente perfeitos, sobre a morte e a fugacidade da existência humana.  O tempo inteiro é dos mortos que ele fala, seus sofrimentos, sua esperança, sua felicidade; aquele “senza morte” é Dante, os outros são, ou conhecidos ou ocultos, pessoas que já não pertencem a vida e a seu ciclo. Em Dante o homem é um ser para a morte e ele poderia dizer como Montaigne que filosofar é aprender a morrer, se por acaso ele estivesse interessado na maneira como um homem morre. Mas não, para ele não se trata da preocupação humanista de Montaigne – já que Dante foi tudo menos um humanista – de facilitar a passagem do homem para a morte. Não, a preocupação de Dante é com a nossa relação moral com a Eternidade. Sua rígida ética é projetada na ação da vida – sempre relembrada pelos mortos – que no Inferno, Paraíso, Purgatório meditam sobre o destino inescapável que seus feitos engendraram.

Para Dante foi a morte de Beatriz, talvez, o que suscitou o poema, este ato que fez com que Dante passasse de um poeta da Vida Nova para o poeta da Comédia. É a tese de Borges. A morte deflagra o poema a partir de Beatriz, este grande amor ausente. A partir daí o real torna-se fantasmagórico e a região tripartida do além-túmulo torna-se real. É como se a morte do amor deslocasse o foco da poesia da vida para a morte. Um poema de amor enfim. Um poema sobre o amor que vence a morte, como Jesus saiu de entre os mortos, como Dante sairá de sua viagem pela morte para, na Comédia, dar testemunho de Beatriz, do Amor, da Divindade: do divino amor por Beatriz. Ele mira a vida da perspectiva de um amor guiado pela ausência. Em uma época em que a morte era banal Dante faz uma catedral em homenagem a ela, repensa-a, racionaliza-a, descobre na eternidade a soberania da ausência. A única coisa que pode se opor a ela é o poema, a forma perfeita que se sobrepõe ao nada, a perfeição que se opõe ao aniquilamento. Os tercetos de Dante são a exatidão que organiza o caos do não-ser. Aristotélico, Dante deu uma ordenação hierárquica ao inconsciente da Idade Média. Em uma rota ascendente do escuro a luz, do desespero até a esperança, cumpre as etapas da alma humana em seu périplo além da vida. Aquilo que viu, viu como uma imagem da eternidade, a ordem infinita do universo divino, suas fases, estágios, categorias. Viu o inframundo e o sobremundo; seu diálogo   com   os mortos determinava a ascendência da morte sobre a vida, do espiritual sobre o corpóreo, do meditado sobre o vivido, já que a sua viagem é uma ascensão em meio a fantasmas.

O que ele não sabia é que seu poema era uma elegia, o pensamento no crepúsculo de uma era. Seu evangelho não o era, em breve já não seria a verdade, mas o canto final de um mundo que se encerrava e fechava a cortina sobre o último ato de uma visão. O Renascimento já começaria a descrer daquela crença como verdade. Organizando o imaginário de medo e horror do homem medieval, este já poderia mirar o futuro e transformar-se. Neste sentido o poema de Dante é o trabalho de luto que liberta o espírito para um novo começo. Pacifica o sentimento obscuro pelo desconhecido da teologia medieval através de sua exposição; cura pela fala o terror exagerado, a esperança enganosa, o esplendor sem fundamento e torna o homem medieval mais livre. Enquanto toda aquela poderosa teologia foi não dita, poderia ainda dominar corações e mentes de milhares de homens e mulheres. Ao ser expressa (maravilhosamente expressa) perdeu a sua esfera de tabu intocável e tornou-se totem acariciado por várias mãos, uma teologia quase inócua, ou tendendo para a entropia. Talvez se Dante houvesse optado pelo latim a Comédia ainda seria uma arma obscura nas mãos dos padres e sacerdotes. Na língua do vulgo ela se doa sem áurea para todos. Desta maneira o poema se transcende, torna-se a sua negação. Ao invés de projetar para o futuro a sua visão da verdade, contra si, elabora o luto da morte de um mundo. É a última celebração, o ritual de passagem do bárbaro que, ao contato com cristianismo e o mundo clássico, supera a sua esquizofrenia. Uma das passagens mais dolorosas da alma humana, do sentimento confuso à luz do intelecto. Dante é o cantor de um mundo que agoniza, mas ele o ignora. É seu último vate, seu último bardo, deu derradeiro evangelista, e seu mais perfeito poeta.

10 de novembro de 1997

Posfácio: A Redenção no Purgatório

Este ensaio foi escrito há mais de trinta anos e deve ser lido hoje como aquilo que de fato é: um estágio de uma leitura que acabou por se estender por toda uma vida de dedicação a Commedia. Como todo estágio, ele deixa entrever tanto a possível riqueza quanto as evidentes limitações de qualquer leitura de uma obra dessa magnitude; uma obra cuja capacidade de gerar interpretações é necessariamente infinita e sempre maior do que qualquer leitor. E esta que aqui está, é claro, é uma análise necessariamente polêmica e imperfeita, pois a Commedia ao mesmo tempo que agiu, como suponho, lentamente, sustentou também toda a figuração de sua filosofia durante muito tempo e foi a armadura poética da fé durante centena de anos para milhares de leitores. Este movimento aqui descrito é o que se poderia chamar de efeito de longa duração numa leitura da história braudelianamente pensada.

Minha primeira tentação ao relê-lo agora foi então reescrevê-lo inteiramente: atenuar alguns de seus excessos, modular certas formulações demasiado enfáticas e corrigir o tom por vezes dogmático de alguma de suas afirmações. No entanto, pareceu-me mais fiel publicá-lo tal como foi escrito. Como testemunho de um momento de leitura, e também por fidelidade às virtudes e defeitos do leitor de trinta anos que o escreveu, ele permanece aqui sem alterações substanciais.

Cabe, porém, indicar o que hoje me parece ser a sua limitação mais evidente. Aquela leitura da juventude privilegiava, talvez excessivamente, o Inferno. Ao fazê-lo, acabava por reproduzir um equívoco frequente na recepção da obra, e que o ensaio espertamente deslocava para a interpretação de toda uma época: o de ler o Inferno como se ele fosse a parte essencial da Commedia. Essa perspectiva só poderia conduzir às conclusões a que o ensaio chega, conclusões que, embora muitas vezes inteligentes e defensáveis, permanecem inevitavelmente parciais e limitadas.

Com a renovada leitura e o amadurecimento, tornou-se para mim cada vez mais claro que a obra de Dante só revela plenamente sua força quando ultrapassamos esse primeiro reino. A partir do Purgatório — e depois no Paraíso — emerge aquilo que poderíamos chamar de sua fulguração humanista e sua luminosidade civilizatória, dimensões que relativizam e reordenam a experiência sombria do Inferno. E hoje sei que o poema só pode ser entendido corretamente quando pensado em seu conjunto. Uma afirmativa banal, mas que escapa frequentemente nas leituras críticas.

Não cabe desenvolver aqui essa outra leitura, assunto talvez para um outro ensaio. Mas posso dizer que, no estágio atual de minha relação com o poema, é sobretudo no Purgatório — esse canto intermediário, talvez o mais terreno e propriamente humano da obra, situado entre o submundo do Inferno e o supermundo do Paraíso — que hoje se concentram minha atenção, meu embevecimento e minha paixão de leitor.

Digo “estágio atual” com plena consciência de que nenhuma leitura da Commedia é definitiva, muito menos a minha. O conhecimento da Commedia é processual e sempre em movimento. Regressar a Dante é sempre recomeçar a perceber. A releitura do poema é um processo contínuo de aprendizagem, deslumbramento, surpresa, e a única atitude possível diante dele é permanecer disponível — humildemente aberto — às interpretações que ainda nos esperam em suas páginas. Peregrinos como Dante em sua leitura, sermos um pouco como Ulisses na frequentação de sua esfera infinita. Plus Ultra.

O Silêncio como Entidade: Uma leitura de As Brasas, de Sándor Márai

Ler As Brasas, de Sándor Márai, foi para mim menos a experiência de acompanhar uma história e mais a de entrar lentamente em uma atmosfera crepuscular. Não um crepúsculo natural, mas um ocaso histórico, moral e afetivo. A ação é mínima: dois velhos amigos se reencontram após quarenta e um anos de separação, em um castelo isolado nos Cárpatos. E sob esse motivo quase banal — um reencontro, uma conversa, uma suspeita antiga em um acontecimento equívoco — Márai constrói uma narrativa vasta, pesada e quase silenciosa como uma montanha.

Foi meu segundo encontro com o autor. O primeiro havia sido igualmente marcado por essa impressão de concisão extrema e amplitude crepuscular e moral. Aqui, no entanto, o que me surpreendeu foi a atmosfera densa, o exato movimento descritivo, conciso e certeiro na apresentação da geografia e da psicologia difusa da história. Logo nas primeiras páginas, nas descrições das florestas, dos cavalos, dos pavilhões de caça, começa a se desenhar não apenas um cenário, mas um mundo. Um mundo que de uma certa forma já não mais existe quando a narrativa propriamente acontece.

O Cenário como Suspensão do Tempo

Pois a história se passa em 1940, apenas iniciada a Segunda Guerra, mas o que verdadeiramente está ali narrado como caráter, sentimento e ideologia, espírito pertence ao fim do século XIX, ao mundo imperial desaparecido a pouco. O Império Austro-Húngaro, seu cenário, já havia sido destruído; a Europa se reorganizara sob forças mais brutais e mais modernas, no entanto o castelo de Henrik permanecia como uma insula, uma exceção suspensa no tempo e num espaço auto definido. E é ali que o General, o personagem principal, manda preparar o jantar, arrumar os talheres, acender os candelabros, pôr a mesa e as toalhas exatamente como estavam no dia 2 de julho de 1899. O espaço de sua lembrança é um palco reconstruído cuidadosamente. É como se ele acreditasse que o tempo pudesse ser resgatado em sua suspensão, que a cena guardada pudesse ser reencenada até que finalmente revelasse a sua verdade.

O Julgamento Disfarçado de Reencontro

Mas o que está sendo preparado não é um reencontro apenas. É uma simulação sutil de um julgamento. Durante quarenta anos Henrik ensaiou – como um juiz, talvez – suas perguntas. E quando Konrád chega, o que temos não é propriamente um diálogo entre os dois velhos conhecidos, mas um longo monólogo, um solilóquio meditativo — uma dissecação minuciosa (mas parcial) da amizade, do ciúme e da possível traição.

O que me impressionou na leitura é que o romance não dependa da confirmação objetiva do acontecimento presumido. O essencial não é o narrador saber se houve traição ou não. O essencial é o silêncio e a suspensão de quase cinquenta anos que se instala depois da suspeita levantada. Konrád, o amigo amado foge para os trópicos. Henrik, o caçador ferido nunca mais fala com a esposa, embora continuem vivendo sob o mesmo teto. A esposa, Krisztina, definha na casa vazia, vítima da indiferença e da solidão. O drama não nasce de uma ação violenta, de um gesto amplo e concreto, mas da incapacidade de qualquer ação que vai se exprimir na paralisia do costume e na quase recusa de falar.

O Desperdício e a Honra Nobre

E aqui algo aparece como essencial: o desperdício, o material humano gasto. Pois há o desperdício do amor, do tempo, da amizade, da saúde, da própria vida dos três personagens. Tudo parece ter sido consumido em um canto sombrio por um código de conduta e de honra rígido, por orgulhos silenciosos e mascarados, por palavras que não foram nunca ditas. Na ação do General está todo o peso de sua linhagem presumida, do desempenho figurativo de sua fidalguia expressa na galeria dos quadros da família, nas aleias do castelo, da tradição moribunda e que nele agoniza. E há aqui algo de profundamente humano. Todos nós oscilamos (ainda que longe dessas nobilidades históricas) nesta fronteira ambivalente das obrigações do amor de si e do amor ao outro. Numa certa fidelidade menor que julgamos dever ter como condizentes com o que julgamos ser a nossa trajetória, nosso caráter, nosso merecimento. Em um tom menor que o General, mas participando da mesma ilusão escondida, quantos de nós também não desempenham um teatro de poses baseado na suposição de suas biografias?

Mas, enfim: a relação entre Henrik e Konrád é ponto central do romance. Ela transborda da definição simples de amizade. Há ali uma intensidade quase absoluta, uma exclusividade que parece o ciúme amoroso. A tensão é espiritual, mas carregada de uma energia certamente homoerótica, reconhecida pelo narrador — não, é claro, no plano do corpo, mas na esfera da cumplicidade e da necessidade de reconhecimento, no natural espelhamento narcísico que compõe as relações masculinas na juventude. Krisztina neste aspecto talvez seja menos o centro da história e mais o território onde essa complexidade afetiva se manifesta e se disputa.

A Música e o Silêncio Moral

E temos a música, a música representa algo essencial no romance. Konrád (o companheiro pobre e não essencialmente um soldado) toca piano; Henrik (o rico e aristocrático guerreiro) escuta. A música parece estabelecer uma comunicação essencial entre eles, justamente porque a música prescinde das palavras. Quando a música termina, resta o silêncio — e o silêncio, neste ponto, é quase uma entidade moral. A palavra vem tarde demais, e talvez venha apenas para organizar racionalmente aquilo que sempre foi sentido.

Eu penso ainda que o romance tem algo de teatral. Uma noite, um castelo, dois homens, uma morta. A unidade é quase clássica e elegíaca. Uma estrutura concentrada que não empobrece o texto; ao contrário, intensifica-o. A conversa torna-se uma espécie de ritual de encerramento, uma cerimônia de finalização e de transfiguração. O palco montado sintetiza o jogo dos afetos pesados que estão postos, no ritual do afeto encerrado no castelo há acusação, suspeita, paixão. O que está em jogo não é apenas a verdade sobre um episódio passado, mas a necessidade de concluir uma narrativa antes que a vida se apague. O ritual confessional é também o ato de uma anamnese psíquica.

Alguns leitores veem na obra uma história de vingança. Pode ser. Uma vingança verbal e expositiva na forma de uma acusação. Mas a condução da vingança de Henrik não é ativa, não é explosiva. É paciente, quase contemplativa, uma meditação verbal. Henrik quer compreender, talvez, confrontar. Quer ouvir aquilo que já sabe ou suspeita. Quer partilhar a sua verdade com o único homem cuja confirmação importa. E, no fim, quando a verdade é finalmente tocada, não há iluminação. Há apenas cinzas e o vazio.

Talvez este seja um dos sentidos profundos do romance: a sensação de que tudo já estava consumado antes mesmo da conversa ter lugar, antes daquele teatro encenado. Como o título original em húngaro sugere — as velas ardem até o fim — resta apenas o resíduo incandescente de uma lembrança antiga e persistente, dois homens que o tempo lentamente consumiu em uma derrota recíproca. Não há reconciliação redentora entre eles. Há apenas a melancolia do lento apagamento de todos os códigos, as certezas de toda a vida e mesmo da história.

Os sentimentos encenados pelos participantes, apesar de representativos de um comportamento ancorado fortemente em uma geografia (a Europa Central) e em uma época (o final do Império Austro Húngaro) e situado em 1940, acontece quase fora da história. O que importa não são os eventos políticos, históricos, mas a subjetividade profunda de seus personagens moldados sim por aquela época. Ainda assim, tudo ali é histórico: aquele tipo humano, aquele modo de sentir, aquela rigidez emocional que só poderia nascer naquele universo centro-europeu, sob o peso de um império que gerou a psicanálise e a modernidade (Freud, Mahler e Musil). E neste novo mundo brutal de 1940 encena a sua violência quase que como uma candura.

Fatos não são a Verdade: Uma Questão Filosófica

Mas há algo para além de toda a profundidade da análise humana, da inquirição psicológica magistralmente desenvolvida por Márai na dissecação da dinâmica entre todos os personagens (e eu nem pude tratar da essencial Nini, a ama que acompanha Henrik desde a infância), que é o tema filosófico proposto no pensamento de Nietzsche de que não existem fatos, apenas interpretações, cuja implicação final é que não conhecemos a verdade. Isso é trabalhado por Márai em uma torção.

Há um diálogo entre a velha governanta e o General.

A Governanta “o que você quer desse homem?”

“A verdade” disse o General

Governanta “Você conhece bem a verdade”

General “Não conheço”

Governanta, “Mas você conhece os fatos”

General “Os fatos não são a verdade”

E este é imagino um assunto também essencial que atravessa todo o romance na medida em que todos os acontecimentos que nos é dado conhecer da história são os fatos como eles se deram, como nos são entregues pelo narrador.

Reparemos que o narrador é em terceira pessoa, operando de forma onisciente e observadora. Ele é melancólico, solene e preciso, atuando como um “diretor de cena”, descrevendo os rituais do jantar e os gestos minuciosos, mas que silencia para permitir que Henrik conduza o acerto de contas com Konrad. Isso porque apesar do narrador em terceira pessoa, percebemos o tom geral é de como se fosse tudo narrado pelo próprio general. E isso acontece porque no monólogo Henrik assume o controle da narrativa oral, transformando o diálogo em uma confissão/interrogatório. E o fluxo de pensamento no romance o narrador onisciente está tão alinhado aos sentimentos de Henrik que a fronteira entre a voz do narrador e a alma do personagem quase desaparece.

Daí que os fatos todos, desde o princípio, são como uma apresentação vazia de significados. Pois estão dados pela elocução melancólica que depois tomará conta da narrativa. Mas estes fatos não têm significados fechados em si mesmos. No início do romance, entre outros acontecimentos, conta-se que a mãe de Hendrich dançou com o Imperador ou que Nini tinha 15 anos quando perdeu seu filho. Todos os acontecimentos do romance nos são dados como fatos abertos e não como dados de uma determinada verdade. E o que o romance está dizendo é que sem a consciência das intenções dos agentes não temos como alcançar a verdade que se paralisa em uma pura exterioridade.

Assim temos os fatos de uma amizade de uma vida suspensa por uma dúvida, temos um casamento malogrado por um engano, temos a onipresença testemunhal e permanente dos cuidados da ama até o final em seu “beijo encabulado”, principalmente, e que nos apresenta um fato do qual não sabemos a verdade da intenção. Porque todo testemunho está regido pela ambiguidade e nada podemos definitivamente afirmar a não ser que estejamos dispostos a uma atenção obcecada, uma indagação constante que mesmo assim não promete nenhuma resposta a não ser aquela que nós mesmos contribuímos para apresentar. As velas queimando são talvez este lento consumir de uma expectativa de conhecimento que ao fim se compôs apenas de sua própria expectativa e a sua verdade afinal não seja mais que este silêncio cultivado no escuro de nossa enorme ignorância. 

W. Somerseth Maugham: A transparência e a maturidade

Some of the older novelists who wrote in the first person were in this respect very careless. They would narrate long conversations that they couldn’t possibly have heard and incidents which in the nature of things they couldn’t possibly have witnessed. Thus they lost the great advantage of verisimilitude which writing in the first person singular offers. But the I who writes is just as much a caracter in the story as the other persons with whom it is concerned.

W.S.M.

O caso Maugham

Para a maior parte da crítica The Human Bondage (A Servidão Humana) é o melhor livro de W.S. Maugham, e este é sem dúvida um dos grandes romances do século XX, mas eu como um contumaz leitor de contos acredito que são os contos que carregam a maior parte do talento deste hoje injustamente esquecido escritor, um contista refinado, testemunha e interprete sofisticado do final do século 19 e início do século 20, um narrador da complexidade da natureza humana. E digo injustamente esquecido, pois afinal quem o lê? Quem acaso ainda conhece seus romances, novelas e contos? Atualmente quase ninguém possivelmente o conhece, e assim Maugham fica como exemplo da fragilidade da glória literária, pois nos anos 40 e 50 poucos autores eram mais lidos do que ele e a vendagem e adaptação de seus livros para o cinema o fizeram um homem rico. Mas afinal porque Maugham ainda deve ser lido, o que faz de um artista merecedor da atenção das pessoas que ainda contra tudo e todos lêem?

O Artesanato da Escrita Clara

Creio que em primeiro lugar a amplitude de sua análise e a sua compreensão dos homens, sua sinceridade artística, seu estilo direto e sua alegria em narrar. Contemporâneo das revoluções na língua inglesa operada por Joyce (a fragmentação do discurso), Faulkner (a-temporalização do discurso), Virgínia Woolf (a interiorização do discurso). Maugham é um autor que escreve com uma grande consciência do artesanato da escrita e narra por prazer e nos dá prazer no que escreve; que possuí um acentuado gosto na descrição de seus personagens e o revela através da relação que estes mantém uns com os outros; que sabe enfim contar uma história em linha reta, herdeiro que era de uma tradição naturalista que possuía alguma coisa a dizer sobre o homem e o dizia de uma forma inequívoca, clara, simples, confiando na percepção do leitor para as pequenas variações de tom na narrativa e o esboço psicológico esclarecedor.

A Mística do Conto: Síntese e Iluminação

Estes contistas do século 19 (Tchecov e Maupassant acima de todos) foram a escola de W.S. Maugham, escritores da condição humana, psicólogos da literatura com grande domínio da difícil técnica do conto. O conto (short story) é uma arte de difícil manejo dado a concisão que exige. O grande conto deixa uma sensação de suspensão, corta-nos a respiração, tem um impacto que o romance, dada a sua extensão não pode ter. O romance é o território da exploração e da análise, o conto da descoberta e síntese. O grande conto é sempre uma iluminação que se constrói (A Morte de Ivan Ilicht de Tolstoi, Miss Dólar de Machado de Assis, A Dama e o Cachorrinho de Tchecov, A Auto Estrada do Sul de Cortazar, etc), a intensidade de um acontecimento, a condensação de um sentimento ou de um fato. O conto prescinde de enfeites e digressões, pois sua narrativa deve confluir para um objetivo preciso e intenso. Como gênero o conto floresce entre 1819 e 1832 (Balzac, Poe) e alcança a perfeição no final do século 19 com Machado, Tchekov e Maupassant entre outros.

Maugham é um contista do período em que o conto já está estabelecido como forma narrativa altamente expressiva (bastaria para ilustrar isso o conjunto de contos de Joyce Os Dublinenses de 1914) e ele é um mestre do gênero, um mestre inglês como Conrad foi no romance. Sua característica mais acentuada é o modo como em suas histórias os acontecimentos mais banais, narrados de maneira cotidiana e simples, aos poucos mostram um aspecto dramático que jamais suspeitaríamos.

Por exemplo, em “The Back of Beyond” onde um administrador colonial britânico estando prestes a se aposentar, medita sobre o final de sua carreira, quando recebe a visita de um homem que ele havia punido. Este vem lhe pedir um conselho e conta a sua história. Dito assim é um conto muito simples e sem atrativos, mas desde o início a tensão é construída cuidadosamente e ao final surpreendemo-nos tendo tomado um caminho insuspeitado no início. Esta maneira de conduzir o leitor para um desfecho inesperado e, no entanto suposto nas entrelinhas do início narrativo foi desenvolvida por Maugham até a maestria.

No conto “A Man With the Scarr” o narrador descreve seu encontro com um homem que estava a pedir esmolas em um bar na América do Sul e logo depois ouve a história deste homem com a cicatriz no rosto. Novamente aqui a tensão se dá de forma puramente narrativa, o conto é a exposição de um personagem a outro e neste desdobrar-se o leitor é apanhado em uma história dentro da história. Em Maugham esta tensão está sempre oculta em acontecimentos banais, em geral, mais que os fatos, é na psicologia dos personagens que está o centro e o ponto de maior interesse do conto.

O Cinismo como Filosofia e a Servidão Humana

A filosofia destas histórias é a do homem comum, mas do homem comum inglês, com seu senso de proporções bem definido, seu sentido de cavalheirismo, sua fleuma; um tipo, sem dúvida, ideológico e ideal com pouca existência de fato na realidade, uma invenção. E talvez nisto resida o encanto destes contos, o motivo pelo qual a maioria deles funciona e continua viva. Os acontecimentos embora em grande parte pertençam a um certo tipo de homem que vistos hoje seriam tipos bastante desagradáveis (ou seja, o colono inglês senhor de mais da metade do  mundo e seu orgulho racial desmedido) é uma grande impostura universal, mas com uma ambição no entanto normativa e daí com grandes projeções morais e, portanto atemporais. Esta qualificação moral é uma particularidade ficcional do modo de vida ideal do pequeno burguês industrioso do início do século 20, um pouco cínico, mas assentado em valores dados como certos. Este personagem é, sem dúvida, um subproduto do iluminismo e do etnocentrismo europeu em sua imaginação romanesca, quando a palavra etnocentrismo não tinha as conotações perigosas que hoje possuí.

É necessário lembrar que a maior e melhor parte dos contos de Maugham são pré-Hitler, antes do nazismo, antes da falência dos valores mais ou menos defendidos da civilização européia e de muito antes da descolonização. Seria inútil lê-los como documentos da decadência da personalidade burguesa e da sociedade do século 19 – o que jamais foi pretendido por Maugham. É Thomas Mann que faz nesta mesma época em três romances admiráveis o retrato da burguesia européia que afundava (Os Budenbrooks, A Montanha Mágica e Dr Fausto). W.S.Maugham ainda tem a confiança, um pouco cínica é verdade, de antes da primeira guerra, nos valores europeus; sua ideologia é a do pequeno burguês, razão, bom senso, senso prático. No que podemos nos identificar com seus personagens é na sutil psicologia construtiva que ampara este indivíduo tão temporalmente definido, na sua certeza (para nós e para o narrador enganosa) de que possuí uma missão civilizatória. Mas antes desta sociologia do comportamento o que Maugham trata é principalmente da psicologia de um tipo de homem que morreu na segunda guerra, um homem que possuía um código de honra pessoal e tinha sua razão de ser no extremo individualismo de suas ações, uma espécie de crença que as motivavam. Em O.Henry encontramos o mesmo traço de comportamento baseado em uma moral idiossincrática, parte pessoal, parte social. Para Maugham não se trata de classes ou generalizações, seu assunto é o indivíduo, a pessoa, a servidão humana. O título de seu mais famoso romance é também uma chave para a sua obra. Pois Maugham tem o sentido do trágico da vida, mas mescla esta percepção da tragicidade da vida com um certo humor melancólico ironia contida e o resultado final é de uma compreensão cínica da existência. Mas ele é cínico em um sentido filosófico, o cinismo como uma maneira de encarar a existência, de olhar o homem e ver a servidão que é para ele um dos princípios da vida. Um forte componente ético, pondo em questão pela narrativa as hipocrisias da sociedade. Esta maneira de encarar a vida é reveladora da sua psicologia de espectador, de observador.

Não por acaso grande parte das suas narrativas são montadas sobre a primeira pessoa, o narrador-ouvinte que testemunha a narração de um outro personagem. Este recurso que já está em Conrad (O Coração das Trevas) tem um efeito mais dramático que em Conrad, mas menos trágico, pois em Conrad há uma seriedade e uma solenidade que são a marca do trágico. Já em Maugham o cinismo revela o afastamento da tragédia e revela o narrador melancólico e ironico. A tragédia é não conseguir perceber que, por mais terrível que a situação pareça ela pertence ao território comum da humanidade, faz parte de nossa condição, traz em si a marca da banalidade e do comum. Não são as situações, mas o comportamento dos personagens o que interessam a Maugham. Neste sentido ele é absolutamente um contista, quer compreender pela síntese, pela concretude dos fatos e pelas razões do coração.

Por que já não se lê Maugham?

Talvez nisto possamos identificar os motivos pelos quais já não se lê Somerset Maugham. O universo que clamava por nossa compreensão, o universo humano de comportamentos estritamente individuais, mudou e se tornou demasiadamente político depois da segunda guerra mundial. O tipo de ser humano que Maugham buscava apreender se volatilizou em duas guerras e as estratégias para a apreensão da sua psicologia se sutilizaram ou foram arrastadas para uma esfera política ou de uma compreensão filosófica muito diferente. Não por acaso, as transformações da literatura no pós-guerra tornaram seu projeto narrativo menos evidente. São as parábolas de Kafka que passaram a descrever com perfeição o mundo moderno e o tamanho real do homem no mundo. Daí as metamorfoses infinitas dos personagens borgianos, a fragmentação da narrativa em Cortazar. O conto moderno já não caminha na direção da narrativa linear de Maugham, Tchekov, Machado. É claro que Kafka não substituiu Maugham; eles coexistem agora em tradições diferentes e o conto contemporâneo não abandonou totalmente a narrativa linear — Mas o pressuposto hoje é de uma menor confiança narrativa: o narrador confiante de Maugham vivia em um mundo dado de valores certos, de um certo humanismo funcional, mesmo que limitado pela geografia e pela história. Seu status quase invisível no conjunto narrativo apontava para uma transparência de passagem de sentimentos e sentidos, o da ética de um comportamento que estaria subscrito no conjunto da narrativa, uma ética claramente reconhecível e identificável. Uma confiança na linguagem e na imediaticidade de interpretação de seus signos. Na passagem para a segunda metade do século XX, algo disso se perdeu.

Mesmo o cinismo em Maugham era uma forma de maturidade. O cinismo contemporâneo (este desencanto ressentido, esta ironia defensiva) é outra coisa. O cinismo de Maugham é pré-traumático: ele ainda acredita na possibilidade de compreender o outro e o mundo (o que aparece na solidariedade de sua escolha do narrador) mesmo que com distanciamento. O cinismo em Maugham é um cinismo sem niilismo, ainda é uma confiança em valores, mesmo que muitos destes valores fossem pressupostos ideológicos. Mesmo assim eles apontavam para uma possibilidade de compreensão que permanece como um sinal possível de entendimento humano, naquilo que a literatura guarda para além da época em que foi produzida. Nesse espaço se inscreve a perenidade sutil de Somerset Maugham.

Para os que buscam compreender o grande alcance da literatura de Maugham, a leitura de Rain, por exemplo, ou The Outstation — contos em que o conflito cultural e psicológico permanece legível mesmo para leitores que rejeitam a ideologia da colonização, ficam como sugestão para o aprofundamento da reflexão aqui feita. Pois Maugham não nos devolve um mundo intacto, mas nos devolve a possibilidade de compreender o humano sem dissolvê-lo em abstrações.

Contra Sade

A Cegueira da Inteligência e o Fetiche da Barbárie

Há um caso Sade, um caso de amor obscuro entre alguns intelectuais e Sade, mal explicado como todo caso de amor e, para mim, inexplicável.  Há um elogio a uma dita filosofia de Sade sua crítica ao racionalismo burguês, desmonte das estruturas hipócritas da religião. Para os surrealistas, Sade era o “ser livre” por excelência; para Barthes, um jogo de linguagem e uma máquina textual; para Paz, um polo necessário do pensamento humano. Buñel, no livro de suas memórias (Mi último suspiro), lamenta não ter conhecido Sade antes de outros pensadores tal a sua profundidade e importância. E tudo isso dito assim é belo. 

Mas olhemos de mais perto este sistema de Sade (eu não diria a filosofia de Sade), este é um programa de torturador, um manual de sevícias, um programa de prazer perverso na sujeição do ser humano, um deleitar-se com o sofrimento alheio, um sorriso em meio ao horror do sofrimento alheio.

No entanto alguns poetas e escritores o elegeram como a figura emblemática de homem livre, filósofo e libertário, quando na verdade, me parece, ele foi um paleofascista, um criminoso com talento, um facínora enfim.

A Arrogância do Intelecto e a Negação do Outro

Mas ele foi amado por Breton, justificado por Jean Paulham, acalentado por Otávio Paz, filmado por Pasolini em seu teatro de abjeções. O que afinal seduziu a inteligência neste contato com a morte, o suplício e a barbárie? E eu respondo: o amor a abstrações, o desprezo pelo concreto e a soberba intelectual. Só por arrogância do intelecto e impostura do espírito pôde-se louvar Sade como “o Divino Marquês” enquanto ele divagava sobre a tortura. Arrogância de se pensar que os que são lacerados, os que sangram, nunca seremos nós; que os humilhados com a chibata e a faca são sempre os fracos, em geral os pobres, certamente os outros. Impostura afinal de uma inteligência que sem a dimensão do outro estará sempre limitada.

Pois é claro, o sadismo sempre se exerce monomaníaco sobre as mulheres, os órfãos, os débeis, os miseráveis, os desafortunados. O prazer do torturador (e é de um torturador que se trata) é sempre contra um ser transformado em objeto. Pior, mais que transformado, trazido para a relação sádica justamente porque nunca foi um sujeito. Pois só há um sujeito nesta fantasia concentracionária: o torturador. Falta assim ao sistema de Sade o outro; este outro que para ele é sempre um objeto destrutível. Mas esta negação do outro aniquila também aquele que se quer sujeito que, na dialética da negação, torna-se também objeto, infinitamente. 

Este sistema negativo que fascinou intelectuais de várias épocas sugere apenas um manual de perfídias. Mas, porque ensaístas como Paulham e Barthes, Otávio Paz e Breton  lutam tanto para dar legitimidade a este esgar discursivo? Eu creio que a fascinação por Sade é o índice negativo da cegueira amoral da inteligência que, não por acaso, floresceu no século XX, o século do nazismo e do serial killer, o século dos progroms e do assassínio ritual. É como se o niilismo houvesse triunfado no cerne da cidadela da razão, o mais feroz anti-humanismo de alguns intelectuais que só veem o homem em abstrato, não o homem em sua carne, o ser próximo de nós, igual a nós e, às vezes, nós mesmos.

Um sintoma de doença espiritual, enfim. Otávio Paz faz um paralelo entre Sto. Agostinho e Sade, um paralelo intelectual, um sofisma, um jogo onde o sofrimento humano está ausente. Paz diz que para Sto. Agostinho o Bem tem existência ontológica e o Mal é apenas a privação do Bem, em si não sendo nada. Sade, por sua vez, assume que é o Mal que possui existência ontológica. Mas, eu me pergunto, que existência?  A negação (o Mal) depois de tudo negar, nega a si mesmo. A destruição depois de tudo destruir destrói-se a si mesma. A existência ontológica do Mal é uma contradição lógica e por isso a obra do Marquês de Sade não perfaz uma filosofia, é quando muito um sistema que fechado em si mesmo, levado as suas últimas consequências, se aniquila completamente. Quando o libertino filosófico de Sade exerce sua perversão sobre corpos dilacerados de mocinhas, bradando belas frases contra a sociedade, o mundo e Deus, não é a Deus que ele ataca, mas ao próprio ser humano, menos um, ele mesmo. A inteligência do século XX não escapou desta fascinação pela barbárie, confundindo o ser humano concreto com uma abstração programática e difusa. Mas nada há de abstrato na dor e é vergonhoso para um século que viu tanto sofrimento, tanta morte, que intelectuais venham a louvar ao Divino Marquês.

Provavelmente estes ensaístas nada dizem sobre Sade, mas dizem muito sobre nós mesmos.

                                                                               

O Mito e a Realidade Histórica

Nascido Donatien-Alphonse-François de Sade em 1740 o Marquês era um aristocrata de longa linhagem sendo seu ancestral mais famoso Laura, esposa de Hugo de Sade que foi cantada pelo próprio Petrarca. Educado como nobre a obra de Sade trairia sua origem de classe ao descrever seus heróis como aristocratas refinados e suas vítimas como nobres decaídos. Educado no exclusivismo dos senhores franceses não seria ocioso supor que seu desprezo pelo sofrimento tenha nascido da sensação de superioridade de sua classe. 

Educado mais tarde por jesuítas (1750)  cinco anos depois é feito lugar tenente no regimento do rei e participa da guerra dos sete anos  com bravura. Em 1763 casa-se com Mlle. DeMontueil da pequena nobreza togada, dita de robe, muito rica, cujas relações poderosas na corte podem ajudar o jovem Sade. Esta mulher apesar de todo sofrimento seria fiel a Sade toda a sua vida.

Não se sabe bem os motivos (provavelmente alguma violência contra uma serviçal de sua casa ou contra a sua própria mulher), mas quatro meses após seu casamento Sade é preso por cinco meses e só consegue se libertar através da intervenção de seu pai. Livre, tem inúmeras amantes entra serviçais e prostitutas nas quais exerce os atos que tornariam seu nome famoso.

Duas de suas vítimas Jean Testard (1763) e Rose Keller (1768) o denunciam por tortura e sodomia e Sade é encarcerado em  Saumur, perto de Lyon. Liberto, mais uma vez foge com sua cunhada Aline Prospere de Lundy para a Itália. Mas de passagem por Lyon em uma orgia com prostitutas é acusado por estas de tê-las dopado, sodomizado e torturado. Sade se refugia em Chambray. Preso por ordem do rei, novamente se evade e participa de novas orgias e escândalos até que em 1777 é encarcerado em Vincennes. Em cada prisão, escreve. Os Crimes, Justine, Cento e Vinte Dias de Sodoma, Aline e Valcour. Só com a revolução de 1789 está livre de novo. Em 1791 escreve Justine ou Lês Malheurs de la Vertu. Em 1795 escreve a Filosofia do Bordel, A Nova Justine e Oxtiern. Mais crimes e em 1801 Sade é novamente encarcerado agora pelo Consulado vindo a morrer em 1814.

Sade é contemporâneo de Voltaire e Rousseau, de Diderot e D’Alembert. Aristocrata empobrecido cresce no período da destruição da sua classe, a aristocracia, e da emergência do poder da burguesia. Afinal, o grande patriarca da época era o burguês Voltaire e o grande herói o pobre Rousseau. Neles um mundo nasce filosófico, racional (em Voltaire) brilhante e romântico (em Rousseau). Sade, que é o anti Rousseau na pregação da radicalidade do mal no cerne da natureza (natureza que Rousseau queria boa), é o primeiro crítico do Iluminismo a devora-lo por dentro. Deste modo Sade encarna as tendências antiluministas  de nossa época e sua revolta cega no século XX ganharia uma leitura antiburguesa pelos surrealistas. 

Sade que apoiou a Revolução Francesa, é um exemplo típico de como um complexo pensamento filosófico, em meio a uma época conturbada, pode se tornar alvo de más interpretações e de leituras perigosas. Afinal, a luta contra o sistema feudal, amparado pela Igreja, usou como arma o ataque ao suporte ideológico de todo este sistema que era a crença em Deus. Mas como subproduto deste enfraquecimento da moral de uma época surgiu o amoralismo completo, o egotismo absoluto que fez da destruição não um meio, mas um fim. A biografia de crimes de Sade foi possível em uma época de crises, a cisão entre dois mundos que se confrontam, onde massacres eram perpetuados a céu aberto e os piores instintos humanos andavam soltos. É pelo menos curioso que um crítico da estatura de Otávio Paz tenha escrito que Sade “foi preso por suas ideias, foi incorruptível e independente em matéria intelectual (lembra Giordano Bruno) enfim, foi generoso até com seus inimigos e perseguidores. O filósofo do sadismo não foi aquele que vítima, mas foi vítima, o teórico da crueldade foi um homem bondoso. Apollinaire e os surrealistas o viram como um exemplo moral”.

Um homem bondoso? Não é isto que diz a carne lacerada das pobres coitadas que ele seviciou, as espancadas que serviram de objeto para as suas teorias. Eu não sei o que me surpreende mais neste trecho de Paz. Se o auto-engano ou se a má fé intelectual que não hesita em torcer a história para provar um ponto de sua tese. Porque este afã de justificar Sade?  Uma má leitura?  O posicionar a literatura acima da vida e o texto acima da carne? Não sei. Alguma coisa anda errada quando contra toda evidencia histórica um ensaísta tão inteligente quanto Paz se ilude desta forma. Este erro marca o fracasso da inteligência quando solicitada a combater a barbárie.

Sade e o Esfacelamento do Cogito

E é disto que se trata: a reabilitação de Sade, seu soerguimento a categoria de herói intelectual de intelectuais neste século, marca o esfacelamento do cogito, do pensamento que, se julgava, saberia distinguir entre o bem e o mal. Se o eufemismo linguístico e psicológico pode imaginar bondade no criador do sadismo como sistema, então estamos em pleno coração da treva, como bem disse Conrad, no primado daquela banalidade do mal que Hannah Arendt viu no desenvolvimento do nazismo.

Este desprezo pelo homem – tanto pior quando endossado pela inteligência – está no cerne do cuidado de tantas mentes poderosas pelo abjeto Marquês. Pensar que a apologia da tortura é bela porque belamente escrita, profunda porque silogisticamente arquitetada, verdadeira porque envolta em um pensamento sistemático, é abandonar a distinção aristotélica que está na base de nossa civilização, a capacidade que tem o ser humano de reconhecer no outro, a separar o bem e o mal.

Que tipo de pensamento tortuoso faz com que vejamos o prazer do torturador e ignoremos a dor lancinante do torturado? Que nos identifiquemos com aquele que destrói e não com o que é destruído? Que possamos chamar de bom alguém que pregou o primado do mal? Cegueira romântica? Não, eu diria que é a estupidez da inteligência. Um certo desprezo da inteligência pelo mundo real, das pessoas comuns, pelo ser humano às vezes plano, baço, e, no entanto, absolutamente infinito e complexo. Este ardor baudelairiano pelo raro, estranho e antiburgues que basicamente fomentou o romantismo e o fascismo e é a sua origem comum.

Esta torção intelectualizada, esta leitura profundamente filosófica e abstrata da crueldade, sutilmente justifica os campos de concentração da vida real, pois foi afinal lá que pequenos Sades exerceram a sua filosofia de bordel privada e se julgaram também divinos no trato com a ralé humana. Na estrada da louvação a-crítica de Sade não temos como condenar ao pequeno torturador de província, o cotidiano carcereiro sádico. O delegado torturador. O que lhes falta talvez é talento verbal para justificar a sua tara assassina em prosa grandiosa e bela poesia ou uma sofisticada teia de sofismas intelectuais.

O engano de Paz, Buñel, Paullan e de dezenas de outros intelectuais fascinados pela figura literária do mal é que o mal não é uma figura literária, e se o fosse, a literatura, a melhor literatura, não tem direitos acima do mais humilde dos homens. Só um pensamento desvinculado da vida pôde erguer Sade do submundo de seus confrades perigosos para a atmosfera sofisticada da alta cultura letrada. O pensamento encontrou o seu coveiro, mas é necessário dizer não. E que fique claro que este não é uma posição sobre o valor literário de Sade, mas uma reflexão ética de sua recepção que ao esconder os pressupostos de indiferença sobre os quais se baseia, expõe o caráter sombrio de nosso tempo e as muitas imposturas de nossa inteligência.

Middlemarch e seus Limites

Escritora George Eliot, e o esboço de um mapa de Middlemarch, romance central do realismo inglês.

Middlemarch é considerado, com alguma razão, por uma parte importante da crítica, como o maior romance da língua inglesa. A concentração de seu assunto, a variedade de seus personagens e temas, a ambição de seu conjunto, cujo tratamento romanesco é de primeira ordem, todos estes são aspectos inegáveis do romance. Ele é ao mesmo tempo analítico e descritivo, sociológico e psicológico, as relações humanas com que ele trata são de uma maneira tal desenvolvida e amadurecida que fez com que Virgínia Woolf dissesse que Middlemarch era o único romance inglês escrito para uma mente adulta.

O Romance como Estudo Científico da Vida Provinciana

A ambição de seu conjunto já está no subtítulo com que se apresenta: Um estudo da vida provinciana, o que longe de funcionar como simples indicação editorial, anuncia, de certa forma, um verdadeiro programa de escritura. Ele demarca uma ambição analítica exposta desde o começo e posiciona o romance no interior da tradição realista do século XIX, aproximando-o de uma tentativa de análise social sistemática, informada pelo positivismo e por uma certa sensibilidade evolucionista então corrente.

Estudo, neste caso, significa descrição minuciosa, delimitação cuidadosa de um campo social preciso e esforço de objetividade. O narrador onisciente de Elliot não se limita a contar as histórias individuais: ele comenta, interpreta, relaciona. Analisa a psicologia dos personagens, as convenções do meio em que vivem, as determinações de classe a que estão submetidos e o pano de fundo histórico e político que condiciona suas ações. E assim, Middlemarch se organiza menos como romance de histórias individuais e mais como uma investigação de um organismo social delimitado.

Pensando dessa forma poderíamos imaginar que o romance expressa um tipo de abordagem que mais tarde seria desenvolvida pela antropologia social: as ações individuais são compreendidas como respostas engendradas por um meio determinado, cujos códigos e convenções esmaecem as margens de diferenciação. Trata-se de um romance eminentemente descritivo, detalhado e, tanto quanto lhe é possível, objetivo; cujo objeto é um espaço social bastante fechado, definido pela proximidade e pela interdependência (até mesmo parental) de seus membros. Propondo-se como O Estudo da Vida na Província, é na verdade, quase um estudo de classe.

Essa ambição analítica inscreve Middlemarch na linhagem do grande romance realista europeu. Evidentemente (e o subtítulo o confessa) a filiação mais evidente é Balzac e seus romances divididos em estudos da vida francesa. Apesar de trabalhar em níveis, registros e projetos distintos, Balzac é para Elliot (e não só ela) o romancista inescapável de todo o século XIX e sua Comédia Humana estabelece o modelo do romance como série de estudos setorizados da existência social.

O movimento de análise monumental do romance de Balzac em Elliot está circunscrito à província inglesa. O princípio, no entanto, é o mesmo: observar sistematicamente os grupos sociais através de seus indivíduos, seus interesses, seus conflitos e suas ilusões, fazendo do romance um instrumento de conhecimento.

Devemos entender que a escolha da província como objeto de estudo não é neutra. Em Middlemarch, a vida provinciana é apresentada no que para Elliot era o lugar onde se poderia observar o aspecto verdadeiro e essencial da Inglaterra. Um ponto irradiador de um certo caráter fundamental da nação. Mais ainda, o lugar onde se encontrava aquele tipo de caráter de classe média que é, afinal, o objeto de seu estudo e sua comunidade de leitores.

Mas esta era na verdade apenas uma parte da Inglaterra. Naquela altura do século XIX já havia a vida proletária, o submundo do trabalho industrial e suas consequências brutais, sujas e desoladoras que Dickens descreveu tão bem. Havia também, como sempre houvera, o poder aristocrático de uma classe dominante que ainda se afirmaria por muito tempo como o dirigente e o fiador do Estado. Havia o universo mercantil e imperial da expansão marítima inglesa. Eliot escolhe conscientemente a classe média provinciana, proprietária de terras, profissional, moralmente consciente de si, à época querendo afirmar seus valores, seu peso político e a sua importância para a nação. A província no romance vai se afirmar como o núcleo moral da Inglaterra. E esta posição ideológica sustentará o romance.

Um Romance de Estudos

Um romance, até por esse motivo um pouco sem herói delimitado. A rigor sem um personagem principal. O protagonista do romance talvez mais até que a Vida na Província (como querem alguns críticos) é um princípio geral (talvez moral) distribuído em vários pequenos estudos.

Pois há então um estudo dos jovens (Dorotéa, Célia, Fred. Rosemund, Mary, Ladslaw, Lydgate), quais as perspectivas de desenvolvimento dos jovens, sua psicologia e comportamentos determinados por sua época e pelo quadro da sociedade.

Há um estudo dos adultos (Brooke, James Chetam, Candem, Caleb) suas determinações de classe e seus comportamentos sociais.

Há também um estudo do poder em seus vários níveis e encarnações (Vincy, o prefeito; Brooke, proprietário; Bulstrode, banqueiro; Causaubon, clérigo; Featerstone, rico proprietário de terras).

E daí um estudo do dinheiro (a herança de Feathersone; Brooke e suas relações com seus rendeiros e o contraste do comportamento com Chetan; a falência de Lydgate; os esforços da família Garth)

E há enfim um estudo sobre o casamento: Dorotéa com Causaubon, Célia com Chetan, Lydgate com Rosamund,  Caleb Garth e Suzan).

Esse método de estudo positivista, esta análise de elementos e conjuntos trabalha com a justaposição de casos particulares visando a compreensão de um conjunto social.

Dorothea e Lydgate: O Conflito entre o Idealismo e a Realidade

Dorothea Brook, o primeiro personagem a quem somos apresentados, funciona quase como um núcleo para onde os outros personagens convergem e é sem dúvida um dos personagens centrais do romance. Parece-me que nela Eliot concentra algumas das ideias centrais de seu estudo. Dorothea encarna o idealismo ético historicamente deslocado, um temperamento intenso, idealista, generoso, capaz de auto sacrifício. Uma sensibilidade moral na deriva de seu tempo.

No início do romance a comparação explícita dela com Teresa de Ávila é decisiva. Dorothea possui um temperamento cristão, mais que próximo da santa, aprendido e mimetizado nas leituras que dela fazia. Essa sensibilidade historicamente deslocada é ao mesmo tempo fonte de sua força e de sua fragilidade. Esta esfera fundamentalmente generosa de sua sensibilidade, sua inteligência desprovida de senso comum, expõe um idealismo que ignora as condições objetivas da realidade. Como Dom Quixote, cuja visão de mundo foi deformada pelos livros de cavalaria, Dorothea foi formada pelas hagiografias, as vidas dos santos que lia e que conformaram a sua vida.

É assim que seu casamento com Causaubon é uma armadilha enganosamente urdida pelo seu idealismo. Ela vê nele o erudito idoso com um grande projeto espiritual ao qual valeria a pena se sacrificar. Enquanto todos a sua volta a advertem de seu erro, do sacrifício inútil de sua juventude, ela faz os movimentos decisivos que levam ao casamento, talvez inconscientemente já buscando o martírio compatível com suas projeções emocionais engendradas nos livros.

Para Casaubon, a admiração da mulher jovem é lisonjeira; o casamento socialmente adequado, mas nada além disso. Sua personalidade é marcada por uma esterilidade afetiva cultivada ao longo de uma vida de abstração e vazio intelectual. Ele emana uma atmosfera de impotência física e espiritual. Ele é reprimido, formal, mecânico, incapaz de afeto profundo ou empatia.

Nas cenas do casamento, a sensualidade natural da jovem espera algum tipo de correspondência — mesmo que intelectual — aos seus anseios de atenção e envolvimento. Casaubon nada divide. Sua correção distante é uma armadura que envolve uma personalidade que nunca se desenvolveu plenamente em sentido humano (e caso eu tivesse o escopo freudiano, eu diria, uma personalidade anal).

Talvez este anseio de devoção de Dorothea a um homem mais velho, cuja experiência deveria educar e subordinar sua personalidade, sugira uma fissura psicológica profunda: a ausência da figura do pai. Criada em internatos, depois aos cuidados de um tio inexperiente e disperso, talvez haja aí uma fissura onde o casamento se revelaria não apenas um erro de julgamento, mas uma dinâmica afetiva malsucedida desde uma origem obscura.

Em contraste com Dorothea temos Celia, sua irmã. Sem grandes ambições intelectuais ou morais, ela se revela, no entanto, muito mais sagaz, emocionalmente madura e apta à felicidade que Dorothea. Sua inteligência é prática, seu senso de realidade evidente. Curiosamente, Celia demonstra uma maturidade emocional superior à da irmã mais velha e “mais inteligente”. Na dinâmica entre irmãos, é possível que o mais novo desenvolva uma diferenciação crítica inconsciente em relação ao mais velho, afirmando-se por contraste. Talvez seja esse o caso. A fissura emocional que marca Dorothea parece ter funcionado como motor da sanidade de Celia. Seu marido, Sir James Chettam, (no romance um personagem positivo): é ponderado, cavalheiresco, humano sem sentimentalismo. Tendo cortejado Dorothea e se desiludido, casa-se com Celia. Uma leitura desconfiada mas possível permite supor que Chettam nunca superou completamente seu amor por Dorothea, sublimando-o em amizade constante e vigilante. Seu casamento com Celia pode ser visto como transferência de afeto, mas uma transferência bem-sucedida, social e emocionalmente ajustada.

Lydgate e Rosamund a Dinâmica de um Casal

Não podendo, até porque não é o objetivo deste texto, falar de todos os personagens do romance, falarei um pouco de Lydgate que é um dos personagens mais críveis do romance, e de certa maneira é o contraponto masculino da figura de Dorothea em seu idealismo um pouco ingênuo.

Médico, movido por ideais científicos e desejo de servir à comunidade, ele encarna a ética ideal do conhecimento desinteressado. Sua trajetória é melancólica porque realista: o ideal de servir ao conhecimento entra em choque com as forças sociais e a dinâmica econômica do capitalismo. As exigências sociais de seu casamento entram em desacordo com sua ambição franciscana.

Rosamund, sua esposa, é seu contraponto perfeito. Bela, autocentrada, satisfeita consigo mesma, ela utiliza seu encanto como instrumento de ascensão afetiva e social. É o narcisismo elegante, o egoísmo gracioso, em contraste direto com o altruísmo desajeitado de Dorothea. Onde Dorothea erra por excesso de ideal, Rosamund erra por ausência dele.

Mas há muito mais neste estudo de casamento. O fracasso da união entre Lydgate e Rosamund revela os limites do amor, mas acima de tudo a dinâmica profunda do desencontro do afeto quando exposto as contradições de duas personalidades que só tem em comum a energia sexual que as uniu. No romance, toda descrição da relação entre Rosamund e Lydgate é um estudo complexo do desencontro de casais.

A Pedagogia das Virtudes em Middlemarch

Este trabalho complexo de Eliot (nestas e em outras partes do romance que não caberiam detalhar aqui) revelam, na minha leitura, um propósito pedagógico do romance. Um romance que sinaliza diversas éticas.

Há em Middlemarch um certo elencar de motivos éticos evidentes, quase como uma sinalização pedagógica para a melhor vida na sociedade. Em primeiro lugar há a ética abrangente expressa no caráter de Dorotéia: amor desinteressado, sensibilidade voltada para os despossuídos, grandes e generosos ideais, espírito filantrópico.

Há a ética médico-científica expressa no personagem de Lydigate: Amor ao conhecimento, desconsideração do dinheiro, vontade de servir a uma comunidade.

Há a ética do comportamento cavalheiresco de urbanidade pessoal: James Chetam ao aceitar que Dorotéia não se casaria com ele, adota, a partir de então, um comportamento de proteção e orientação, de amizade desinteressada e dedicação. E mais cavalheiresco ainda é o padre Farebrother que ao perceber que Mary Garth ama a Fred Vichy, adota, a partir daí, o papel de orientador de Fred e de amigo do casal, trabalhando para facilitar a sua união.

Há também a ética de trabalho expressa em Garth. O amor ao trabalho meticuloso e bem feito, a honestidade escrupulosa na prestação de contas, a atenção humanista para aqueles que estão sob as suas ordens, a honestidade inquestionável, o respeito radical a palavra dada.

Por fim há a ética comum a toda a comunidade como aparece no episódio de Bulstrode e no modo como toda Middlemarch o condena e se afasta dele ao perceber que a origem de sua fortuna havia como ponto de partida atos escusos. Neste ponto a comunidade como um todo age de modo a afastá-lo de seu convívio.

A Fissura Ideológica: O Caso Raffles e o Limite do Realismo

E é aqui que eu começo a ler um outro aspecto de Middlemarch, pois esta é uma forma propositalmente idealizada de apresentar a vida e os homens, tanto mais singular em um romance tão evidentemente realista e que se apresenta como um estudo positivista de uma dada realidade.

Nesta exposição enxergo muito mais a ação da ideologia, uma observação condicionada pela classe, uma burguesia que idealmente gostaria de se comportar da maneira como é descrita no romance em uma projeção hipertrofiada de suas qualidades, mas que na verdade é, no mais das vezes, outra coisa.

Isso fica para mim mais evidente pelo fato de os pecados da comunidade observada podem ser apresentados como pecados menores, venais. O amor a fofoca, a disfarçada hipocrisia, leve parasitismo parental, negligenciável amor ao jogo, sovinice, etc… É sintomático que o pior personagem de toda a narrativa – Raffles – (e que não por acaso é um proletário desqualificado, alguém evidentemente egresso da ralé), em seu passivo tem apenas o fato de ser um extorsionário bêbado no mais das vezes espremido pela miséria de sua condição social, (voltaremos a ele).

Mesmo Bulstrode, um outro personagem negativo, é um trânsfuga de sua classe, um empregado que alcançou a sua fortuna se casando com uma viúva rica, e a percepção que a comunidade tem dele é de que não tinha berço, ou seja, sua fortuna não estava legitimada pela herança ou terras, o modo de validação burguês.    

Mas na leitura de Raffles está a ferida de minha leitura.

Pois Raffles não é tratado como personagem pleno. Ele é tratado como uma emanação patológica, o modo como a ralé se comporta, o eles que não interessa a nós. Enquanto Bulstrode é complexo, ambíguo, tem interioridade, conflito moral; Casaubon, é digno de piedade, trágico, humano; Rosamund é criticável, mas inteligível, Raffles é repulsivo, degradado, quase fisiológico. Ele é uma ameaça proletária, aparece sempre ligado à bebida, ao corpo, ao mau cheiro, à desordem.

Isso não é acidental: Raffles é um reles trabalhador desqualificado, um resto social, alguém sem função produtiva ou respeitável. E assim, o romance não lhe concede aquilo que concede a praticamente todos os outros personagens: densidade humana.

E este é o limite da objetividade de Eliot e a explicitação de seu idealizado conteúdo de classe. E talvez mais, os limites de toda a recepção do romance. 

Já que a crítica tradicional de Middlemarch costuma operar sob três pressupostos tácitos: George Eliot é uma alta inteligência moral, ela trabalha dentro do Realismo estrito, a imparcialidade do narrador reflexivo dela tem uma consciência ética superior. Esses pressupostos geram uma blindagem crítica. Tudo que o romance faz é interpretado como complexo, equilibrado, compreensivo, mesmo quando o texto abandona claramente essa posição. E a partir daí que compreendemos os limites também da crítica acadêmica, pois ela, por origem, se identifica estruturalmente com a classe média ilustrada, sujeito e objeto do romance, e é esta exatamente a classe que o romance idealiza.

O tratamento dispensado a Raffles expõe o limite do realismo de George Eliot e de quase toda a crítica acadêmica. Quando confrontada com a miséria sem mediação cultural, com a pobreza que não se deixa sublimar em conflito moral, a narrativa recua e a crítica vira o rosto. O preconceito de classe surge ali não como algo inesperado, mas como fundamento silencioso do edifício ético do romance.

A Grandeza e limites de Eliot

Mas esta é uma entre outras leituras, como costumo insistir. Resta falar que, tudo isso dito, o limite ideológico de Middlemarch não anula sua grandeza; ao contrário, ilumina pelo efeito negativo os inescapáveis juízos de classe que são os pressupostos de qualquer avaliação. E é precisamente por ser tão ambicioso que seus claros se tornam tão reveladores e nos ajudam a ler melhor a nossa própria realidade e nossos próprios preconceitos.

Borges e a Preeminência do Leitor

Lento en mi sombra, la penumbra hueca

exploro con el báculo indeciso,

yo, que me figuraba el Paraíso

bajo la especie de una biblioteca.

Em Borges, a literatura assumiu, no momento de seu crepúsculo social, o aspecto da totalidade. Quando já se prenunciava o encerramento do período de ascendência do espírito letrado na esfera política e social, tanto quanto no recesso particular da existência cotidiana, apareceu a prosa automeditativa de Borges para assinalar a existência heroica do leitor e a percepção de que todo o real não passa de fabulação, ficção, história. Já se disse que na obra de Borges o ponto central se dá na busca do lugar que seja todos os lugares, do homem que seja todos os homens, do tempo que contenha em si todos os tempos possíveis. Mas eu imagino que, além de tudo isso, o que Borges buscava era a absolutização do mundo ficcional que incorporasse toda a realidade, a encarnação final da afirmativa mallarmaica de que tudo existe para se acabar em um livro – e, sendo assim, para a fruição de um leitor. Para ele, é o privilégio do leitor o que define a necessidade do mundo, e é a intermediação do livro o que faz esse mundo suportável.

A Escrita como Reescritura Interminável

Em Borges, ler é uma maneira de escrever, e na circularidade textual de todo o universo da leitura, escrever é um ato de reescritura interminável, onde os textos se indeterminam e se repetem. Para poucos autores a palavra ficcional teve o peso da autoridade metafísica que teve para Borges, e a sua alta percepção e testemunho da centralidade do leitor é a homenagem que toda a literatura que se encerra faz aos seus admiradores.

Afinal, a obra de Borges cristalizou-se no mesmo instante em que o domínio ideológico da cultura letrada, um certo mundo formado pela sensibilidade literária, já estava sendo substituído pela eficácia sem fim dos meios audiovisuais de transmissão da cultura. Após a Segunda Guerra, que é quando a sua obra se consolida, já era evidente o deslocamento da centralidade da literatura de imaginação para a periferia da influência social e política.

A Elegia de um Mundo que se Encerra

Nesse aspecto, sua obra é uma elegia, a crepuscular despedida melancólica de um mundo que se encerra, o canto de cigarra de uma sensibilidade que já se sabe mortal. Daí que é dele a imagem especular, e agora absolutamente estranha, anacrônica e desgastada, de que o Paraíso pudesse aparecer na forma de uma biblioteca. Essa imagem de uma religiosidade laica e mundana, que reinventa o lugar e o homenageia a um só tempo – à face de Beatriz na poesia de Dante –, desapareceu do horizonte da sensibilidade moderna e migrou para outros anseios.

Pois ainda nele, só um leitor absoluto almejaria um Paraíso feito de livros. Só um Paraíso repleto de volumes repousaria a fé hermenêutica de um tal peregrino. As almas abertas umas para as outras, como os volumes do sermão de Donne (Meditation XVII), em Borges são verdadeiramente livros.

Decorre daí a paixão que sua obra, monomaníaca nesse aspecto, nos sugere. Nós, leitores, nos sentimos lisonjeados por ele e por sua dedicação, e de dentro de nossa própria paixão, profundamente o compreendemos e amamos.

O Vate Cego e a Memória Universal

E compreendemos quando ele sugere que há uma ligação misteriosa na analogia circular do fato de a literatura ocidental começar com o poeta cego Homero e nele, igualmente cego, encontrar, nesse ponto da história, o seu mais automeditativo vate. Essa convergência textual, heraclítica em seu imperfeito retorno, trai a ironia que Borges sempre buscou no hipertexto da memória universal – e que nele amargamente se cumpriu. Sua cegueira homérica conferiu uma estranha legitimidade à sua poesia, pois esta previu a repetição inexata do drama humano e soube que, em algum momento, Homero havia sido todos os homens; e agora, era Borges. A ficção dos imortais se dava nas ruínas circulares da história, e Borges agora era todos os homens, com uma notável exceção:

“yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca aquel en cuyo amor desfallecía Mathilde Urbach”.

Este formidável poema curto – Le Regret d’Héraclite –, tão ambiguamente obscuro e claro, une exemplarmente a multiplicidade borgiana e sua solidão sem esperança, que provavelmente só se resolveria em um universo impessoal feito de textos. E é a mesma estranha esperança que ele leu, em um ensaio, da resolução do encontro do amor de Dante por Beatriz, mas agora no ricorso da história. Na circularidade agora presumida desta, diferente da escala ascendente da mitologia católica de Dante que direciona o encontro, talvez Borges pensasse poder ser, em algum momento indeterminado neste círculo, aquele homem em cujos braços Mathilde Urbach poderia desfalecer. E sua poética possibilitaria, neste instante, a reescritura de uma vida que se consumou na História.

O Aleph de Borges nos Ensaios Dantescos

Foi então, ao ler os Nove Ensaios Dantescos, que a chave me apareceu. Naquele estudo, ele afirma que Dante, após o profundo impacto da morte de Beatriz, teria escrito toda a complexa arquitetura da Commedia somente para ter uma chance de reencontro com ela.

Este ato ensaístico de Borges era coerente com todo o seu pensamento. Com os privilégios de leitor, como um elusivo Menard, ele não reescrevia a Commedia, mas reescrevia todo o seu sentido metafísico, traduzindo-o em uma chave humílima de perda pessoal, uma concepção secular e humana. No fluxo labiríntico da ascensão de Dante do Inferno ao Paraíso, na sua complexa teologia, Borges viu o que seria o Aleph da obra, o ponto de convergência total de toda aquela catedral, o ponto intenso e transparente da leitura. O Aleph ali é o remorso de Dante.

Como leitor de Dante, pensei: uma curiosa interpretação, sem dúvida possível, criativa. Mas, e se ela falasse mais de Borges que de Dante?

A Reencenação da Leitura

Pois se ele leu a Commedia como um sublime artifício para justificar um reencontro, então talvez a própria obra de Borges possa ser lida como a encenação dantesca de um intelecto descrente. Com o Inferno da paralisante memória infinita de Funes; o Purgatório da decrepitude dos Imortais; o Paraíso da visão fugaz do Aleph. Mas, ainda mais, em um nível íntimo e trágico, a experiência amorosa singular e irredutível de não ter possuído Mathilde Urbach, aquela em cujo amor se poderia desfalecer, algo que sua vida lhe negou.

Pois se a obra de Borges é esta expansão, esta escansão de todas as possibilidades de leitura, o gesto de leitor privilegiado com que ele analisou Dante também nos serviria para analisarmos Borges.

E assim fazendo, algo da circularidade das ruínas de leituras se explicitaria, não como uma reescritura do texto, mas como a reencenação de uma leitura. E nessa recorrência hermenêutica, como Borges, teríamos sido todos os homens e, por um momento, poderíamos também ser Borges e participar, ao menos uma vez, de sua maravilhosa preeminência de leitor.

PEDRO NAVA   A COERÊNCIA VORAZ DA MEMÓRIA

Este ensaio é uma declaração de amor a obra de Nava, que eu havia lido toda antes da sua morte em 1984. Eu tinha 23 anos e como nós dois somos do rio de janeiro, já tinha passado dezenas de vezes diante do prédio onde ele morava e escrevia. Uma manhã, tendo comprado o jornal li: “escritor Pedro Nava se suicida na rua no bairro da Glória”. Vinte anos depois escrevi esse ensaio.

A COERÊNCIA VORAZ DA MEMÓRIA

Novembro 2004

“o nomeado, por que o é, existe”

Baú de Ossos

A Morte como Montagem Definitiva da Vida

Píer Paolo Pasolini, que além de poeta e cineasta foi também semiólogo, em uma entrevista-As Últimas Palavras do Herege –  disse que a morte, o modo como se morre, reorganiza uma vida; como na montagem de um filme, ela dá sentido à existência, confere a vida seu sentido final e definitivo. Há vinte anos Pedro Nava se matou com um tiro, na rua, no bairro da Glória, que ele amava, e, desta maneira, terminou a montagem definitiva da sua obra. O suicídio, o único problema filosófico para Camus, a resposta radical à pergunta de que se a vida vale a pena ou não ser vivida, foi a resposta dada por Nava, talvez o mais vital de nossos escritores. Vital no sentido da carne voraz, no sentido sanguíneo e solar do carpe diem dos epicuristas e ateus, pois a prosa de Nava transborda de vida e de tudo o que comporta de fruição dos sentidos degustativos, olfativos, tácteis, já que não há na prosa brasileira um texto que contenha mais da espessura e concretude avassaladora do mundo.

Minha pergunta é: seu suicídio estava de alguma forma embutido em sua obra? Mais: não só embutido como um peso explícito no texto, uma deliberação, um projeto, uma predição, mas sim na escolha do memorialismo como forma narrativa e, assim sendo, o memorialista carregaria, em sua retrospecção em direção ao não ser de antes do nascimento, filosoficamente, o suicida? No esgotamento do dito, no esvaziamento dos baús do ser, no pálido adeus aos fantasmas que no silencio do enunciado nos amparam, no desvão da alma, e que nos sustentam porque dissimulados? Dormindo, profundamente?

Baú de Ossos: A Ressurreição Mineral dos Antepassados

Comecemos com cuidado. Leiamos o primeiro volume da sua obra de memorialista cujo título já traz a insinuação da morte: Baú de Ossos. A epígrafe do livro é um verso de Manuel Bandeira (um outro fascinado pela Indesejada das Gentes) do belo poema Profundamente do livro Libertinagem. É da reconstrução dos que se foram que se inicia o livro, os antepassados, agora “coisa mineral dos cemitérios”, as relações parentais mais que lembrança, épica pessoal, gesta de um clã numeroso. Assim este primeiro volume é memorialística, sociologia, história. Aos poucos se delineia o Brasil do século XIX e XX  na linha da história das mentalidades, cara aos franceses, mas antes que bebida nos franceses, percebida e aprendida em Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala, Sobrados e Mocambos; história da percepção das pequenas nuances, movimentos delicados que desenham a inteireza de uma personalidade, de um parente perdido na memória, um mundo de marcas de cal na parede; tudo o que oculto na lembrança pula para o texto como se fosse vivo, como se estivesse latente no próprio real e agora, aceso, luminoso, na página branca se presentificasse para sempre. Esta vitalidade do lembrado faz da morte, em princípio, um tropo literário, a narrativa transborda de vida, de tensão. Na reminiscência genealógica que descreve os bigodes, andares, movimentos do corpo, olhares dos parentes distantes. Na enumeração dos gostos, sabores, odores; dos açúcares e sais, dores, comidas. Nava é rabelaisiano no degustar a vida, em sua intensidade carnal, na concretude de seu relacionamento com a memória. Em sua prosa tudo o que foi olvidado se presentifica em palavras, fluxo ininterrupto de imagens que se abre ao texto. Sua narrativa tem a intensidade das coisas contadas, da conversação, da oralidade – o nomeado, porque o é, existe –  o existido agora que foi nomeado se reapresenta, pulsa novamente, nos enleia e nos repete. Sua repetição se dá onivoramente, pantagruelicamente, pois nada está fora de seu círculo de afetos. O cutelo usado na partilha da carne, o alicate que torqueia o passado, a seda de cambraia da avó, a pequena menina morta queimada; todo o existido, pesado, sentido, cheirado, cuspido, comido, retorna, se espirala, e reaparece.

É curioso como nada escapa a sua atenção e a seu amor. Nada foi perdido, pois tudo foi amado corporalmente embora o corpo seja pó, silêncio, nada, esquecimento; tudo se tornou pleno de vida – de vida vã, no entanto, embora a memória a resgate de sua vacuidade e de sua deslembrança – colado à carne que envelhece e lembra, que adoece e lembra, que se esquece, morre e lembra.

A Vitalidade Rabelaisiana e o Trauma do Lembrar

Mas este se despir da memória pode ser um ato traumático. Afinal nossas lembranças nos testemunham, nos julgam e nos sustentam; e este amontoado de cadáveres nos observa no silêncio e, mesmo enunciados no silêncio nos perseguem. O peso do pai que julgáramos leve e era ferro, a dor de uma palavra não dita e que ainda engasga, o abraço que se paralisou nas bordas do peito e que nossos mortos indagam o porquê. É que viver, afinal é acumular culpas por tudo o que foi feito de errado, por tudo o que não foi feito, e o memorialista ao revisitar a sua vida não pode deixar de olhar a si mesmo como tantas vezes foi: vil, covarde, menor do que julgava ser, mesquinho e, afinal, mortal. Talvez por isso este dom do esquecimento que o memorialista recusa, esta exclusão dos dejetos dos atos menores que todos tivemos e que a memória insiste em rever e que como a Medusa nos paralisa e petrifica, e no fim nos mata.  Foram os gregos que nos ensinaram a não olhar para trás, que é melhor seguir em frente, pois a memória, a voracidade tenaz da memória não aceita o exorcismo de se tornar palavra impressa apenas e, uma vez enunciada existe álgida, plena, exigente e nos consome.

Nava, que de porta em porta abriu um caminho cada vez mais recuando neste corredor obscuro, descerrou a caixa de Pandora do passado e no fundo não encontrou a esperança, mas o horror de sua vida, a fugacidade de seu ser, o centro da história de tudo, e o nada. Carnal, como era, foi no corpo, no inventário de sua decadência física o lugar onde a celebração da existência vivida se tornou elegia. Carpe Diem.

De Chão de Ferro ao Círio Perfeito: O Esgotamento do Ser

No volume de Chão de Ferro a epígrafe de Maupassant “je regret tout ce qui s’est fait, je pleure tout ceux qui ont vêcu”. No Beira Mar este trecho: “terminada a evisceração eu sempre me espantava com o pouco, o nada que ficava”. No Galo das Trevas (o quarto volume das memórias) o fluxo da prosa começa a ser ininterrupto, o texto torna-se cerrado como um delírio. No sexto e último (O Círio Perfeito) o horror do existido é tanto que ele tem de criar um alter ego (Egon) para poder atravessar o mar de memória com ao menos uma companhia, um escudo, um recurso esquizofrênico para evitar a dor total. Afinal, o depressivo não consegue esquecer, mesmo narrando a totalidade de sua vida não se reconcilia com ela. Desta forma as memórias de Pedro Nava são um ajuste de contas entre ele e seu passado, entre ele e seu tempo, entre ele e o Brasil. Destes três embates sai derrotado, ferido, amputado. A memorialística, que se queria cura, torna-se peste; o tormento sensual, a sexualidade proustiana se evidencia e a memória quer o espírito, mas é a carne que grita e Nava se vê frente a frente com a dificuldade de ser.

Fecha-se o ciclo da memória em o Círio Perfeito de maneira angustiada. A personalidade que partiu em busca da lembrança fragmenta-se. Nava, Egon, o Comendador, juntos e complexos, inquisitivos, tomam as praças imensas, inteiras da narração. O vivido vem cobrar seu preço. Quem pode afirmar que a asma de Proust não fosse um subproduto das suas memórias, uma somatização da diversidade falada da vida, escritura opressiva paga no fôlego do autor? Assim Nava. Tudo catalogado e pensado, resta o suicídio, o final de todas as lembranças. A lembrança que se paralisa no silêncio expressivo da morte, enfim a recusa de todo existido.  

O Tiro na Glória: O Fim do Pesadelo da História

Talvez Joyce em uma frase famosa exprima Pedro Nava: “a história é um pesadelo ao qual eu tento escapar”. A estratégia de Joyce foi o esfacelamento da linguagem, a fragmentação da vida em um romance (Ulisses) e, por fim, o assassinato do romance (Finnegans Wake). Com recursos diferentes dos de um Joyce, Nava narra com precisão e infla a linguagem, cria neologismos, super povoando o já demasiado habitado inconsciente. Seu esfacelamento do vivido viria pela hipertrofia da linguagem e do lembrado. O pesadelo da história continuaria onipresente apenas nas memórias e por causa delas. A tentativa de escapar ao pesadelo falharia, pois não reconciliaria o narrado e o narrador. No fim o texto exigiu a própria vida. Pedro Nava dá um tiro na cabeça, o esquecimento vem com uma bala, o pesadelo da história enfim terminava. Pedro és pedra e como pó voltarás ao reino mineral, ao desconhecido e inominável nada, o lugar no qual não há testemunhas nem lembranças. No gesto incompreensível de repente está tudo dito, e assim definitivamente nomeado, enfim, existe.

Macbeth: A  Tragédia da Linguagem                                                                            

Eu sempre gostei de Shakespeare. Diante da bardolatria que encontro em geral em todos os artigos que falam dele, posso dizer que tenho por ele um amor moderado. Este é um dado da minha relação com ele, que nada tem a ver com a grandeza intrínseca e reconhecível de Shakespeare, mas com os limites que existem na história de leitura de todos os leitores. A literatura é infinita e nossa capacidade de ler é limitada, e dessa forma ao longo de uma vida acabamos lendo algumas coisas e deixando outras para mais tarde, uma tarde que nunca chega. Mas dele li alguma coisa e tudo que li me marcou de alguma forma. Mas Hamlet, Júlio César, o Rei Lear, O Mercador de Veneza, A Tempestade, entre outras peças dele que consegui ler, nenhuma é tão importante para mim como Macbeth. Seria uma mentira dizer que li pouco Shakespeare, até porque só o Macbeth eu li mais de quarenta vezes e sei que se ainda houver tempo, lerei mais quarenta.  

E a minha maneira de ler essa peça (talvez mesmo como a maneira que tenho de ler todas as coisas) é bastante idiossincrática e pessoal, como penso, deva ser toda leitura. Assim, mesmo considerando que Macbeth é mesmo a tragédia sobre a ambição e a loucura, quero propor uma leitura da peça como uma tragédia da linguagem.                                                                          

Macbeth e o Cânone

Macbeth é a mais curta e mais intensa das peças de Shakespeare. Uma peça cuja ação em linha reta impressiona tanto no palco como no texto escrito, pela concisão e consistência, a absoluta coerência entre o tema e os personagens e a força inigualável da poesia. Seu objeto evidente é a ambição e o malogro, sua expressão é de uma tragédia medieval, mas do medieval da alma, a noite escura do espírito que não pertence à época nenhuma e pertence a todas as épocas, pois a ambição desmesurada está no centro do destino humano.      

Regido por sua obsessão e traído por ela – a rapidez da ação que o leva diretamente da vitória à degradação é um dos melhores elementos do texto –  Macbeth tem o perfil de todos nós em sua fraqueza; tem, mesmo em sua desumanidade, algo que é comum a todos os homens: a debilidade de um desejo que é preenchido pelo desejo de outras pessoas que o manipulam até a despersonalização, até o momento em que cessa de ser o senhor de suas próprias ações e passa a ser movido pelos acontecimentos.

As Palavras Como Instrumento

Mas, para mim, antes de tudo, Macbeth é uma peça sobre as palavras, uma tragédia sobre os textos e o modo como nos movemos guiados pelas nossas leituras, o preço a ser pago pelo nosso desletramento. Porque, se para o dramaturgo a ação (movimento, cena, interpretação) é o principal instrumento de expressão, para o poeta é a palavra e seu poder de contágio, o material supremo de trabalho. Macbeth é assim a meditação de Shakespeare sobre seu instrumento de trabalho: a linguagem, a força que tem a palavra e os textos para mover o mundo.

Compreendo que esta não é uma interpretação comum de Macbeth, mas é uma interpretação cabível e, creio, que sustentada pela peça e pela peculiaridade de ser a tragédia de um poeta. Pois, para um poeta as palavras nunca são apenas um meio, são um meio e um fim inseparáveis.

Agora, antes de propriamente analisar Macbeth, gostaria de lembrar o Polônio de Hamlet, alguém que tem prazer no que diz e em como o diz, e que discursa rolando prazerosamente as palavras no leito de sua boca, mastigando-as, saboreando-as, sentindo-as. Para mim é sempre um prazer particular reler em Hamlet as cenas em que Polônio exercita este seu dom natural para a tempestade de palavras, um fato tão natural como a própria vida.

Uma fala entre muitas é o seu diálogo com Hamlet – puro jogo verbal – onde ele descreve os atores que acabaram de chegar como sendo hábeis  em todos os tipos de papéis “eithers for tragedy, comedy, history, pastoral, pastoral-comical, historical-pastoral, tragical-historical, tragically-comical-historical-pastoral, scene indivisable, or poem unlimited” (Hamlet, act 2, scene 2). A verborragia cômica de Polônio claramente demonstra que ele é uma caricatura do excesso verbal — alguém que ama as palavras, mas não as compreende inteiramente.

E, afinal, o resumo de Hamlet, a síntese da sua filosofia é: “words, words, words”, sempre as palavras, e o resto é silencio.

Mas como leio Macbeth, ela aparece (ao menos para mim) como a tragédia da má avaliação do texto, da leitura enganosa dos símbolos do real.

O Erro de Macbeth

Vejamos, já no início da peça, na dança das “three witches sisters” elas nos alertam que “fair is foul, and foul is fair” explicando, desde o princípio, para os que vão penetrar na peça, que nada do que parece é; e que a linguagem é um jogo tanto para a descrição da realidade como para o seu ocultamento. Se o belo é feio e o feio é belo, ou seja, os opostos se tocam no reino das palavras (e do real) em que poderemos nos basear em nosso caminho pela floresta da realidade? E é nesta armadilha que cai Macbeth.

No início da peça, ao retornar de uma batalha com seu amigo Banquo, ele é saudado pelas três irmãs bruxas como barão de Glamis, barão de Cawdor e, por fim como rei. Inesperadamente mesmo Banquo é saudado com as enigmáticas palavras “hail Banquo, lesser than Macbeth and greater, not so happy, yet much happier” signos de um futuro misterioso e promissor. Mas se as bruxas são realmente os guias do real, Macbeth tem neste momento a chance de evitar toda a tragédia, pois ali intui linguisticamente toda a rede de enganos que a previsão das bruxas trazia escondida, já que prontamente as identifica como “imperfect speackers”, as faladoras imperfeitas. Ele, no entanto, prefere ignorar sua intuição e aceita a previsão que elas fazem. Mesmo percebendo com palavras a armadilha das palavras que elas encarnam, resolve apostar na visão das bruxas e é arrastado para o seu fim. É ao personagem de Banquo que cabe a explicitação desta desconfiança que as palavras devem suscitar, o cuidado que devemos ter ao nos aproximarmos do discurso. Banquo diz: “But this is strange: and ofentimes to win us to our harm the instruments of darkness tell us truths, win us with honest trifles to betrays in deepest consequence”. Como Macbeth havia percebido, mas não aceito, Banquo vê que há um abismo escuro por trás das palavras, um significado que depende de quem lê e interpreta. Ao arriscarmos uma leitura errônea do real podemos estar dando ouvidos aos “instruments of  darkness” e o que era aparentemente belo assim revela a sua face feia e seu sentido horrível.

O erro fatal de Macbeth, que ignora sua intuição e a desconfiança de Banquo, é tomar as palavras pelo que elas aparentam ser, (uma certa literalidade) apesar de ele mesmo utilizá-las como um jogo para iludir e enganar. A retórica da peça é exatamente esta: onde está o significado real das coisas? O que são as coisas de modo que possamos interpretá-las, conhece-las, conduzí-las? Duncam, que já havia se iludido a respeito do Duque de Cawdor, diz: “ there’s no art to find the mind’s construction in the face”. O único caminho para descobrir a construção do espírito do homem seriam as palavras. Mas o que Shakespeare nos diz é que elas são também o melhor meio de ocultar a verdade que de toda alma esconde.

Shakespeare sabe e procura demonstrar que são as palavras que conduzem as ações humanas, (somente o famoso discurso de Marco Antônio no enterro de César na peça Júlio César seria suficiente para provar a alta consciência de Shakespeare sobre os poderes da retórica), mas as conduzem de uma tal maneira pela qual jamais possamos confiar inteiramente nelas: “to beguile the time look like the time”, tenha a aparência, look like, assemelhe-se, pois no jogo de poder do mundo, é necessário sempre parecer. A ideia muito shakespeariana do mundo como um palco tão belamente dita no Mercador de Veneza “I hold the world but as the world, a stage where every man must play a part and mine is a sad one” é, afinal, uma das mais recorrentes na poesia de Shakespeare. O mundo é um palco onde cada um tem o seu papel, nossas palavras são falas de uma peça da qual desconhecemos o enredo. Se Macbeth toma as palavras pela realidade, se aceita o texto das bruxas como o enredo é porque há algo de encantatório nas palavras, um poder persuasivo que nos levam a ações que nem sempre seriam as nossas. As palavras escondem e, ao mesmo tempo, conduzem o mundo. No grande teatro do mundo as falas ocultam e revelam o sentido e cabe ao poeta desmontar o sentido oculto da linguagem. A fala encantatória das bruxas conduz Macbeth, suas palavras são mágicas e sinuosas, o que querem na verdade dizer? As falas de Lady Macbeth também de alguma forma expressam um texto do crime. É por meio de sua retórica implacável e da inversão dos papéis de gênero (‘unsex me here’) que a ambição vazia de Macbeth é preenchida por um outro discurso mais forte, pronto para encejar uma ação concreta, provando que a palavra tem um poder emocional capaz de nos mover para aonde quer.

Em contrapartida a fala de Macbeth também busca enganar a todos sobre o seu intento obscuro. Seja com as bruxas, com Lady Macbeth, ou com Macbeth as palavras são um instrumento de engano, manipulação, ocultamento. Logo após mandar assassinar Banquo, Macbeth promove um banquete em sua homenagem e saúda-o em sua ausência, no mais belo discurso: “Here had we now our contry’s honour roofed/Were the graced person of our Banquo present”. Mas o ápice da rede de enganos é quando as bruxas fazem as previsões da invencibilidade de Macbeth prevendo que ele deve ser “bloody, bold and resolute; laugh to scorn the power of man for none of woman Born shall harm Macbeth” e “Macbeth shall never vanquished be until great Birnam wood to high Dusinane hall come against him”. Estas duas sentenças lidas por Macbeth como o sinal inquestionável de sua invulnerabilidade e como garantia de sua vitória era na verdade o vaticínio mais amargo de seu fim. No final, quando Macbeth está encurralado, as profecias se revelam trocadilhos literais e traiçoeiros: Macduff não “nasceu de mulher” no sentido natural, e o Bosque de Birnam se move escondendo cavaleiros camuflados. Tudo está perdido.

 Afinal, porque? Macbeth, general aguerrido do rei, nobre respeitado, não era especialmente ambicioso ou mau no início da peça (note-se, ele não é Iago, ele não é Edmundo) mas é, no entanto, arrastado para um objetivo muito acima de seus desejos e aparentes pretensões de poder. Após o primeiro contato com as palavras das bruxas, algo nele muda. As bruxas, com palavras apenas, usam-no como um joguete, alegremente.

O Niilismo da Linguagem

O que me surpreende sempre em Macbeth é a gratuidade do mal, o modo como sem nenhum motivo um homem cava o seu próprio tumulo e a sua perdição. Um homem não necessariamente mau, mas que perpetua o mal, não necessariamente cruel, mas capaz de todas as crueldades. Neste aspecto Macbeth é uma metáfora poderosa – se formos tentados a lê-lo como uma metáfora – de todos os tiranos que arrastados pelas circunstâncias instauram a barbárie no centro da civilidade. Daí a banalidade das razões, o jogo gratuito do mal com forças desconhecidas, o clima de corrupção geral da fala e das ações humanas. Mas o dom da linguagem é gratuito e o mistério que a linguagem carrega consigo com seu poder de convencimento e seu encanto está muito acima de nosso entendimento. Talvez esteja nas raízes emocionais da linguagem a força que conduz Macbeth ao seu delírio sanguinário, pois a peça trata do abandono da razão, da vitória do irracional sobre o mundo do equilíbrio e da bondade que de uma forma também se assenta na fala. Duncan é bom, bom soberano, pai e amigo, (Macbeth diz: “the gracious Duncan have I murdered”) ele é colhido pela irracionalidade de uma ambição vazia e este vazio das ações e dos personagens (vazio preenchido pelo discurso enganoso das bruxas, vazio preenchido pela potência retórica e emocional de Lady Macbeth) é o sentido maior da peça. O niilismo tão evidente no conjunto de todo o drama é o niilismo que a palavra pode engendrar quando não é vigiada pela razão e pelas normas de correção e equilíbrio da ética. A vida é um conto narrado por um idiota cheio de som e de fúria e que nada significa. Mas o significado final pode ser dado por nós, se bem orientados lermos corretamente. Pois sem orientação ética o texto do real é marcado pela ausência de sentido, um barulho sem significado e somente som e fúria que não pode ser interpretado. Podemos, caso abandonemos nossos princípios humanos, apostar nesta ou naquela interpretação, uma aposta no vazio, não importa, sempre perdemos; sempre estaremos sujeitos a abstrações, a entropia, ao caos e ao acaso. Como Macbeth terminaremos balbuciando palavras sem sentido em meio a um universo que não tem nenhum significado. E o resto é silencio.

O Castelo : A Enclausurada Consciência de K.

“os pesadelos da razão engendram monstros”

                                                                                                          Francisco Goya

A Experiência Sensorial do Impasse em Kafka

Eu queria pensar sobre Kafka. Mais especificamente sobre o romance O Castelo (Das Schloss) de 1926. Mas o que dizer da experiência de ler este romance, do contato com este texto? Há um Kafka metafísico (Deleuze, Guattari), há um Kafka teológico (Brod, Scholem), há o existencialista (Camus), há o da psicanálise em Baudouin, e outros, muitos outros. No entanto eu queria expressar a minha experiência de leitura, o que eu sentia na medida em que lia o livro. Porque em Kafka todas as interpretações são corretas, e a amplitude de sua imaginação sustenta, de uma certa maneira, todas estas leituras (e outras mais) de uma maneira convincente. Mas, o que eu lia? O que aquele texto me dizia? A experiência de ler O Castelo de Franz Kafka assemelha-se menos a uma interpretação de símbolos e mais à vivência de um pesadelo. O romance, eu sentia, não representava uma ideia; ele apresentava uma experiência. Sua força estava numa estrutura formal que replicava a sensação asfixiante do pesadelo: vemos o Castelo, mas cada passo em sua direção revela-se um desvio e cada esforço apenas aprofunda a impossibilidade de alcança-lo. No romance eu vivia a experimentação sensorial do impasse, a angustia e a aflição dos sonhos.

A Arquitetura da Clausura: Por que “Das Schloss?

Já na escolha do título um sentido se insinuava. Por que Das Schloos e não Die Burg? Die Burg é também castelo. Refere-se especificamente a uma fortaleza medieval, um castelo fortificado, construído para defesa. Evoca imagens de muralhas, torres, fossos – algo militar, histórico e, daí, muito tangível. Das Schloss tem três significados principais: Palácio ou Castelo-Residência, cadeado ou fechadura e fecho (em geral): Pode ser o fecho de uma porta, de uma janela, de um colar. A indeterminação do título, junto aos seus significados de interdição e clausura introduziam o campo semântico adequado aos estados oníricos. Na escolha de Das Schloss já a arquitetura era um fechamento. A imersão no romance é o espaço confinado dos atos no sono, a consciência se fecha em si mesma e ritualiza a sua clausura.

A Geografia Sonâmbula e o Labirinto do Espaço

Mas então o pesadelo começa com a geografia. K. avista o Castelo no cume, tangível e próximo, a alguns passos, logo à frente. No entanto, ao tentar aproximar-se, as ruas da aldeia encurvam-se, devolvendo-o ao ponto de partida. Sua progressão não avança, seus movimentos levam a um vazio, sente-se cansado, a neve o impede de andar. A impossibilidade não é barrada por muros, mas por uma lógica espacial pesada e distorcida, sonambúlica, que transforma o espaço num labirinto aberto. Mas não só o espaço branco e vazio da neve que parece engolir o personagem, e sim, principalmente, os espaços fechados, a estalagem atulhada de pessoas, a enevoada sala de Barnabás, a sala de escola dormitório, os corredores da estalagem. É na topografia do Landvermesser, (agrimensor) que primeiro se identifica o território geral da angústia do romance.

A Burocracia como Linguagem do Inconsciente

 A narrativa desdobra-se não como uma progressão, mas como variações sobre o tema do impedimento. A comunicação, suposta âncora da razão, é como um instrumento da falta de sentido. As cartas que K. recebe via Barnabás são “velhas, tiradas de uma pilha”, inúteis; o seu significado se esvai em generalidades ocas e burocráticas. Os telefonemas para o Castelo dissolvem-se num “zumbido incessante” de “vozes infantis”. A cada tentativa de agir racionalmente — procurar autoridades, buscar aliados, examinar sua contratação — K. é absorvido e anulado pela mesma lógica que rege um sonho: a do esforço infinito que não produz nenhum progresso. Como nos pesadelos, tudo é real e nada é real, tudo o que é concreto desafia a solidez geral da realidade do mundo e adquire os contornos do sonho, da paranoia e do pesadelo. No episódio do capítulo 9, o secretário de Klamm, Momo, está ali para concluir um inquérito sobre a situação de K. Já em seu nome está a farsa, a ilusão. O inquérito não será lido por Klamm (que nunca lê inquéritos) e este, como outros inquéritos, não será lido por ninguém.

Avançando na leitura esta sensação vai se confirmando: toda a ordenação causal das coisas está rompida, os atos e as respostas aos atos não fazem sentido. K conhece os dois ajudantes esperados, estes não são aqueles que ele já conhecia; a cronologia de sua chegada é absurda, ela dissolve o tempo (supostamente os recém-chegados são reconhecidos e tratados pelos outros personagens da aldeia como antigos conhecidos). K mal conhece Frida e imediatamente falam em casamento e apenas alguns minutos após se conhecerem fazem amor no chão imundo do saguão da hospedaria, sendo observados pelos dois silenciosos ajudantes. Nós leitores sentimos um desconforto, um sentimento de angústia e de apatia, a sensação de um real indeterminado, de um real à deriva do real reconhecível.

Nestes topos estão apresentadas as situações oníricas do espaço e do tempo. Confinamento, neve, brancura, névoa, corredores. O espaço constantemente se contrai e se expande. Para o tempo: o tempo no romance é circular, é regressivo e recusa a cronologia. Os acontecimentos que se sucedem não têm consequências, efeitos, desdobramentos. O presente é como nos sonhos, um estado absoluto. K nunca chega, está sempre entrando, se acomodando, sempre no início de sua permanência, perpetuamente recomeçando.

A Ambivalência do Feminino no Castelo

Na relação com Frida sentimos que a tensão sexual que percorre o romance constitui a versão corporal do mesmo pesadelo. K. vivencia a relação com uma mulher como uma das formas de alcançar o Castelo. Seu envolvimento com Frieda, amante do oficial Klamm, é a encarnação disso: ele a deseja como um atalho, um objeto que contém a aura do Castelo. Ela é, de certa forma, o ponto máximo de sua aproximação com Klamm, sua proximidade vicária. O resultado, no entanto, é o oposto. Em vez de elevação, o casamento afunda K. na asfixia da estalagem, consumindo-o com ciúmes e da rotina. O encontro com Frieda, que nasce num gesto abrupto e quase grotesco dentro da taverna, parece prometer uma fusão com o mundo do Castelo, mas logo se converte em mais um emaranhado de dependências e vigilâncias. O encontro é frustração e apatia, ele é um gesto imanente; ele repete o mesmo movimento de atração e exclusão que estrutura a relação de K com a busca do Castelo. O atalho revela-se um beco sem saída. Esta economia relacional perversa estende-se às irmãs Olga e Amalia, que demonstram que tanto a subserviência de uma quanto a rebeldia da outra, como num pesadelo, conduzem à mesma impotência.

Mas há também as figuras como a Dona da Estalagem e a Mulher do Prefeito que encarnam uma dominação diferente: a do cuidado autoritário e da experiência esmagadora. Elas não seduzem K.; como em um sonho elas o infantilizam. Através de monólogos intermináveis, fixam-no num lugar de ignorância eterna, num ponto servil, sendo as guardiãs de um arquivo inteiro de interdições. Juntas, as mulheres do romance formam um sistema de controle quase total: a possibilidade do desejo (Frieda, Olga) promete acesso e conduz à degradação, enquanto a possibilidade da lei (a Dona da Estalagem, A Mulher do Prefeito) impõe, com uma racionalidade perversa, a sentença do fracasso. São os dois limites do corredor do pesadelo. Aqui, o feminino surge não como objeto de desejo, mas como figura de poder doméstico e opaco, indiferente capaz de controlar, excluir e humilhar. O mundo do Castelo é também o mundo das mulheres que o protegem, representam e o fazem funcionar. Essa duplicidade — o feminino como erotismo estéril e como autoridade crua — reforça a ambivalência onírica central do romance e a ambivalência da mulher em toda a obra kafkiana. Toda aproximação se converte em novo obstáculo; todo contato gera uma nova forma de dor e afastamento.

Os Ajudantes: Funções Narrativas e o Espelhamento do Horror

No centro desta teia, os dois ajudantes, Artur e Jeremias, surgem como a mais pura encarnação da lógica do pesadelo. Eles não são personagens, mas funções narrativas vivas, entidades que, embora tenham a forma humana, não possuem a psicologia, a consistência ou a autonomia de um personagem tradicional. Eles não são; eles agem para cumprir uma função. E no caso de O Castelo, as funções são múltiplas e paradoxais.  Sua duplicação e intercambialidade violam a lógica, gerando uma névoa de irrealidade. Sua chegada antecipada e misteriosa introduz uma fissura temporal, sugerindo que o cenário foi montado antes de K. chegar. Sua vigilância é lúdica e amoral — testemunham o coito de K. com a curiosidade de crianças, violando a privacidade, sem culpa. Eles são os ajudantes que atrapalham, a companhia permanente que isola. E K. reproduz com os ajudantes os mesmos gestos de arbitrariedade e violência simbólica de que é vítima. Ele os trata como entidades indistintas e sem valor, troca seus nomes e, no ato supremo de os demitir, pratica uma paródia grotesca do poder que o oprime. K., que clama por reconhecimento, nega-o àqueles que estão abaixo dele. Se na lógica final do sonho não há um outro, todos dentro deste teatro de sombras cumprem a função de espelhamento. Este é um dos horrores que o romance desvenda: o pesadelo não é uma prisão externa, mas um sistema que está internalizado, amplificado, congruente. Na tentativa desesperada de chegar ao centro do Castelo, K se reproduz na lógica do labirinto, reproduz a estrutura perversa da totalidade do pesadelo. Infantis, amorais, risonhos, os ajudantes agem como fantasmagorias cômicas e grotescas de K. Assistem a seus atos mais íntimos — inclusive à cena sexual na taverna — sem pudor, como se participassem de um jogo sem regra. Encarnam o componente bizarro do sonho, a deformação risonha do medo e da angústia. Mas sua função narrativa é mais profunda: eles duplicam a relação de K com o poder. O modo como K os trata repete o modo como o Castelo o trata. A cadeia de submissão não tem origem, não tem centro, não tem fim, a totalidade é a submissão: o agrimensor, dominado pela burocracia, torna-se o dominador de seus ajudantes. A violência simbólica desce de instância em instância, reproduzindo-se infinitamente. No pesadelo ninguém é apenas vítima: tudo funciona como agente da mesma estrutura de tormentos.

Mas há na concepção dos ajudantes a escalada do humor grotesco de Kafka. Um humor variado que aparece em outras partes do romance. No capítulo 5, “Com o Prefeito”, pela primeira vez aparece a lógica do jogo burocrático que causou a confusão da contratação de K. Penso que há no texto todo um tom humorístico na impostação e racionalidade distanciada das explicações do Prefeito. O Prefeito fala com segurança, detalha os trâmites, cita relatórios, reconhece erros e se corrige com naturalidade, como se o emaranhado de contradições e equívocos que arruinou a contratação de K fosse apenas um mal-entendido técnico. O tom do discurso é de uma serenidade quase científica — mas essa racionalidade, em vez de esclarecer, produz o oposto da clareza. O humor nasce exatamente dessa inversão: quanto mais racional e “objetiva” é a explicação do Prefeito, mais se aprofunda o absurdo da situação. Percebemos que a linguagem da administração é o próprio veículo da confusão, e que o poder não opera pelo silêncio, mas pela proliferação das palavras. A lógica do jogo burocrático é que não há erro algum, porque todos os erros são administráveis e previstos. O Prefeito não mente: ele coordena o irreal. Do ponto de vista da experiência da leitura, a cena tem uma função central: ela desloca o absurdo do campo da ação para o campo profundo da linguagem. Estamos diante da mecânica discursiva que sustenta o pesadelo — um discurso tão articulado que destrói o sentido ao tentar construí-lo. Nos pesadelos a linguagem encarna apenas a lógica de seu próprio funcionamento, a mecânica do inconsciente fraturado onde a experiência verdadeira está ausente. Logo adiante (capítulo 9), a fala da Estalajadeira é o desvelamento metafísico da verborragia burocrática. Se o Prefeito explicou o mecanismo do erro, a dona da Estalagem radicaliza e expõe a sua filosofia delirante: a produção burocrática do Castelo é um fim em si mesmo, um ritual auto-referente e deliberadamente inútil.

Esta linguagem burocratizada, fim em si mesma, seca, repetitiva, banal, é o motor material do romance. A objetividade delirante dos diálogos concretiza na própria linguagem toda a impossibilidade de escapar da dinâmica centrípeta do pesadelo. Este é o pesadelo da razão, a razão enclausurada em um espaço sem referências ao que está fora de si, ao que a contradiga, entregue a sua clausura essencial de angústia e de medo, à representação repetida de seus terrores e de seus apavoramentos. Ela expressa o dom do narrador, objetivo, imparcial, alheio, frio. O narrador produz a documentação do sonho e também está perdido no pesadelo.

Neste universo que foge há a figura central, e só uma vez referida, do conde WestWest, dono do Castelo. O acesso (melhor dizendo, o não-acesso ) de K. é ao inalcançável Klamm. Ele é a mediação possível interditada, o objeto inatingível que substitui o núcleo do desejo no sonho. Curiosamente, no romance, este centro buscado nem ao menos é o centro, o centro real seria o poder do Conde, tão inefável que uma vez referido nada mais é dito. Ou seja, no centro do pesadelo o verdadeiramente terrível não é sequer vislumbrado, ele está encarnado em um objeto central, buscado e nunca alcançado por sua vez, e que, no entanto, nem ao menos é o poder verdadeiro, mas um deslocamento. Há aqui uma teleologia sem o Telos. A figura axial do conjunto é a Aporia.

O Núcleo Racional: A História de Amália

Em todo este aspecto fantasmático, no entanto, há um corte racional, uma sequência narrativa transparente cuja coerência e organicidade atraem e recusam os outros campos do romance. Este são os capítulos 15,16,17 e 18 na tradução de Modesto Carone. A casa de Amália, a continuação (16), O Segredo de Amália e A Punição de Amália. Aqui tudo muda, a narrativa é linear, tem início, meio, fim. Articula causa e consequência, organiza o tempo com clareza, tem personagens que mudam ao longo do relato, apresenta uma tragédia familiar completa e autônoma. Ao contrário das outras situações até aqui, a causalidade é clara, a motivação é compreensível, as consequências são delimitadas e o acontecimento obedece a cronologia e a forma. A história de Amália parece ser o único lugar em que o universo do Castelo faz sentido. Há é claro uma ordem injusta que foi perpetrada, mas ela tem um desenvolvimento lógico. Na chave interpretativa que intuo nesta leitura, este contraponto organizado dentro do fragmentário caótico do conjunto funciona como uma explicitação racional dos elementos irracionais vividos no resto do romance em sua forma desorganizada. A saber: o mecanismo da culpa, o caráter difuso da opressão, a base sexual do conflito, a humilhação introjetada, a ambiguidade das estratégias para enfrentar o conflito. Há aqui uma suspensão que explicita a totalidade da dominação do poder do Castelo que K vive e nos transmite como um pesadelo, e neste conto dentro do romance se organiza o núcleo trágico de uma família.

O Despertar Inacabado: O Fim em Meio à Frase

A indeterminação do final (o romance notoriamente não termina e se encerra no meio de uma frase) contribui para a sensação do vazio e da falta de respostas. Tudo na leitura foi a desestabilização e a procura, a tentativa de formular uma pergunta, de entrever uma resposta. Tudo nele foi inacabamento e suspensão, paralisia, opacidade, incomunicação. A angústia de um movimento de pantominas e momices que nada resolve. O romance termina em meio a uma frase como se despertássemos de um pesadelo. A experiência da leitura se completou, na frase interrompida despertamos. Não compreendemos bem o que se passou, o conjunto de lembranças não fazem sentido. Tentamos compreender o romance e é como o recordar de um sonho onde estivemos há poucos minutos em meio à movimentos sucessivos e desconexos; e nos perguntamos: o que significa?

Por isso, ler O Castelo é entrar numa experiência estética específica. Toda tentativa de interpretação filosófica, teológica ou psicanalítica corre o risco de afastar-se daquilo que o texto realiza em si mesmo: uma experiência da impotência, uma forma que faz sentir o impasse em vez de descrevê-lo. O romance, ao dissolver o sentido, leva o leitor para a pura percepção — a leitura como ato estético e não como decifração.

A estrutura de O Castelo é a estrutura de um sonho que narra a si mesmo. O desejo de alcançar o Castelo é o desejo de alcançar o sentido, o domínio, a completude — mas a forma narrativa garante que esse desejo jamais se cumpra. A ambivalência do feminino, a duplicação dos ajudantes, a repetição da violência, a inacessibilidade de Klann — tudo converge para um mesmo núcleo formal: a experiência do inatingível, a incompreensão fundamental. O texto não explica o sonho; ele é o sonho.


É importante dizer que esta não é uma interpretação de Kafka, da obra de Kafka. Esta é a leitura específica e particular deste romance: O Castelo. Não pretende ser uma chave para a interpretação da literatura de Kafka. Suspeito que relendo, por exemplo A Metamorfose ou O Processo, encontrarei nestas obras outras formulações particulares e específicas. Esta é, reafirmo, apenas uma leitura e interpretação de O Castelo.

Para a literatura de Kafka todas as explicações (filosóficas, psicanalíticas, teosóficas, metafísicas) continuarão a permanecer válidas. E O Castelo também (sendo a minha uma leitura entre outras) sempre será uma máquina de produção de interpretações e ideias, instrumento de compreensão das várias camadas do real e seus mistérios. Mas em seu núcleo, na experiência inocente de sua leitura, com o corpo aberto no embate com o texto, o leitor sempre encontrará a experiência da desorientação que subjaz aos sonhos e a expressão do que, antes inexprimível, agora foi, por um momento, experenciado.

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