O Impressionismo de Monet até Cézanne sempre foi uma arte das cidades. Fruto da sensibilidade da burguesia do século XIX, a radiante beleza de seus melhores quadros pertence a atmosfera urbana das avenidas pavimentadas, das praças cheias e mesmo onde os campos são o espaço aberto de um fim de semana, os parques verdejantes, a travesseia dos rios, o entorno rural e urbano do homem médio do século XIX. Não por acaso a claridade racionalista dos céus tem nos impressionistas seu correlato exato nos rios e nas vestimentas onde o azul mais que uma cor é a celebração de uma concordância. Baudelaire, um dos mais brilhantes críticos da pintura de seu tempo, viu claramente a motivação urgentemente moderna desta escola de pintura luminosa que abraçou o mundo atual como seu motivo e fez da racionalidade do espaço o seu projeto. Mesmo que já estivesse pressentida em Courbet, Turner, Balzille foi somente com os Impressionistas que a modernidade tomou na história da arte seu caráter fundamental e nele a visão do mundo da burguesia achou o seu lugar central de onde pudesse coordenar o mundo.

O Otimismo Burguês de Monet e Renoir

A ascendência da luz em Monet apontava para o progresso que ele via à sua volta: a Estação de Saint Lazare, o Palazzo da Mula, a Catedral de Rouen, nele – o mais característico dos pintores impressionistas – a pintura coincide com a celebração não só da beleza do mundo que surgia, mas com toda o otimismo e mutabilidade do mundo burguês. A classe média coincidiu consigo mesma em Monet e foi celebrada em Renoir no seu tipo impressionista por excelência, o flâneur, o burguês em seu lazer, integrado a um mundo harmonioso (que era sua posse) e estetizado para o seu olhar (Mulher com Gato – 1875, Dama ao Piano – 1876). O avanço formal da pintura impressionista traduzia a idealização imagética da classe média ascendente, imaginada como uma nova aristocracia, uma burguesia que, nas palavras de Marx, tinha como nenhuma outra classe antes dela modificado o mundo.

Em Seurat esta dinâmica se explicita como uma quase ciência unindo a intuição e a precisão do artífice. Em Cézanne a pintura encontra o seu destino e seu futuro: o construtivismo, o cubismo, a geometria, a lucidez.

Van Gogh: O Esteta do Mundo do Trabalho

Foi Van Gogh sozinho que aquém e além dos impressionistas colocou o ser humano nu e inteiro no centro deste projeto luminoso e criou as imagens mais humanas escamoteadas pela cor e pela luz do impressionismo. Nele, o mundo sem transcendência do trabalho encontra seu esteta e seu tradutor. O proletariado imerso na revolução Industrial, os desgarrados sujos de fuligem de toda a Europa, os pequenos funcionários, emergem de seu sofrimento e anonimato e sob suas mãos viram testemunho, ganham o status de obra de arte.

Se em Toulouse Lautrec, já para além do impressionismo, o proletariado boêmio e romântico dos bares e bordéis (muitas vezes burgueses desgarrados de seu centro) tinha encontrado o seu pintor, foi apenas em Van Gogh que a tragédia e a miséria do mundo do trabalho, a pobreza destituída de tudo do proletariado urbano reles e vil pode ser retratada e reconhecida.

Os oito quadros que pintou ao longo da sua vida tendo as botas como motivo ilustra o cuidado comezinho do pobre com os pés. A propriedade de calçados era um bem essencial e absoluto para a sobrevivência.  As Botas (série, 1886-1888): não são uma natureza morta sequer; são um retrato indireto de uma classe que sem coches, carruagens ou cavalos, caminha. Elas carregam a memória do corpo que as usa, os longos percursos percorridos. Representam a materialidade da sobrevivência. Só para o mundo do trabalho as botas têm um sentido essencial e nos invernos gelados os pés quentes tinham toda a importância do mundo e mantê-los aquecidos era a maior preocupação do trabalhador.

Por essa compreensão tão direta só ele poderia ter pintado os Comedores de Batatas, o mais anti impressionista dos quadros por sua renúncia à luz, na feiura crua de seus personagens e na humanidade de seu tema. Nele estamos longe do fulgor laudatório da burguesia parisiense e no centro da realidade crua do mundo da modernidade. A sombra insistente nas paredes, a expressão desolada das figuras, a resignação triste do conjunto, destrói todo o idealismo do impressionismo e é diante dele que toda a luminosidade aparente do século XIX vem a julgamento.

Os Comedores de Batata: O Manifesto Anti-Impressionista

Os Comedores de Batata (1885) é uma obra da fase inicial de Van Gogh nos limites da influência do Realismo e num ato que já intuía o expressionismo do pintor. Seu motivo evidente é: dois casais e uma criança de costas para nós (uma menina) repartindo uma refeição comum. A pobreza do conjunto está nas suas roupas, simples, monocromáticas, banais; mas também na mesa, nas paredes, na lamparina que pouco ilumina. O uso das cores terrosas, o ocre, o marrom o cinza escuro, confinam as dimensões do quadro ao ritual da refeição comunal da pobreza que se expressa nos gestos das mãos dos personagens como um rito de fraternidade. Um personagem oferece o pão, outro distribui a bebida em vários copos, um terceiro separa a comida no prato comum. É nas faces ensombrecidas e silenciosas, na rudeza de suas feições sem beleza, mas também na sua resignação compartilhada, que o testemunho do quadro se afirma como documento de denúncia e homenagem. A denúncia se dá na contraluz da celebração da vida burguesa pelo impressionismo, seus jantares luminosos (vejam o O Almoço dos Remadores de Renoir, por exemplo), seus luxos, sua exuberância. Aqui nada é luz, nada é celebração, nada é epifania. A luminosidade é pouca, as cores são exigentemente medidas, a movimentação é contida, nada é desperdício, tudo conta.

Conta mesmo o gesto do pincel de Van Gogh que não passeia na superfície do quadro (Renoir), não se fragmenta como sensação (Monet), não escreve como quem estrutura (Cézanne), mas fere, narra, expressa. É suja e pesadamente material como seus motivos. É concreta e com as imperfeições da própria vida.

E é a vida que está ali sendo, de uma certa maneira, homenageada. Pois, repare nas faces dos personagens e verá que em sua pobreza, suas expressões profundamente humanas participam de uma das mais antigas e fundamental forma de comunhão do homem: a comunhão do alimento.

O Humanismo como Legado Ético

Este entendimento humano que remonta as raízes pietistas da formação de Van Gogh se desenvolverá mais tarde em toda uma série de retratos pintados sob o sol de Arles, onde a figura humana continuará a ser descrita e observada com um misto de piedade e compaixão. Neste humanismo pictográfico, mas existencialmente profundo, que em cada pintura reafirmará o envolvimento e a sensibilidade de Van Gogh para o sentido social do sofrimento, encontra-se um aprofundamento radical da pintura como instrumento de ação. Van Gogh legou ao Expressionismo uma pulsão ética: a composição plástica nele se torna um ato de empatia.

Uma empatia e compaixão pelo desamparo humano que ele desenvolveu meditando também o seu próprio sofrimento. Pois a série de autorretratos de Van Gogh, antes de ser um laboratório para uma estética, antes de ser uma obsessão desatinada por si mesmo, representam a inquirição de um artista, que se reconhecendo humano e sofredor, indagava em sua face as coincidências e semelhanças do destino humano. Esta não indiferença para o desamparo do outro, ele a estudava em seu próprio desamparo e fragilidade, pagando o preço emocional de uma vida dedicada a entender com compaixão a existência humana.

Pois é disso que se trata em Van Gogh, o humanismo de sua pintura (que geraria uma boa parte da melhor gravura e pintura social do século XX – Käthe Kollwitz, Otto Dix), não por renegar a luminosidade esplendorosa do Impressionismo, mas por compreender o quanto da experiência humana ela deixava de fora, esse humanismo se voltou para a sombra, o traço violento, por vezes brutal, não da pintura, mas da própria realidade.

Não por acaso, após a segunda guerra ele praticamente se torna um ícone do Ocidente. Ele tornou-se um ícone porque sua obra fala, expressa, expõe de forma crua, o dado moral, a experiência estética popular em sua forma ética. O tema humano da necessidade e da solidariedade presente nos Comedores de Batata, orientou muito da melhor arte do século XX e ajudou a nos educar o coração e a visão em uma concepção mais abrangente do mundo.