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O Legado de Bellow

É um tema judaico, é um tema cristão: mais que fonte de consolo, a inteligência tem sido identificada constantemente como a origem principal da angústia humana, da sensação explicitada de nosso desamparo, de nossa melancolia metafísica e de nossa tristeza. Afinal foi ao provar do fruto da árvore do conhecimento que o homem penetrou na cisão definitiva entre o consolo cego dos instintos na natureza e as prerrogativas dolorosas do saber. Também nos gregos: a dor sentida nos olhos do filósofo de Platão, que ao escapar da caverna mira o sol ofuscante da verdade, também serve de metáfora para o preço do conhecimento, que é o do exílio constante do reino indolor e escuro da ignorância ou inocência. Saper, sapore, sabor, o gosto amargo e obscuro da árvore do conhecimento só seria menos amargo que o fruto da árvore da vida eterna. E esse é o motivo porque Deus, mais por piedade do que por castigo, expulsa o Homem do Paraíso: “se comeres do outro fruto sereis como deuses”. E nada poderia ser mais terrível para o homem.

No Cristianismo é o próprio Jesus que o declara em sua mais importante pregação. No Sermão da Montanha diz: “bem-aventurados são os pobres de espírito”, os ignorantes, pois serão chamados “os Filhos de Deus”, E isso se assemelha muito à verdade de que para os estudiosos, os sábios, não há no final bem-aventurança alguma. Se ter é perder (como no belíssimo poema de Drummond), saber é uma forma de privação de conforto, um certo estado de angústia. É desequilíbrio e, por vezes, loucura.

Até mesmo na cultura popular e na literatura aparece a figura triste daquele que gastou seu cérebro e seu tempo estudando (e de mucho leer e poco dormir se le seco el cérebro – Dom Quixote), a crença, um pouco comum, de que o cientista, o homem muito inteligente é, em comparação ao comum dos homens, um ser nas nuvens, por vezes meio aparvalhado, um pouco bobo, afastado das preocupações usuais dos homens.

O Intelectual como Personagem Literária

No mundo moderno da ascendência (e agora decadência) da classe média urbana e da tentativa de educação universal, o tipo clássico do professor como um sujeito um pouco deslocado, era até a pouco, um lugar comum no imaginário popular. Os intelectuais, digamos, pessoas genuinamente tocadas pela paixão intelectual, em geral um tipo criado (idealmente) junto a uma certa concepção literária do homem, num certo momento, eram bastante comuns e se tornaram, eles mesmos, uma personagem literária.

A obra de Saul Bellow procura, em quase todos os seus livros, mapear a existência mental desse personagem, seus gestos invariavelmente vãos, seu imaginário confuso, sua grandeza invisível e sua miséria evidente. Desde de Moises Herzog e sua epistolografia enlouquecida espiralada em uma queda, até Abe Raweistein (sua reinvenção literária do intelectual Allan Bloom), Saul Bellow tem virado pelo avesso o confuso universo espiritual do que se convencionou chamar o intelectual judeu (principalmente), mas universal em sua pose e encenação.

Herzog: O Fracasso do Humanismo no Século XX

Para mim seus livros são particularmente tocantes, afinal, seus personagens são profundamente humanos no fundo de suas almas em geral soterradas por montanhas de papel, livros e erudição. O pobre Moises Herzog é uma criatura verdadeira, posta de pé pelo talento de um grande romancista, que amparado no humor descreve toda a desventura do humanismo no século XX. Bellow nos apresenta Herzog como alguém digno de piedade e logo no início do livro somos obrigados a concordar com ele:  com o conhecimento não veio a sabedoria e muito menos a felicidade. A inteligência sutil de Moises Herzog não é suficiente para leva-lo a felicidade em meio a cultura material da classe média contemporânea. Ignorado pelos filhos, enganado por suas mulheres, fracassado nas relações pessoais mais simples, Herzog ri e nós nos obrigamos a rir com ele, pois tudo o que resta no final é o humor.

Mesmo no Legado de Humbold, talvez seu livro mais ambicioso na descrição de tipos intelectuais da cultura da classe média, são o humor e a auto ironia os dois pilares onde se sustentam a leveza do livro. Enquanto a ação de setenta por cento do livro se passa na cabeça dos personagens, na ilusão ilustrada de seus egos, somos levados mais uma vez à piedade e a simpatia. Em Bellow menos vale mais.

O Humor como Ferramenta de Transcendência

O que ele nos dá veladamente é uma discussão sobre a falência dos ideais literários do humanismo. Que a educação não trouxe a melhora, nem o apaziguamento e, muito menos ainda, a felicidade; mas que o humor, um subproduto sutil da inteligência (e a auto ironia), são talvez suficientes para justificar a vida humana.

Afinal esses personagens de Bellow não são melhores que ninguém e chegam mesmo a ficar em clara desvantagem em relação aos outros menos intelectualmente dotados. O que os salva por vezes é uma inflexível autoanálise e sua capacidade sempre renovada de rir de si mesmos. Para eles a autoindulgência não conta.

Neste lapso entre a bem-aventurança dos ignorantes e a angústia dos letrados, Bellow interpõe um humor delicado e perene, não o da risada, mas a do sorriso. A autoanálise de seus personagens pesadamente intelectuais é séria, mas sabe que a seriedade olhada de bem perto também é risível.

Isso fez de Saul Bellow um autor muito moderno já que foi na modernidade que o humor foi entendido como uma ferramenta da transcendência do eu e como um dos poucos instrumentos de liberdade que a alma condenada ao conhecimento possui para eludir a Deus.

Sim, pois Deus (o do Ocidente judaico-cristão), como se sabe, tem pouco humor e como Eco descreveu no Nome da Rosa, o próprio riso era suspeito na Idade Média; para a Igreja, um recurso demoníaco. (Aqui é claro essa suposição de Eco é aceita com as devidas ressalvas para ser usada somente como um horizonte argumentativo).

Mas não é bem assim, o humor intelectual de Saul Bellow é amplamente humano. No ritual muitas vezes cruel da autoanálise, seus personagens jamais caem na condenação amarga porque profundamente auto irônicos saem fortalecidos da dieta de seu veneno analítico. E esta é a lição de Saul Bellow.

Uma difícil lição. Mas a insistência de Bellow em seu tema mostra o quão importante o tema era para ele (e para nós). Rir de si mesmo é o princípio da sabedoria.

É, como sabemos, a contribuição laica de um certo humor judaico em sua origem que trabalha justamente nessa cisão instaurada em nossa cultura pelo próprio judaísmo entre o reino do homem e o da natureza.

Pois se o humor foi o prêmio contrabandeado do conhecimento é que ele pode transfigurar a angústia que nasce do reino desolado do saber, e ensinar ao homem a encarar no fim a sua própria morte.

Se o conhecimento não dispõe imediatamente a grandeza, o riso é uma grandeza suficiente. Não o riso voltariano, mas o riso de Diderot. No romance de Saul Bellow as contradições da inteligência se resolvem em um atributo mais alto que o próprio conhecimento: talvez o possamos chamar de sabedoria e aí então mesmo o nosso destino estaria a salvo e nossa aventura assinalasse um sentido.

A Comédia Social em “O Legado de Humboldt”

Esse riso diderotiano (Jaques, o fatalista) é particularmente evidente em um romance como O Legado de Humbold. Neste, Von Humbold Fleicher, poeta laureado decadente; Charles Citrine, teatrólogo de sucesso ascendente; e Rinaldo Cantabile, o casca grossa mafioso de Chicago encarnam o tema da cultura, sua impostura, seu brilho e decadência onde os personagens encenam uma dança de amor e ódio, de encontros, trombões e desencontros. Uma narrativa algo picaresca cujo mote inevitável é o equívoco.

Neste romance, talvez mais que nos outros, o conhecimento é mais que uma fonte de angústia a moldura de uma comédia social onde os personagens compulsivamente autoanalíticos, apartados de qualquer inocência, buscam uma conciliação impossível consigo mesmos. Pois no universo complexo da imaginação em Saul Bellow não há reconciliação nunca. Como na dialética cada contradição engendra outra infinitamente mais alta e complexa e somente o humor nos resgata do papel grotesco que desempenhamos.  Charles Citrine, escritor de sucesso vive a crise de seus fracassos afetivos dentro de seu sucesso material e neste caminho reencontra seu mestre o poeta Humbold Fleicher, consumido pelo alcoolismo, pela paranoia e pelo esquecimento, e que agora está morrendo na miséria. A batalha de escarnio, impropérios e desencontros entre eles é toda disputada em jargões literários e figuras de retórica do meio intelectual. É a tal cultura que afinal pouco salva. O mafioso Cantabili sublinha na narrativa tanto a inutilidade de ser culto como a parvoíce de não sê-lo.

Mas há um heroísmo menor em todas essas ações, que é o da consciência de seu gesto. Esta consciência é o resultado inesperado e risível do homem ter comido da arvore do conhecimento, mas é, ainda assim, seu heroísmo. Tudo somado, de nossas vaidades resta pouco ou nada. E daí que, não tendo comido da árvore da vida, tolos e mortais, percebemos que o melhor que há em nós é este nada um pouco cômico e perfeitamente humano.

Moby Dick  A Baleia

O Mar de Sargaços Textuais: A Falsa Abertura

Para a maioria da crítica e dos leitores Moby Dick abre com a famosa frase: “Call me Ishmael”, e essa é com certeza a frase de abertura mais conhecida de todos os romances norte-americanos. Mas se prestarmos atenção não é bem assim. Afora a dedicatória a Natanael Hartworth, o livro começa com a Etimologia e os Excertos. Bem antes que Ismael se apresentasse já havia um mar de escolhos textuais, destroços náufragos dispersos de informações como sargaços textuais – a Etimologia e o Prólogo – que são um discurso em deriva, uma paisagem instável, mas já indicando a multiplicidade e a incerteza do tema do romance.

Na Etimologia lemos: “O lívido funcionário de casaco tão surrado quanto seu coração, corpo e cérebro; vejo-o agora. ” Este sujeito oculto que o vê então é o primeiro narrador do livro. Quem é ele?  Essa anterioridade, esse testemunho, depois nunca mais é aludido no romance. Nós podemos apenas supor quem talvez ele seja. Suponhamos que seja Ismael. Se for Ismael, ele se observa à distância, como se já estivesse separado de si mesmo, antes de começar a narrar, ou depois — uma consciência que se duplica e distancia, que se olha como coisa. E essa é uma tese.

Mas podemos supor que é Melville. Se for Melville, o gesto muda a perspectiva: agora temos um autor que introduz para nós uma figura silenciosa, quase um espectro, encarregada de reunir vestígios de saber, como se o conhecimento já nascesse exausto, mediado por um corpo doente, cansado, condenado. E essa é outra tese.

De qualquer forma, em ambos os casos, o romance começa numa midiatização que ao mesmo tempo que se coloca antes da narrativa pode supor um depois. A narrativa certamente não começa em uma genealogia, nem em uma apresentação.

Mas há também a questão (e talvez mais importante) de quem este sujeito vê. Quem é esse pobre assistente que “puído no casaco, no coração e no cérebro” suavemente se recorda de que é mortal? Podemos supor ser Ismael. Isso é plausível com o que sabemos depois de ter lido o romance, pois Ismael, tendo sobrevivido a um naufrágio, percebendo-se doente, velho e, agora, mortal, compila as informações que lhe permitam contar como sobreviveu. Isso explicaria a sua erudição inexplicada, a precisão (agora confirmada nos volumes) de suas informações.

Neste caso a nota inicial fecharia também o ciclo que no final do romance ficou em suspenso: o que aconteceu a Ismael, pois lemos que a nota foi fornecida ”pelo finado funcionário tuberculoso de um ginásio”. Se isso for assim, podemos pensar que, após escapar ao naufrágio do Pequod e todas aquelas aventuras no mar (inconsciente pensando com isso que escapara da Providência), chegara a consciência da sua mortalidade e finalmente veio a morrer de tuberculose.

Até aqui, poderia ser assim. Mas temos o problema dos Excertos. A voz que o apresenta, seu tom irônico, elevado e sarcástico “Ver-se-á que este laborioso investigador e escrevinhador, um pobre coitado sub-sub, parece ter percorrido as intermináveis Vaticanas e bancas da terra, colhendo todas as alusões esparsas sobre as baleias que encontrou em todos os tipos de livros, sagrados ou profanos. ”, introduz também um problema. E o caráter indeterminado dessa primeira camada narrativa é o palimpsesto sobre o qual será escrito o romance.

Mas, de qualquer forma, é claro que o ”Call me Ishmael” é a abertura narrativa do romance.

A Trindade em Desequilíbrio: Ismael, Ahab e a Baleia

Essa apresentação inicial, no entanto, reverbera mais uma questão recorrente. Quem é o protagonista do romance? De quem o romance principalmente fala?  Quem é o centro dessa história? É Ismael, a voz que nos acompanha durante todo o romance e que sobrevive para contar?  É Ahab, com seu furor teleológico, seu fascínio, misto de miséria e de grandeza? É, enfim, a baleia, que dá título à aventura, que congrega em si todo o assunto e que com sua presença imensa se espalha na totalidade da narrativa? A própria dificuldade da pergunta possivelmente oferece uma resposta mesmo que provisória. Moby-Dick não se organiza em torno de um herói único, mas de uma tensão permanente entre vontade, consciência e matéria. Ahab deseja e se obstina. Ismael pensa e testemunha. A baleia é e resiste. Antes do fim nenhum desses polos se impõe, e o romance se sustenta nesse desequilíbrio sinuoso até o final.

A Baleia como Signo: O Eixo Horizontal e Vertical

Imersos no texto percebemos que grande parte do romance trata dos aspectos objetivos e materiais da indústria baleeira: a equipagem, o material dos cordames, a descrição dos barcos, o posicionamento hierárquico dos tripulantes, a função dos tripulantes. Tipos de baleias, a geografia de seus deslocamentos, a fauna que as acompanha, os diversos modos de ela ser aproveitada como mercadoria, etc… No livro há uma tentativa de totalidade na descrição e na caracterização de todos os aspectos materiais que envolve a indústria da baleia, a cadeia produtiva que a acompanha. Por outro lado, há a tentativa de descrever todos os aspectos simbólicos dos cetáceos, a baleia para além da baleia, a baleia como aparece para a religião, a baleia como vista a luz dos mitos, a baleia nas artes plásticas, a baleia na literatura, a baleia como símile de concepções filosóficas e metafísicas do homem. Nesta dupla tensão se constituí o livro. Poderíamos falar de um aspecto horizontal do universo das baleias com sua completa materialidade e um aspecto vertical dos dados imateriais da baleia como um signo. O romance Moby Dick é, como o próprio tema do romance, oceânico, metafísico, profundo inesgotável. Podemos vasculhar as suas páginas como aos oceanos e jamais exaurir a quantidade de reflexões que ele faz dos vários aspectos da existência.

No plano natural vemos a complexidade da vida marinha, a exuberância de suas manifestações. É existência zoológica da baleia, sua biologia, suas divisões em espécies, seu corpo e sua substancia; mas é também a vida do mar e seus movimentos, as várias divisões do mundo oceânico e seu aspecto pesadamente material. Além do plano material natural, há o plano físico naturalizado do comercio: o navio baleeiro e suas divisões, sua equipagem e sua rotina, seu objetivo econômico e sua importância central para a economia do século 19. Mas encontramos também em Moby Dick as relações humanas, o navio e suas hierarquias, as funções dos embarcados e suas movimentações no navio que também é visto como um palco. Aqui temos o homem em sua psicologia, como os homens se reúnem, como se organizam; seus preconceitos e suas vaidades, suas divagações e seus medos. Temos a coragem que se apresenta quase que como uma inconsciência (Queequeg), temos a inteligência que se projeta como um aprendizado do mundo (Ismael), temos a nobreza limitada pela incerteza da verdade (Starbuck), temos a submissão cega e suicida acobertada pela lealdade inverificada (a tripulação). E temos afinal a cega obsessão e o ódio, a coragem desmedida e a indiferença, a liderança mistificadora e fundamentalmente assassina. Mas acima de tudo isso, há a meditação sobre a incompressibilidade da vida, seus aspectos trágicos, seu mistério muito além de nosso entendimento.

A Voz Épica: De Homero a Walt Whitman

Ao lê-lo do ponto de vista da tradição, o romance nos remete a poesia épica de Homero e seus clássicos marítimos. Fala também ao mesmo tempo com o Fausto de Goethe, de uma maneira ampla e repartida em vários aspectos do romance. Do Fausto, a ambição do conhecimento total (do próprio romance e de seu narrador Ismael). A tensão do pacto luciferino para a execução de um destino (Ahab e sua perseguição a baleia). Mas fala também com Shakespeare (Lear e Macbeth, principalmente, mas não só), com a poesia romântica inglesa do século 19, Colerigde (o Albatroz), etc…

É um romance épico. As principais características do gênero épico são: presença de um narrador (Ismael), personagem heroico (Ahab), enredo (a caça a baleia), tempo (indeterminado na narrativa, cronológico no desenvolvimento) e espaço (o mar). O poema épico apresenta proposição (ou prólogo), invocação, dedicatória, narração das aventuras do herói e conclusão (ou epílogo). E tudo isso pode ser verificado no romance.

Mas para mim esse romance é, antes de tudo, uma voz, uma impostação declamativa e um ritmo narrativo. O muitas vezes apontado caráter épico do romance eu o percebo não só na estrutura da narrativa que se aparenta com os épicos do mar (como a Odisséia) ou os épicos do confronto (como a ilíada), mas principalmente na frase como é construída, nas palavras como são usadas, na música geral e obsessiva de seus longos parágrafos. Metáforas, símiles, comparações, aliterações, o tom grandiloquente e glorioso da voz e a percepção de sentimentos universais e imperiosos.

 Por isso ao rele-lo recorri a Walt Whitman. O Whitman que escreve tanto tempo depois de Melville, mas que tem a mesma grandiosidade das paisagens imensas e insuficientes, de um universo que parece em expansão. Em Melville e Whitman a voz tem esse aspecto de amplitude, esta vontade universalista que objeta se apoderar de tudo e que, no entanto, se compreende parcial e limitada em seus próprios recursos. Há nos dois a mesma identificação cosmogônica, o mesmo aspecto agônico de uma sensibilidade em entrelaçamento e conflito com todos os aspectos da realidade e uma irmanação com tudo o que existe. Nos dois percebo o mesmo aspecto fundador de uma nova sensibilidade, uma sensibilidade que recusa as restrições e que pretende o desmedido, o indevassável e o ilimitado.

Mas na concepção de Ahab transparece o destino de Ulisses, no entanto, curiosamente não o destino do Ulisses de Homero e sim o Ulisses de Dante como o apresentado no Canto XXVI do Inferno. Neste, como lembramos, após a chegada a Itaca contada no poema homérico, Ulisses resolve voltar ao mar e enfrentar o oceano em busca de novas aventuras e conhecimento. Para Dante sua arrogância é tal que ao chegar próximo das praias do Purgatório (onde nenhum homem vivo jamais esteve) é tragado por um redemoinho que arrasta a ele e a sua tripulação para o fundo do mar. É a mesma hubris de Ahab que quer se confrontar com forças muito além das possibilidades humanas e não hesita em sacrificar o que quer que seja. (Plus Ultra).

Uma ideia interessante aponta que o personagem principal de Moby Dick é a espessura inconquistável da realidade, o peso da vida material e metafísica que ultrapassa todas as possibilidades humanas de compreensão e entendimento, uma concepção do transcendental. Pode ser. O transcendencialismo tinha algo do tom espiritual da época: A renascença americana: o humanitarismo de Emerson, o individualismo desobediente de Thoureau, a compreensão do ‘espirito da carne” de Whitman, o espírito de aventura de Melville. O romance Moby Dick é fruto de um momento histórico de anseios totais e planetários que estavam na base ideológica da criação dos Estados Unidos e do que veio a ser o mundo moderno.

A Modernidade Corrosiva do Pequod

E é ainda admirável o que podemos chamar de a “modernidade’ de Moby Dick, uma modernidade de fundo e de forma. Logo no início do romance temos a amizade entre Ismael e Queequeg, onde há uma compreensão de igualdade entre o homem branco e o “selvagem’, assim como uma insinuação da superioridade do “selvagem” em muitos aspectos de seu comportamento quando comparado com o “civilizado”. Aí também vemos o estabelecimento de uma amizade masculina que não recusa os elementos de uma maior afetividade física e espiritual entre os sujeitos. Um pouco a frente há o reconhecimento de uma beleza física negra expressada na anatomia de um arpoador. Temos também a relatividade das crenças, as múltiplas formas da apresentação da verdade nas interpretações das várias religiões. Em um outro capítulo há a crítica do poder mesmerizante do fanatismo religioso, uma fenômeno que seria comum por todo o século XX, e etc… Agora, essa modernidade não deve ser vista como uma distinção moral apenas, mas principalmente como uma crítica profunda e corrosiva à nascente modernidade democrática americana, que convivia com a escravidão, o racismo, o imperialismo e a voracidade predatória do capitalismo nascente.

Mas temos também uma modernidade na forma: romance enciclopédico, romance-mundo, mistura de registros literários. O épico, o dramático, o lírico, o ensaio filosófico, a enumeração burocrática de um relatório; a indeterminação do narrador, a polifonia narrativa subentendida nos vários níveis da narrativa. O recurso (depois comum ao pós moderno), de referências a outras narrativas literárias (Shakespeare, Milton, Goethe, a Bíblia), mas também do entrecruzamento de outras formas de arte como a pintura, escultura, etc..). E aqui vale notar como exemplo que a profecia de Fedalla quanto ao destino de Ahab, espelha, até mesmo no número (3) dos sinais, a relação entre as bruxas e Macbeth.

Conclusão: O Rio de Heráclito e a Releitura Infinita

Mas tudo isso é Moby Dick e mais, muito mais. Hoje lemos as interpretações filosóficas do romance, as interpretações históricas, econômicas, psicológicas, linguísticas, etc… Ao lê-lo cada um de nós leitores tem apenas a oferecer sua emoção e perplexidade que irá propor intensamente a necessidade da releitura. Porque será necessário rele-lo.

Pois Moby Dick é um romance inesgotável e nele também como nas aguas do rio de Heráclito, no mar-oceano de suas aguas, nunca ingressaremos ou leremos o mesmo romance.

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