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Canetti

O enigmático fenômeno da leitura engendra formas de relacionamentos que muitas vezes são difíceis de explicar. A nossa relação especial com certos personagens, um modo como um verso particular nos acompanha e, talvez, mais inesperado, esse estranho amor que sentimos por certos autores. Um amor tecido no emaranhado do afeto das palavras, mediado por livros, separado e aproximado pela dificuldade por vezes de uma língua ou de um vocabulário.  Uma relação tanto mais ininteligível porque quase certamente, em um contato pessoal, homem a homem, dificilmente nos entenderíamos.  Porém, no território da leitura como essas se dão, este não é o caso. Aqui quase tudo é compreensão e afeto, troca, comunicação, correspondência. Com os livros, sentamo-nos com nossos autores amados, dialogamos com eles e nos entendemos. Mas nem sempre.

Elias Canetti foi sempre para mim, desde a juventude, um interlocutor essencial. Auto-de-fé, o primeiro livro que li dele, foi o início de uma admiração tanto mais fácil dada a sua imaginação, seus dons de narrador e sua clareza. Mais tarde, a sua trilogia autobiográfica, A língua absolvida, Uma luz em meu ouvido e O jogo dos olhos, sedimentaram para sempre minha admiração pela sua voz e sua sensibilidade, sua inteligência e seu domínio da prosa literária. Quando li o livro de ensaios A Consciência das Palavras, de uma certa forma eu sabia que tinha encontrado um mestre.

Mas mesmo de um mestre é possível discordar. Talvez nem mesmo discordar, mas nuançar algo que nele vemos como radical e excessivo e que confronta por vezes as nossas próprias crenças.

A Morte como Insulto e Humilhação

Assim é que há em Canetti, muito bem expresso em Massa e Poder, mas não só ali, uma visão da morte que eu percebia desmedida e, talvez, fundamentalmente, errada. Para ele, a morte não é um evento natural, mas a maior humilhação, a capitulação final, a rendição inaceitável da consciência ao nada. É o poder absoluto e anônimo que reduz o indivíduo singular a zero. E ele mesmo o diz “O fato de que alguém possa simplesmente morrer é a coisa mais incompreensível, mais inaceitável que existe… A morte é o escândalo.” Em Massa e Poder (que é, acredita-se, a sua obra principal) essa repulsa radical à morte é o motor da obra. A busca por formas de sobrevivência (na linguagem, na fama, no poder, na massa que se sente imortal por ser massa) é uma rebelião contra esse insulto. A transformação (verwandlung), um de seus conceitos, será, em última análise, uma fuga da fixidez mortal. E nesse gesto de Canetti há algo que o transforma, de uma certa forma, no advogado do divino que há no homem; a parte que se recusa terminantemente a aceitar a condição de criatura.

É o humanismo vitalista de Canetti onde a morte é o inimigo principal; onde ela evidencia a profunda fratura do mundo, onde a morte passa de um dado natural para o escândalo metafísico da injustiça de tudo.

A Nêmesis da Consciência: O Perigo da Imortalidade

Isso para mim era tocante. Que um processo universal e totalizante, a finitude que rege os homens e os animais, os indivíduos e as nações, o sistema solar e as estrelas, pudesse de tal forma ser confrontado a ponto de se tornar o centro existencial de uma pulsão de pensamento e de um ódio. E assim, mais que o escândalo da morte, este era para mim o verdadeiro escândalo.

Porque ali, eu imaginava, talvez escapasse a Canetti as terríveis implicações de seu anseio. Na desmesurada força de seu intelecto, nesse seu enorme conhecimento que se recusa a morrer, mais que uma libertação, eu via a Nêmesis da consciência, pois uma consciência que se recusa a morrer cedo ou tarde encontrará a petrificação e a loucura. E isso já tinha aparecido na literatura.

No conto Os Imortais, Borges conta que o narrador (o romano Marco Flamínio Rufo) durante sua estadia entre os imortais (os trogloditas mudos que vivem na lama), tenta ensinar um deles a falar. Ele o batiza de Argos, em homenagem ao cão fiel de Ulisses na Odisseia. O personagem é descrito como um ser decrépito, coberto de poeira, que mal parece humano e que ignora as tentativas de comunicação. Quando começa a chover no deserto, Argos começa a chorar e, finalmente, fala. O narrador pergunta o que Argos sabe da Odisseia. O troglodita responde com dificuldade: “Muito pouco. Menos que o mais pobre dos homens. Já faz mil e cem anos que a inventei.” Para Borges a condição da eternidade é um retorno ao animalesco.

Também Machado de Assis publicou um conto chamado exatamente “O Imortal” em 1882. Neste, Rui de Leão (o pai do personagem narrador) recebe de um pajé moribundo um elixir da longa vida. Ele bebe e, de fato, para de envelhecer. Ao contrário do tom metafísico de Borges, Machado foca no tédio social e humano. Rui de Leão atravessa os séculos mudando de país, de profissão e de amores, mas acaba sucumbindo ao “enjoo” da existência. Ele percebe que a vida eterna é uma repetição monótona de erros humanos. Em Machado a eternidade é decepção e tédio.

Mesmo na leitura da Genesis talvez possamos perceber que ao expulsar Adão e Eva do Paraíso (impedindo assim que comessem o fruto da árvore da vida eterna após já terem provado da árvore do conhecimento) a piedade de Deus estaria protegendo a fragilidade do homem do desejo que em Canetti já aparece como uma soberba (luciferina?) do pensamento. 

Ainda na literatura a representação do Conde Drácula como um vampiro que para não morrer tem de se alimentar perpetuamente de sangue explicita a monstruosidade de uma eternidade que encarna uma forma de suplício.

E, para mim uma das mais impactantes quando li, a epígrafe de The Waste Land de 1922. A citação é extraída do Satíricon, de Petrônio e diz o seguinte: “Pois eu mesmo vi com meus próprios olhos a Sibila de Cumas suspensa em uma ampola, e quando os meninos lhe perguntavam: ‘Sibila, o que queres?’; ela respondia: ‘Quero morrer”. A história da Sibila de Cumas é o exemplo clássico do desejo que vira maldição. E é curioso notar que, tanto em Borges quanto em Eliot e Machado, a conclusão é a mesma: a mortalidade é o que define a nossa humanidade. Retirar o fim da vida é retirar a sua forma e o seu sentido.

O Poder e o Freio da Finitude

E isso eu pensava dialogando com Canetti. Para mim o que escapava ao seu direito legítimo de oposição a morte é que a morte não é um insulto, mas a contrapartida estruturante da consciência que nos foi dada. É o que impede de nos perdermos na infinitude de nosso próprio saber. E que se ele via a linguagem e a escrita como armas contra a morte (sobreviver nas palavras), eu acredito que é precisamente porque morremos que a linguagem ganha sua urgência, densidade e a capacidade de gerar futuro. Pois, se fôssemos imortais, por que escrever? Por que falar? Tudo poderia ser dito amanhã, (“tomorrow and tomorrow and tomorrow”) ou daqui a um século, ou nunca. A finitude gesta a metáfora e prescreve a necessidade da narrativa.

Para Canetti, cuja apavorante concepção do Poder foi pensada como uma pulsão que se alimenta da morte (e realmente maravilhosamente explicada em suas metáforas das grandes estruturas de violência da história), escapou que sem a morte a totalidade de todo poder se exerceria sem limite algum, que a morte não é apenas instrumento do poder — ela é também o freio contra o poder total mesmo do conhecimento.

Este anseio fundamentalmente ingênuo em seu radicalismo (como hoje já desconfiamos da entropia do próprio universo), se encarna de alguma forma, de uma maneira imperfeita, na atualidade das ilusões da técnica e da ciência. A obsessão contemporânea com o prolongamento da vida, o upload da mente, da superinteligência soberana, da vitória virtual sobre a morte, reencena o que em Canetti era visceral e metafísico e agora é apenas melancólico e vulgar.

Pois na consciência revoltada e trágica da paixão de Canetti estava inscrito um ato (para mim insano) prometeico. A confrontação de Canetti com a injustiça da morte era a radicalização de um humanismo trágico que remonta a própria origem do pensamento e da vida.

Ao contrário, agora só há, neste anseio esvaziado, o hedonismo sem sentido de uma consciência que recusa a reflexão, que almeja a eternidade vazia de um conformismo que nivela tudo.

Minha discordância de Canetti, assim como, creio, a sua filosofia, nasce de um terreno afetivo, de uma profundidade comum. E se o terreno afetivo de Canetti nasce talvez da violência das perdas pessoais que marcaram sua vida, a minha nasce de um acompanhamento lírico desde a juventude: o poema A Morte Absoluta, de Manoel Bandeira, que diz no final:

Quero a morte absoluta, sem resto de nada.

Onde a luz se apaga e a voz se cala.

Onde o tempo se esgota e a alma se aniquila.

Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres.

Borges e a Preeminência do Leitor

Lento en mi sombra, la penumbra hueca

exploro con el báculo indeciso,

yo, que me figuraba el Paraíso

bajo la especie de una biblioteca.

Em Borges, a literatura assumiu, no momento de seu crepúsculo social, o aspecto da totalidade. Quando já se prenunciava o encerramento do período de ascendência do espírito letrado na esfera política e social, tanto quanto no recesso particular da existência cotidiana, apareceu a prosa automeditativa de Borges para assinalar a existência heroica do leitor e a percepção de que todo o real não passa de fabulação, ficção, história. Já se disse que na obra de Borges o ponto central se dá na busca do lugar que seja todos os lugares, do homem que seja todos os homens, do tempo que contenha em si todos os tempos possíveis. Mas eu imagino que, além de tudo isso, o que Borges buscava era a absolutização do mundo ficcional que incorporasse toda a realidade, a encarnação final da afirmativa mallarmaica de que tudo existe para se acabar em um livro – e, sendo assim, para a fruição de um leitor. Para ele, é o privilégio do leitor o que define a necessidade do mundo, e é a intermediação do livro o que faz esse mundo suportável.

A Escrita como Reescritura Interminável

Em Borges, ler é uma maneira de escrever, e na circularidade textual de todo o universo da leitura, escrever é um ato de reescritura interminável, onde os textos se indeterminam e se repetem. Para poucos autores a palavra ficcional teve o peso da autoridade metafísica que teve para Borges, e a sua alta percepção e testemunho da centralidade do leitor é a homenagem que toda a literatura que se encerra faz aos seus admiradores.

Afinal, a obra de Borges cristalizou-se no mesmo instante em que o domínio ideológico da cultura letrada, um certo mundo formado pela sensibilidade literária, já estava sendo substituído pela eficácia sem fim dos meios audiovisuais de transmissão da cultura. Após a Segunda Guerra, que é quando a sua obra se consolida, já era evidente o deslocamento da centralidade da literatura de imaginação para a periferia da influência social e política.

A Elegia de um Mundo que se Encerra

Nesse aspecto, sua obra é uma elegia, a crepuscular despedida melancólica de um mundo que se encerra, o canto de cigarra de uma sensibilidade que já se sabe mortal. Daí que é dele a imagem especular, e agora absolutamente estranha, anacrônica e desgastada, de que o Paraíso pudesse aparecer na forma de uma biblioteca. Essa imagem de uma religiosidade laica e mundana, que reinventa o lugar e o homenageia a um só tempo – à face de Beatriz na poesia de Dante –, desapareceu do horizonte da sensibilidade moderna e migrou para outros anseios.

Pois ainda nele, só um leitor absoluto almejaria um Paraíso feito de livros. Só um Paraíso repleto de volumes repousaria a fé hermenêutica de um tal peregrino. As almas abertas umas para as outras, como os volumes do sermão de Donne (Meditation XVII), em Borges são verdadeiramente livros.

Decorre daí a paixão que sua obra, monomaníaca nesse aspecto, nos sugere. Nós, leitores, nos sentimos lisonjeados por ele e por sua dedicação, e de dentro de nossa própria paixão, profundamente o compreendemos e amamos.

O Vate Cego e a Memória Universal

E compreendemos quando ele sugere que há uma ligação misteriosa na analogia circular do fato de a literatura ocidental começar com o poeta cego Homero e nele, igualmente cego, encontrar, nesse ponto da história, o seu mais automeditativo vate. Essa convergência textual, heraclítica em seu imperfeito retorno, trai a ironia que Borges sempre buscou no hipertexto da memória universal – e que nele amargamente se cumpriu. Sua cegueira homérica conferiu uma estranha legitimidade à sua poesia, pois esta previu a repetição inexata do drama humano e soube que, em algum momento, Homero havia sido todos os homens; e agora, era Borges. A ficção dos imortais se dava nas ruínas circulares da história, e Borges agora era todos os homens, com uma notável exceção:

“yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca aquel en cuyo amor desfallecía Mathilde Urbach”.

Este formidável poema curto – Le Regret d’Héraclite –, tão ambiguamente obscuro e claro, une exemplarmente a multiplicidade borgiana e sua solidão sem esperança, que provavelmente só se resolveria em um universo impessoal feito de textos. E é a mesma estranha esperança que ele leu, em um ensaio, da resolução do encontro do amor de Dante por Beatriz, mas agora no ricorso da história. Na circularidade agora presumida desta, diferente da escala ascendente da mitologia católica de Dante que direciona o encontro, talvez Borges pensasse poder ser, em algum momento indeterminado neste círculo, aquele homem em cujos braços Mathilde Urbach poderia desfalecer. E sua poética possibilitaria, neste instante, a reescritura de uma vida que se consumou na História.

O Aleph de Borges nos Ensaios Dantescos

Foi então, ao ler os Nove Ensaios Dantescos, que a chave me apareceu. Naquele estudo, ele afirma que Dante, após o profundo impacto da morte de Beatriz, teria escrito toda a complexa arquitetura da Commedia somente para ter uma chance de reencontro com ela.

Este ato ensaístico de Borges era coerente com todo o seu pensamento. Com os privilégios de leitor, como um elusivo Menard, ele não reescrevia a Commedia, mas reescrevia todo o seu sentido metafísico, traduzindo-o em uma chave humílima de perda pessoal, uma concepção secular e humana. No fluxo labiríntico da ascensão de Dante do Inferno ao Paraíso, na sua complexa teologia, Borges viu o que seria o Aleph da obra, o ponto de convergência total de toda aquela catedral, o ponto intenso e transparente da leitura. O Aleph ali é o remorso de Dante.

Como leitor de Dante, pensei: uma curiosa interpretação, sem dúvida possível, criativa. Mas, e se ela falasse mais de Borges que de Dante?

A Reencenação da Leitura

Pois se ele leu a Commedia como um sublime artifício para justificar um reencontro, então talvez a própria obra de Borges possa ser lida como a encenação dantesca de um intelecto descrente. Com o Inferno da paralisante memória infinita de Funes; o Purgatório da decrepitude dos Imortais; o Paraíso da visão fugaz do Aleph. Mas, ainda mais, em um nível íntimo e trágico, a experiência amorosa singular e irredutível de não ter possuído Mathilde Urbach, aquela em cujo amor se poderia desfalecer, algo que sua vida lhe negou.

Pois se a obra de Borges é esta expansão, esta escansão de todas as possibilidades de leitura, o gesto de leitor privilegiado com que ele analisou Dante também nos serviria para analisarmos Borges.

E assim fazendo, algo da circularidade das ruínas de leituras se explicitaria, não como uma reescritura do texto, mas como a reencenação de uma leitura. E nessa recorrência hermenêutica, como Borges, teríamos sido todos os homens e, por um momento, poderíamos também ser Borges e participar, ao menos uma vez, de sua maravilhosa preeminência de leitor.

Homens que Leem Livros: Jorge e Miguel, do Escrutínio da Biblioteca à Biblioteca de Babel.

É muito lida, discutida e admirada a famosa cena do capítulo VI do Quixote onde o cura e o barbeiro destroem, com a ama e a sobrinha, a biblioteca do fidalgo Alonso Quijana. O título inteiro do capítulo é “Del donoso y grande escrutínio que el cura y el barbeiro hicieron en la libreria de nuestro ingenioso hidalgo’. E de fato é uma das cenas inaugurais e determinantes do romance, onde ficamos conhecendo um pouco os parâmetros que conformam o personagem, a concentração e escolha de seus temas, a origem de sua loucura, assim como da tensão familiar gerada por aquela posse. A ama tanto quanto a sobrinha temem o encantamento dos livros e por causa deste temor os odeiam. Os livros para elas têm um poder mágico e tenebroso, e por isso a ama dá um frasco de água benta ao barbeiro e diz “Tome vuestra merced, senhor licenciado, rocie este aposento; no este aqui algún outro encantador de los muchos que tiene estos libros e nos encanten…”   Os livros são, naquela casa, fonte de disputa e terror.

O Escrutínio de Quijana: A Censura como Pedagogia

Devemos supor que, dadas as condições da educação da época, as duas sejam analfabetas e daí, menos que substância, os livros seriam monstros materiais encantados, não o espírito do Mal, mas a sua corporificação. O cura e o barbeiro já seriam outra coisa: um certo semiletramento pretensamente ilustrado que teme, não o poder materializado do mal no livro, mas seu espírito e sua essência. Eles é que executam o “donoso” (gracioso, garboso) escrutínio e destruição da biblioteca depois de uma certa ponderação “erudita”. O cura e o barbeiro não são, no entanto, apenas semiletrados; são as autoridades locais (religiosa e social) aplicando um index librorum prohibitorum doméstico. Eles não queimam por ódio, mas por uma pretensão pedagógica e sanitária. Assim, de um lado está o perigo que os livros correm por causa da ignorância; do outro o perigo que correm em razão de uma suposta autoridade.

O que faz este episódio mais apavorante para nós leitores é o dia seguinte. No dia seguinte, após os livros serem queimados e as cinzas serem escondidas, o quarto onde estavam os livros é emparedado e mesmo a memória da biblioteca é suprimida. A destruição da biblioteca não bastava; era necessário destruir também a possibilidade de lembrar que ela um dia existiu. A censura não se contenta apenas com a eliminação do objeto, ela quer também remodelar a memória. Dias depois, o velho Quijada, tendo se recuperado das pancadas, vai procurar a orientação e consolo em seus velhos livros e nada encontra. E é a partir daí que já não há mais retorno e toda a ficção teria que se encarnar no mundo.

A Biblioteca em Movimento: Resistência e Memória

Mas como? A partir daquele momento o Quixote passa a ser a sua biblioteca em movimento, a sua ficção em ação, as suas leituras implementadas na realidade. Vítima de uma atenção carinhosa (afinal os quatro biblioclastas estavam agindo com as melhores intenções) só resta ao Quixote viver a sua biblioteca, ser a sua biblioteca em um esforço da vontade e da memória. Notadamente da memória.  Ao lermos o romance podemos observar que a cada momento ele evoca um episódio lido para validar as suas ações. Ele não só está regido pelas ordens da cavalaria que extraiu dos livros, mas da lembrança dos episódios e das ações de seus predecessores literários. E é assim porque em sua prodigiosa memória (capaz de recitar a todo momento poemas inteiros com inúmeros versos) ele carrega uma biblioteca completa, milhares de páginas compulsadas, contos, poemas, citações, filosofia, ensaios. É de dentro da memória de Quijana que o Quixote lê e reescreve o mundo.

Uma memória que supera a morte. Senão vejamos. O gesto do barbeiro, do cura, da ama e da sobrinha é (guardadas as boas intenções) um ato de assassinato que podemos desdobrar em duas direções. Em primeiro lugar é a tentativa de controlar o espírito (diríamos hoje, a subjetividade) do Quixote, destruir pela imolação dos livros a imaginação e a memória que são o fundamento da sua personalidade. Mas é também, sob o ponto de vista interpretativo e simbólico, um ato contra a própria leitura, um incêndio para destruir a possibilidade da interpretação, do sonho, da ficção e da imaginação como potências necessárias para a vida humana.

Isso permite então que vejamos a aventura posterior do Dom Quixote como um ato de resistência, da retomada integral da vida e da proteção da memória. Porque nos livros está, de certa forma, a memória da humanidade.

Jorge Luis Borges e a Centralidade do Leitor

A memória da humanidade é, em suma, um assunto metafísico, e quem disso irá tratar, melhor do que qualquer um, será Borges, que em essência foi, talvez, o leitor ideal de Cervantes e, poderíamos supor, o ilustre leitor nomeado no segundo volume; e mais ainda, o insuspeito bibliotecário da Biblioteca de Babel que guarda a memória de todos os livros do universo, uma memória metafísica que está fora da história e contém em si tudo o que foi é e será produzido. Pois, se o Dom Quixote é o primeiro grande romance que coloca o leitor no centro da obra, Borges radicalizará e mostrará que, a rigor, na produção infinita da memória dos livros, não há obra, o que existe é o ato do leitor.

Mas eu diria um pouco mais, Borges foi também o Quixote que por causa da cegueira teve que utilizar a sua memória para reinventar o mundo.

Pierre Menard e a Reescritura do Mundo

Mas vejamos o primeiro ponto. Borges colocou o leitor na centralidade absoluta de seu projeto literário. Neste projeto ler é escrever e escrever é reescrever. O “Pierre Menard, Autor do Quixote” é a mais direta e conhecida ilustração deste projeto borgiano, mas há outras neste sentido e menos lembradas.

Uma das mais poderosas surge de um de seus projetos conjuntos com Adolfo Bioy Casares que é o livro Crônicas de Busto Domecq. Neste pequeno livro estão os textos ‘Homenagem a Cesar Paládion”, “Uma tarde com Ramon Bonavena”, “Em Busca do Absoluto” etc em que esta vertigem da reescritura é levada ao paroxismo. Nestes e em alguns outros contos deste volume todo o universo da literatura é repetição e paródia, é a leitura que reencena os livros. Por exemplo, já no primeiro texto “Homenagem a Cesar Paládion” lemos, se referindo a trajetória de Paládion: “O período 1911-1919 corresponde, já, a uma fecundidade quase sobre-humana: em veloz sucessão apareceram : O Livro Estranho, o romance pedagógico Emílio, Egmont, Thebussianas (segunda série), O Cão dos Basquerville, Dos Apeninos aos Andes, A Cabana do Pai Tomás…” prosseguindo na enumeração da “obra” de Paládion e concluindo “ a morte o surpreendeu em pleno labor, segundo testemunho de seus íntimos , tinha em avançada preparação o Evangelho segundo São Lucas, obra de corte bíblico”. O humor cervantino em Borges se hipertrofia no espelhamento e abismo da escritura.

Estes contos, assim como o “Menard”, apontam que o texto é imutável, mas a leitura é sempre nova. Em Borges o leitor determina o texto. O Ilustre leitor de Cervantes com Borges se instala no centro da literatura.

Este centro é a Biblioteca de Babel, que é de tal forma abstrata e transcendente que está protegida de todos os escrutinadores e incendiários. Uma biblioteca que se projeta para uma esfera que, como o Aleph, é o alfa e ômega de todas as coisas. Em Borges a biblioteca de Quijana se volatizou em um espaço sutil. Em Borges o quarto da biblioteca de Cervantes agora é todo o universo.

Mas devo dizer porque, para mim, Borges foi também Quixote.

Eu propus acima que a aventura de Quixote foi um ato de resistência, um modo de sobrevivência a uma violência só aparentemente executada pela ama, a sobrinha, o cura e o barbeiro.  E digo aparentemente porque a violência ressentida de Quixote que o faz penetrar definitivamente no terreno da ficção, antes estava dada pela feiura do real, um mundo real de tortura, de escravidão (Cervantes foi escravo), de encarceramentos vis, de guerras, destruição e sofrimento, Em Cervantes a derrota da Batalha de Lepanto, a perda da sua mão esquerda, as misérias de sua vida familiar era o núcleo de sofrimento que ele transmutou em Dom Quixote e o fez o campeão de todas os injustiçados do mundo. Ao sair pelo mundo tendo como arma a memória de seus livros lidos, reorganizava para si um sentido mais alto de um mundo que não tem sentido. E assim, de uma certa maneira, também Borges, porque há em Borges um núcleo melancólico que somente através dos livros reorienta o mundo. Do mesmo modo como a memória de Quixote, a memória de Borges era uma biblioteca de interpretação e estratégia para dar sentido a um universo que fundamentalmente não faz sentido. E é nesse aspecto, para mim, que o destino de Borges, muito borgeanamente, reescreve o do Quixote. Não apenas pelos horrores evidentes das facinorosas guerras do século xx, não apenas no grau inesperado de inumanidade que floresceu em torno dele durante a sua vida (não só por isso, pois Borges sempre se declarou o menos político dos autores), mas por alguns detalhes específicos de seus versos (e fala-se muito pouco do Borges poeta, para mim um dos mais importantes poetas do século XX), como Le regret d’Héraclite que diz:

“Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca

aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach.”

No qual se oculta uma marca melancólica que talvez resuma toda uma vida.

O Encontro em O Nome da Rosa

Por fim gostaria de dizer que, por uma vez, o incêndio da biblioteca medieval de Miguel de Cervantes se encontrou com a biblioteca labiríntica de Jorge Luis Borges.  No romance O Nome da Rosa o também ilustre leitor Umberto Eco fez coincidir estes dois universos retirando o livro da proteção metafísica criada por Borges e o devolvendo aos riscos mundanos que Cervantes compreendeu. Diante das evidências da História (os livros destruídos na Guerra Civil Espanhola, o bibliocausto nazista, as bibliotecas bombardeadas na segunda guerra mundial, os livros milenares destruídos com a invasão do Iraque) e compreendendo a grandeza da concepção de Borges, devemos sempre lembrar que os livros são elementos frágeis, sujeitos aos escrutínios da simples desaparição e da força, mas que são eles que guardam a memória dos homens e como Borges e Cervantes ensinaram, são a essência mesma da Humanidade.

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