
Bem-vindo à Oficina de Leituras de Filosofia. Há muitos anos venho escrevendo para me distrair: não para ensinar, nem para convencer, mas para tornar habitável o mundo interno que a leitura e a reflexão tornam possível. Os cadernos se acumularam, as notas se sobrepuseram, pequenas ideias e intuições foram deixadas à margem dos livros que me acompanharam como companheiros invisíveis ao longo da vida, companheiros naturais para a solidão e a convivência compartilhada em um mundo em que os diálogos verdadeiros desaparecem. Apenas recentemente percebi que todas essas formas dispersas obedeciam a uma mesma fonte, uma mesmo tom afetivo, uma mesma disposição intelectual: acolher antes de julgar, compreender antes de classificar, escutar sem desejar impor.
Pensei, então, que talvez esse impulso fosse algo mais que um hábito: talvez um método, talvez uma virtude. Algo nascido de uma falta — lembro-me do poema de Drummond, A falta que Ama, do livro As Impurezas do Branco — uma falta compassiva regida por uma paixão intelectual, a reflexão nascida de uma experiência de vida e de leituras, e que não é, nem pretende ser, uma categoria moral, uma deliberação sobre o outro, mas uma reflexão sobre mim mesmo, a gravidade e a leveza dos textos e sua importância em nossas vidas.
É, antes, um modo de relação com o conhecimento dos textos, dos quadros, da música, da filosofia, da história: um gesto, uma tentativa de pensar com humildade, sem certezas, buscando o rigor, aspirando à coragem, mas mantendo o pensamento suficientemente aberto para ser modificado pelo que encontra, para a surpresa inesperada e o acontecimento imprevisto.
É, assim, uma paixão que poderia ser compartilhada num diálogo, uma compaixão intelectual que nasce da constatação de que ler é sempre um encontro precário e aberto, uma aposta no inesperado: autor e leitor tentam nomear o que os atravessa e incomoda; ambos carregam sombras, incompletudes, intuições em estado germinal. Ao reconhecer essa falta compartilhada, esta condição de incompletude que nos acompanha no mundo, torna-se possível instaurar um diálogo renovado — sem violência, sem medo, sem arrogância interpretativa; mas regido pela lucidez da procura e pela coragem do se aventurar.
Esta Oficina de Leituras de Filosofia nasce, portanto, da decisão de tornar público um gesto pessoal e íntimo que a reflexão aberta torna público: a leitura como hospitalidade do ser; a crítica como forma de cuidado de si e do outro; o pensamento como afinidade de eleição humana.
O blog reúne ensaios, notas e reflexões que atravessam a filosofia, a literatura, a história, a arte e suas expressões (pinturas, desenhos, esculturas, filmes) e outras regiões da sensibilidade e que procuram um sentido. Não busca sistematicidade (que não possuo), nem autoridade (que não tenho), mas interlocução amiga possível.
A base epistemológica deste espaço é simples: compreender é incluir sem dominar; é ser modificado pela alteridade sem dissolver-se; é manter a lucidez no ponto em que a luz da sensibilidade se intensifica num conhecimento.
No limite, nesse limite, compreender é acolher — no sentido mais amplo, rigoroso e generoso da palavra.
Se há aqui algum propósito, que seja o de oferecer uma pausa para esses dias corridos, uma pausa diante do imediatismo hermenêutico das mídias, da hiperinterpretação alucinada do agora, e das certezas cruas de sempre. Um lugar onde a leitura, enquanto ato pessoal, recupere sua dimensão artesanal, meditativa, humana e, no fim, comunitária. Uma pequena praça íntima em uma cidade impossível, onde possamos pensar sem pressa e aprender com confiança como compreender com generosidade.
Como exemplo da prática desta Oficina de Leituras de Filosofia, algo disso você encontrará nesse ensaio sobre Holbein, nesta meditação sobre o Quixote e nesta reflexão sobre a Ética