T.W.S.  Óleo sobre tela do autor em homenagem  e dialogo crítico com a pintura de Ivan Serpa

A recordação é um dos modos do envelhecimento e também da aprendizagem. Sócrates dizia que uma vida não examinada não era digna de ser vivida. Ao recordarmos, examinamos um percurso, seus acertos, seus erros; sublinhamos a dignidade do vivido e vamos em frente. Um leitor vive muitas vidas: a sua natural vida civil com seus amores e seus filhos, seu trabalho, suas conquistas e perdas, as suas lutas. Mas também vive uma vida espectral de pensamentos, de convivência com os textos e meditações ampliadas do espaço de sua existência. Para um leitor o pensado foi também uma forma de existir, o ponderado foi vivido, o imaginado foi uma experiência real. Revisitar velhos textos é defrontar-se com o que daquela experiência ficou registrado, o que se incorporou aos nossos hábitos, o que contribuiu para sermos o que somos.

E assim tenho relido velhos textos da juventude. Neste, que escrevi aos vinte e sete anos, algo do diagnóstico central do ensaio parece não ter envelhecido e talvez até tenha se confirmado de uma maneira brutal. O que era a redução do julgamento crítico, a supremacia da técnica, o empobrecimento da palavra, a substituição da crítica por consumo, gosto e identidade, a recusa da responsabilidade do juízo, se transformou em hiperexpressão sem reflexão, multiplicação de “opiniões” sem juízo, linguagem abundante, mas vazia de pensamento, crítica confundida com posicionamento identitário ou moralismo automático.

Isso porque já estava ali, inscrito naquele tempo, todas as implicações futuras de algo que neste ensaio foi apenas presumido. Lê-lo hoje encena não apenas a genealogia de minha sensibilidade, mas também possivelmente uma quase arqueologia de nossa época.

O Declínio da Faculdade de Julgar

Há algo de profundamente problemático em certas formas dominantes de uma cultura que não aceita ser criticada e cuja percepção do espírito seja toldada pela auto-suficiência enganadora do eu. O erro talvez esteja — ou ao menos seja assim que aqui se ensaia pensar — na vitória da ideologia sobre o pensamento e no triunfo recorrente da auto-satisfação dionisíaca de um modus vivendi que frequentemente se fixa na adolescência cultural, o primado do prazer sobre o dever. Uma consequência da supremacia da técnica sobre a meditação, da eficácia sobre a imaginação.

A ideologia unidirecional das mercadorias coloca o horizonte em si mesma e ao propor a ausência do pensamento confronta-se com um espaço cada vez mais repleto de coisas que admitem serem fluidas, mas jamais pensadas. Esta opacidade do mundo — que aqui descrevo como característica de uma esfera quase mítica do ser — encontra-se à vontade em certos modos da sociedade de massas, onde o genuíno impulso da religião se diluiu e se ocultou também no culto das mercadorias e no fetichismo das coisas, onde a imaginação, que sempre foi a faculdade da qual o homem se servia para pôr-se no lugar do outro, cedeu ao narcisismo cego da contemporaneidade.

Kant e o Juízo

Na Crítica do Juízo Kant propôs que a faculdade de julgar era, sobretudo, uma faculdade política cuja atuação se dava no espaço social, agônico, entre os homens. Com o encolhimento das esferas verdadeiramente políticas de relacionamento sobreveio o decréscimo das faculdades críticas. Simbolicamente — e com toda a violência que os símbolos carregam — poderíamos dizer que um voto de desconfiança na razão começa a se formular em Pascal e ganha sua forma histórica no romantismo de Rousseau (embora ambos também participem, paradoxalmente, da crítica às simplificações da própria razão): com esses dois uma suspeita foi lançada e a irreflexão ganhou foros de alta legislatura nas questões humanas, e a ideologia então se sobrepôs ao pensamento.

Se por ideologia entendemos preconceito, suposições prévias não examinadas, podemos compreender porque para Kant a faculdade de julgar é, por excelência a mais antipreconceituosa, pois propõe a tomada do ponto de vista não só do outro como de todos os outros, para, na avaliação, conseguir aquela mentalidade alargada que pensa com imparcialidade. É a desconsideração das particularidades subjetivas privadas o que confere o verdadeiro esclarecimento. E esta mentalidade que pressupõe, após a avaliação, uma escolha, é a mentalidade eminente da crítica. Como para Kant ela não estabelece uma condição científica e sim política (no sentido de negociada) só se consegue comunica-la ao outro através da persuasão, do diálogo, da palavra. O respeito à palavra está então no centro do discernimento crítico.

Assim falando, compreendemos porque no âmbito da comunicação de massas a função e o lugar da crítica encolheu. Primeiro: a estandardização do comportamento fez desaparecer o outro – se o outro recebe a mesma informação que eu, da mesma forma, ao mesmo tempo, o outro é como eu mesmo e a alteridade não existe. Dois: se a produção da arte ou do pensamento se oferece imediatamente ao consumo, é inútil o ponto de vista diferente, já que este está dado desde o início de sua fruição. Três: no que se poderia chamar, em sentido metafórico e deliberadamente hiperbólico, de um estágio afásico e ágrafo de nossa sociedade, o instrumento principal da crítica, a palavra, perdeu sua principal função. Daí a desconfiança do homem médio as pretensões da crítica que necessita de um mundo de palavras para se exprimir. Imerso no silêncio de um todo que se dá sem reflexão, o meditar dialógico do pensamento crítico parece com uma traição ao que deveria se dar espontaneamente, sem mediações ou complicações. Esta ilusão do espontâneo onde ele não há é o principal argumento do pensamento acrítico, do egoísmo avassalador da incompreensão da modernidade. Uma recusa de toda tradição do pensamento que se firmou sobre as bases da reflexão e do diálogo e, pior, uma renúncia ao julgamento e a responsabilidade da escolha, o que é por fim uma fraqueza moral. Eximindo-nos de julgar e compreender abdicamos das consequências políticas da reflexão, não agimos de acordo com as nossas responsabilidades, e como crianças, somos tentados a delegar nosso julgamento aos outros.

O Papel do Crítico: Entre a Persuasão da Palavra e a Recusa da Violência

Para os gregos, Kritikós, é aquele que julga, avalia, decide. Mas não há espontaneidade neste mundo de julgamentos, toda decisão tem que ser sustentada pela persuasão da palavra que se contrapõe ontologicamente à coerção da força. Esta distinção, como aqui compreendida, opõe fundamentalmente o universo da crítica ao universo da violência. Em meio ao caos ruidoso que se sobrepõe à palavra, a inteligência crítica propõe a convivência, o diálogo, recusa socraticamente a violência em favor da conversação, emerge do mundo afásico do instintivo para um ensaio de compreensão dialogada. Não por acaso é o ensaio o seu instrumento mais importante e usual, pois ensaiar é tentar, tatear, buscar, experimentar. A verdadeira crítica reconhece seu saber como aproximativo e provisório, contingente e incerto. Não a verdade, mas a procura da verdade.

Doxa vs. Episteme: A Procura da Verdade no Terreno da Opinião

Usualmente a maior recusa que se faz ao pensamento crítico é que ele é uma doxa e que não funda uma episteme, o que de certa forma é verdade.  Mas, é no terreno da doxa (opinião) que se alicerça o pensamento filosófico na sua precariedade. A episteme enquanto identificada à ciência é uma técnica que nega o seu caráter provisório e se quer absoluta verdade, um autoengano de apropriação do mundo, que mesmo o modificando recusa-se a compreende-lo em sua complexidade. A doxa do pensamento crítico não: julga, avalia, mas reconhece o parcial de seu julgamento e de sua avaliação. Na sua renúncia ao absoluto da verdade é que se abre a possibilidade do verdadeiro.

Outra censura muito usual é a que o crítico é um parasita da arte que critica, alguém que dado seu fracasso em produzir arte apoia-se na obra de alguém. Mas a crítica quando verdadeira não procura disputar a arte que estuda. É, em si, um outro tipo de discurso, a tradução para a linguagem analítica dos labirintos imponderados da obra de arte. Não compete com o artista, pois o crítico busca um outro tipo de compreensão do mundo, eminentemente analítico e racional (mas também emocional). A meditação é seu instrumento e a clareza seu objetivo, tornar inteligível um determinado aspecto da arte, mostrar ao interlocutor uma certa apreensão luminosa do real é a sua tarefa. Ajuda-nos a ver, educa-nos quanto à diferença. Por este motivo o bom crítico jamais está em competição com o artista, mas o julga no sentido da transparência.

Quando um certo tipo de pensamento recusa o olhar crítico, passa para o território obscuro das coisas não ditas e para a reclusão do silêncio incompreensivo. O espírito humano abdica de seu mais alto dom que é a inteligência, foge das tarefas mais altas da educação. Mas é preciso ter em mente que ao ensinar a ler o bom crítico ensina primeiro a si mesmo. Ou seja, a atividade crítica quando sincera e adequada é um aprendizado de leitura primeiramente para o crítico e logo depois para o leitor. É um exercício de auto aperfeiçoamento espiritual constante. O bom crítico não se impõe, convida-nos a ler com ele. Em geral é bom que não concordemos com ele, a discordância crítica aguça a nossa própria capacidade cognitiva e torna verdadeiramente político o diálogo da crítica com a sociedade.

Isto porque a experiência fundamental da percepção da arte é frequentemente individual. À frente de um quadro, um poema ou a uma música experimentamos sensações particulares que só se tornam partilhadas através do diálogo e da discussão. Mover nosso contato com a arte para o âmbito da confrontação política – no mais alto sentido da palavra – é o motivo essencial da crítica. Deste modo a percepção sem voz que se dá na relação entre o homem e a arte reparte-se em meditação germinadora e a crítica torna-se compreensão educativa do mundo. Quando renunciamos a mediação da crítica empobrecemos o espaço da cultura em favor de um espontaneismo redutor cuja face se volta para a estupidez e para fases pré-políticas da existência, onde o discurso da tradição se torna mudo. Em outras palavras, é um sinal de maturidade social a permanência e o trafego do pensamento crítico. De que outro modo poderia a imaginação ser corretamente julgada e avaliada, a sensibilidade humana e seu desenvolvimento ser perfeitamente percebidos?  Como ainda compreenderíamos a pertinência da leitura de Dante para o mundo moderno, a experiência da música de Mozart e a verdadeira importância de Shakespeare? É claro que a crítica não substitui a relação direta com a arte. Para a apreciação exata dos Ensaios de Montaigne nada como lê-los. Para a emoção da pintura de Cézanne o melhor é vê-la. Para a experiência maior da música de Bach, devemos ouvi-la. Mas depois deste contato a leitura da boa crítica é um diálogo esclarecedor que nos ajuda a avaliar a nossa percepção, esclarece pontos obscuros, que confirma (ou nega) nossa apreciação da obra de arte. O valor legislativo do pensamento crítico desde o passado é uma tentativa pedagógica de clarificação das coisas, a afirmação do valor do pensamento acima das ideologias. E sob este ponto de vista é uma discussão filosófica, pois no primado da ideologia há uma interrupção da abertura para o ser e, assim sendo, não mais o pensamento propriamente humano ilumina o mundo; ficamos à disposição do caos da apropriação, mas nada nos é próprio, e passamos a fazer o papel de coisas entre coisas, onde a própria arte nos petrifica, aliena e medusa.

A Crítica como Pedagogia da Liberdade e Resistência ao Fascismo

A recusa do julgamento crítico sugere firmemente a falência do discurso esclarecedor da inteligência. Serve principalmente as forças do obscurantismo, da violência e do fascismo que negam ao homem seu papel de sujeito da história. Quando um crítico como Harold Bloom — com quem humildemente dialoguei como leitor — sugere a inocuidade da potência transformadora da leitura, leio nessa posição não uma rendição simples, mas um limite deliberado, que ainda assim me parece problemático, que gostaria de crer na inutilidade política da literatura, no caráter inócuo da obra de arte. Sua posição crítica por mais que defensável, faz o jogo daqueles que gostariam de confinar o fato literário ao gueto do gosto excêntrico. Contra esta posição prefiro pensar com o mestre do ensaísmo por excelência, o cavalheiro Michael de Montaigne que fez do exercício da leitura uma reflexão do eu que se abre ao mundo através dos textos lidos, e que guardava em si a inaudita fé em um mundo melhorado à luz da leitura. O abandono desta prerrogativa social da arte retira do homem o seu mais poderoso instrumento para a transformação do mundo. Em uma sociedade que recusa o julgamento crítico e onde o crítico se confina ao aperfeiçoamento do eu silencioso e de sua voz, a imaginação perde seu direito pedagógico. A recusa da crítica em assumir o seu papel moral deve-se a má compreensão do substantivo moral. Moral significa aquilo que assinala ao homem o lugar que ele ocupa na ordem das coisas, o ponto do qual ele parte para a compreensão do universo. Que todos os centros tenham ruído após o ataque do relativismo e a diluição da cultura frente à uma ordem semiletrada, não é motivo para a desistência dos valores mais altos da experiência humana. A tarefa da inteligência crítica é tentar reconstruir, por sobre os escombros do pensamento, a possibilidade do verdadeiramente humano; dar de novo aos textos seu valor pedagógico de orientação da sociedade, modificar o mundo e tentar melhorar o homem.

Rio de Janeiro, novembro 1988

A Permanência e a Mudança

A releitura deste texto deixa claro que ele não era então uma doutrina, como não o é agora. Tanto à época quanto hoje, ele reafirma minha preocupação com a recusa da avaliação séria e do juízo — e com a recusa do pensamento como instrumento de autonomia do ser diante das variadas formas de alienação. Relê-lo diz menos da antiguidade do texto e muito mais da persistência do problema que ainda enfrentamos. Como no gesto socrático, ao reavaliar as nuances de uma vida espiritualmente vivida, permanece a busca pela dignidade do pensamento e da razão; e, dessa maneira, o envelhecimento e a lembrança continuam sendo uma das formas — ainda possíveis — de aprendizagem e resistência.