Orson Wells no filme Macbeth

A Literatura como Escritório Privado da Mente

São misteriosos os caminhos dos textos. Nunca entenderemos bem o poder real da literatura. A atividade solitária de ler esconde um cenário onde, no escritório privado da mente, se encena um diálogo apenas entre nós e o livro; mais que um diálogo, uma conversa entre o leitor, o escritor e os personagens — de concordância e de conflito, de amizade e de amor. Uma conversa que pode se prolongar nas releituras e que se modifica na medida em que o tempo passa e envelhecemos, à medida que nós mesmos nos transformamos. É onde as relações se sedimentam e se aprofundam e, por vezes, se partem irremediavelmente, ou, por outro lado, se ratificam.

Assim são para mim o Dom Quixote, o peregrino Dante e Virgílio, Zeno Cosini de A Consciência de Zeno, de Svevo, por exemplo, entre muitos outros: seres da ficção com que convivo há muitos anos e que me interrogam e respondem, me põem em questão e me traduzem, me desafiam, iluminam e, às vezes, me consolam. São interlocuções que carrego pela vida, fruto de uma convivência íntima de, a um só tempo, conhecimento e autoconhecimento. E assim é para mim o Macbeth, que, mesmo em sua vilania, nestes anos de leitura se tornou meu amigo — um amigo ao qual condenamos muito, mas que, no entanto, às vezes temos de defender, pois ele é também, muitas vezes, incompreendido.

Macbeth não é Iago: A Ambição como Falha Humana

Digo isso porque me aborrece frequentemente vê-lo associado, numa frase, a um dos grandes vilões de Shakespeare. Eu penso: mas Macbeth não é Iago, ele não é Edmund. Estes são movidos por qualidades negativas. Iago é movido pelo ódio (“I hate the Moor;”), Edmundo pelo cinismo (“The younger rises when the old doth fall.”). O móvel principal de Macbeth, ao contrário, é uma qualidade ambivalente e comum, a ambição; e a característica maior de sua personalidade é a sua fraqueza.

O Guerreiro e a Semente do Envenenamento

Mas nós não supomos essa fraqueza, talvez, dada a posição de Macbeth. Barão de Glamis, soldado, guerreiro, general — a primeira vez que ouvimos falar dele é através de um de seus soldados feridos, que o chama de bravo por merecimento, intrépido até a inconsequência (disdaining fortune), sanguinário, favorito da sorte, impiedoso. Sem dúvida, qualidades duras, mas nenhuma delas contrária às funções de um general. O próprio Duncan (bom rei, generoso, respeitável) é o primeiro a reconhecê-las: “O valiant cousin! Worthy gentleman!” Macbeth é um forte.

No momento mesmo em que as bruxas estão plantando nele as sementes que o envenenarão, ele ainda afirma: “O Barão de Cawdor está vivo, um próspero gentil-homem… E ser rei não está no horizonte de minha crença…” É daí que percebemos que a ambição nem era uma constituinte de seu caráter, mas que, por fraqueza e, talvez, excesso de imaginação (“duas palavras foram ditas como prólogos felizes ao grande drama cujo tema é imperial”), ele já começa a ceder às pressões internas que o conduzirão à ruína.

O Poder Retórico e a Manipulação de Lady Macbeth

Dentre essas forças, e talvez mais potente que a das bruxas, a presença determinante de Lady Macbeth. Para um homem fraco, por muitas vezes hesitante em seus desejos (“não devemos prosseguir nesse assunto” — Ato I, Cena VII), o poder retórico de persuasão de Lady Macbeth (“quando tinhas a ousadia de fazer isso, eras então um homem”), com sua imensa capacidade, de fundo sexual, de manipulação psicológica, sua poderosa e “masculina” personalidade, não haveria como opor resistência, responder, escapar. Manipulado em suas expectativas pelas bruxas, humilhado pelo julgamento de sua mulher, Macbeth cede — não como um vilão, mas como um covarde.

Um ambivalente covarde (“I dare do all that may become a man; Who dares do more is none”), suspenso entre a consciência e o desejo. Porque há em Macbeth (e isso o diferencia dos grandes vilões shakesperianos) uma consciência que primeiro impede, depois refreia e, por fim, acusa o seu desejo de poder que, apesar de si mesmo, teve de se realizar. Tendo matado Duncan e ordenado a morte de Banquo, sua mente começa a se desarranjar. Desequilibrado pelo conflito entre a coragem natural de sua ética guerreira — agora confrontada com a tibieza do assassinato urdido nas alcovas —, tudo à sua volta se desagrega, e ele, de assassinato em assassinato, procura eludir seus crimes.

O Colapso da Consciência: O Assassino Encurralado

Mas tudo à sua volta fracassou. Malcolm, Siward, Macduff coordenam as forças para atacá-lo, seu castelo está cercado, e Lady Macbeth se mata, dilacerada pela loucura e pela culpa. Ele está só, e nada mais lhe resta.

Pela dinâmica da peça, entendemos que, de tudo o que ele perdeu, foi a morte de Lady Macbeth o que mais o golpeou: o suicídio da mulher. Afinal, ela era “the dearest partner of greatness”, sua companheira e amiga; e pode-se especular que muito do que ele fez foi motivado pelo desejo de dar a ela “what greatness is promised thee”. Estéril e sem filhos, intensa, passional, ambiciosa, de uma força de vontade avassaladora, é ela, no entanto, que colapsa e não resiste ao crime cometido. Ela, que era forte, enfraqueceu; ele, que era fraco, agora tem de sustentar um último gesto de força.

E é nesta posição que vejo Macbeth: o homem que perdeu tudo quase num instante. Alguém que, de um momento para o outro — por seus próprios erros, por certo —, perdeu a posição, a tranquilidade, o amor, e que está prestes a perder a vida. Estropiado e ferido, abatido, mas ainda não derrotado. Foi nesse instante que descobri que Macbeth era um amigo. E ele era um amigo porque me dava uma lição — e não na sua vitória, mas na sua derrota.

I Will Try the Last: A Lição na Derrota Final

No Ato V, Cena VIII, momentos antes de sua morte em combate, Macbeth descobre que Macduff “não nasceu de mulher” e que toda a profecia das bruxas era mentira. E nesse momento – percebendo que foi por tudo enganado e que a si mesmo enganou, e que seu destino era a morte inevitável –  ele recusa a se render e diz: “I will try the last. Tudo arriscarei, irei até o fim.”

E era essa a lição que me ensinava: essa coragem na mais extrema adversidade; esse gesto de desafio ao destino que nos golpeia; esse orgulho, mesmo na consciência sitiada pela dureza das circunstâncias. Porque Macbeth erra, mais por fraqueza que por maldade, mas aceita pagar o preço de seu erro. Aceita a consequência final de seus atos e sua culpa, não se curva, e no fim da peça ele é, como no começo, novamente forte. Ele não se apieda de si mesmo, não culpabiliza sua mulher ou as circunstâncias (as bruxas). Ele diz: Irei até ao fim.

A Amizade como Compreensão e Aprendizado

Assim, minha amizade com Macbeth é esta dívida de aprendizagem, a consciência de uma lição à qual junto uma tentativa de compreensão.

Vinicius de Moraes tem um belíssimo poema para Verlaine (A Verlaine, no livro Encontro do Cotidiano) onde estão estes versos: “Do fundo de minha alma que te despreza e te compreende”.

Compreendendo Macbeth, eu não poderia jamais desprezá-lo, mas, ao contrário, sempre ao abri-lo, posso meditar na lição que aprendi com ele.

E isso é, talvez, uma das formas de amizade.