O livro Afirma Pereira abre com uma proposição pirandeliana, a de um personagem à procura de um autor, e tem como um de seus fios condutores uma pirandeliana concepção da sobreposição das personalidades, afinal, a confederação das almas descrita no texto é uma ilustração das disputas da personalidade que pode ser comparada ao uso das máscaras em Pirandello.

É antes de tudo um livro leve e lírico, seus personagens compõem um certo tipo social de um mundo que era tão violento como o nosso, mas que não era tão cínico. O Pereira que no início do romance é um intelectual  latino típico e que poderia ser encontrado tanto no Brasil, como em qualquer país da América Latina ou na Itália ou na Espanha, tem como característica um amor profundo pela literatura como um instrumento humanista para o aperfeiçoamento espiritual de um indivíduo e de uma sociedade. Vê nos livros a fusão da beleza com a meditação sobre o comportamento humano, uma reeducação da sensibilidade, do gosto e do viver. Para nós representa uma maneira de ser comovente, inocente e pura, uma concepção do mundo mediada por uma prosa meditada e pedagógica, uma possibilidade de superação da violência e da ignorância através dos textos e da beleza raciocinada da ficção. É uma concepção burguesa, no bom sentido da palavra, dos atributos da literatura imaginativa como um dos modos de educação dos atos e dos sentidos humanos, um modelo a ser decifrado e seguido, a literatura como uma forma de conhecimento e aperfeiçoamento de si.

Disso segue a sua antiguidade comovedora, o tom correto e nostálgico de sua inflexão. Pereira é uma forma do passado, um cavalheiro de antigamente, e nisto reside a sua força e a sua melancolia.  Traz a alma enlutada pela perda da esposa e agravada pela sua solidão sem filhos e sem amigos. Sua suave decadência se apoia na repetição segura dos mesmos atos, das mesmas reflexões que lhe restaram como o saldo de uma vida. Sempre a mesma refeição, os mesmos caminhos, sempre as repetidas locuções de despedida do retrato de sua esposa morta, os mesmos restaurantes, as mesmas ruas. Não é triste, pois não se sabe triste, no entanto, não é alegre, pois desconhece a alegria.

A primeira pergunta que fazemos ao texto é: a quem se dirige Pereira? Quem é o narrador? Pereira afirma reiteradamente algo a alguém, um alguém que não sabemos quem.  Pelo tom da narrativa é uma escuta compassiva e, de certo modo, acolhedora. Há mesmo uma certa simpatia pelo que diz Pereira, pois o narrador impessoal nunca interfere e limita-se a transcrever o que diz Pereira. Mas a quem diz? Quais são as circunstâncias? O subtítulo diz: um testemunho, um testemunho pode ser dado a um tribunal, a um comitê de investigação, a uma delegacia de polícia. Um testemunho pode ser dado a um centro de estudos, a um historiador, a um estudioso. Imagino, sustentado pelo pirandeliano prefácio, que esta escuta seja a do próprio autor, que usa um recurso que ao mesmo tempo que o afasta o mantém colado ao texto. Então, o personagem que certa noite o buscou para relatar a sua história o faz em forma de depoimento, ou como diz o complemento do título: um testemunho.  Pereira afirma, a quem afirma? Ao autor. O texto é um testemunho. O que testemunha?

Em primeiro lugar testemunha a morte de Monteiro Rossi, vítima da violência para-policial da ditadura salazarista. Testemunha o estado mental de uma época que transcorria sob a censura e o medo. É assim um testemunho da violência sofrida por um indivíduo e o testemunho histórico de uma época opressiva. Testemunho de uma época de ditaduras: Franco, Salazar, Hitler, Mussolini. Testemunha Portugal, e diretamente e indiretamente o mundo todo. Mas testemunha também a existência fugaz de Monteiro Rossi, a sua breve juventude regida por valores generosos, sua inocência e seu engano, sua vitalidade e sua tragédia.  Ainda mais: testemunha a trajetória de Pereira, sua lenta e quase imperceptível transformação, da sua apatia inicial para uma vontade de intervenção e engajamento. O que Pereira afirma, afirma principalmente sobre si mesmo: sua devoção aos ideais humanistas representados pela literatura francesa, seu catolicismo moderado, sua bondade e inocência natural, sua viuvez sem consolo e sua polidez sem maldade. Mas, acima de tudo, é o testemunho da relação dialética entre os valores da vida e os valores da morte. Esta dialética se estabelece desde o título. Pereira afirma, e sua proposição é positiva, direta, objetiva, se oferece como um desvelamento, uma revelação, uma estratégia de projeção de luz e esclarecimento. Ilumina um fato obscuro (o assassinato de um jovem idealista), uma época tenebrosa (a ditadura salazarista), uma trajetória que vai do luto à participação (a tomada de posição de Pereira). O contraste se dá por pares dialéticos: O viúvo Pereira e o retrato de sua esposa, o jovem Monteiro e sua namorada Marta. A tranquilidade do cotidiano de Pereira e as incertezas da vida de Monteiro Rossi. A velhice e a juventude, o desalento e a esperança. Paradoxalmente a trajetória de Pereira vai de um enlutamento que se assemelha à morte em direção a uma nova vida com papéis falsos. A de Rossi vai da paixão e da vitalidade da juventude para o apagamento pela violência e a morte. À lentidão e sutileza da transformação de Pereira corresponde a brutal e inesperada morte de Rossi.  Porque em Pereira a modificação é gradual e cotidiana, ele se transforma diariamente, nem ele sabe os motivos de sua transformação.

Um primeiro motivo, é claro, a aparição de Monteiro Rossi. Na sua solidão de viúvo sem filhos o jovem se apresenta como um filho possível, o desdobramento real de um vazio imaginativo que através de Rossi restabelece os laços com a sua mulher no retrato. Porque no caso de Pereira não é simplesmente a vontade de ter tido um filho, mas a revitalização terna do diálogo mantido com a saudade de sua mulher. Suavemente no texto esta sutil proposição reforça em nós como leitores toda a compaixão e humanidade de Pereira.  Seu contido amor paternal por Rossi é uma maneira de atualizar a sua saudade e a falta que ele sente da esposa. Mas é também o resgate de uma vida que não foi sua, de um seu eu possível que se perdeu entre as inúmeras possibilidades que a vida oferece a um homem. Rossi faz com que ele se lembre de si mesmo, uma figuração de um de seus eus possíveis.

Mas há outros motivos: a lenta ascensão da violência à sua volta, o encontro com a senhora judia na viagem de trem, o acirramento do clima de bisbilhotice e vigilância exercido pela sua zeladora, a distância percebida entre seus sentimentos e o de seus antigos amigos, (já agora seduzidos pelo regime), a radicalização da guerra civil na Espanha, as atualizações de suas posições católicas, a descoberta da teoria da hegemonia flutuante da personalidade: a Confederação das Almas.

 Pierre Janet e Teodore Ribot foram dois psicólogos do final do século XIX que desenvolveram uma teoria da maleabilidade da personalidade humana que seria descrita pelo Dr. Cardoso como a Confederação das Almas. Pierre Janet constrói uma obra de grande prestígio e repercussão no campo da psicologia e da psicopatologia. Baseada na hipótese de que o psiquismo não é em si mesmo unitário, mantendo-se integrado pela ação de uma força interna de síntese de seus diversos elementos ideativos e afetivos, sua teoria psicopatológica examina os fatores que podem conduzir a sua ruptura e consequente dissociação. No romance, Pereira estaria passando por uma das fases da teoria que descreve a substituição de um tipo de personalidade dominante por outro.

Pereira, neste recorte psicológico, seria uma personalidade reprimida principalmente pelas convenções sociais de sua época e sua personalidade excessivamente burguesa, com um comportamento neurótico baseado na repetição ritual de gestos cotidianos, gestos que manteriam a coerência de seu comportamento e sua integridade psíquica. As mudanças políticas em torno dele são o fator primordial para a sua transformação, O livro trata de certa forma da maneira com a qual os movimentos da história vão direcionar, condicionar e modificar o comportamento do indivíduo. É a ilustração da frase de Ortega y Gasset de que “o homem é o homem mais as suas circunstancias”. Pereira muda porque as suas circunstâncias mudaram e se modificando ele atua nas suas circunstâncias. O gesto final de seu engajamento na denúncia do crime que testemunhou, faz com que passe de espectador passivo de sua própria realidade para protagonista de sua vida, o impasse de sua dúvida se resolve na ação. Há um clima existencialista na trajetória de Pereira, um clima de heroísmo estoico e imanente muito próximo ao existencialismo de Camus como vimos na Peste. Pereira, como alguns personagens de Camus, atinge um heroísmo que não está fundamentado em nenhuma qualidade inumana, mas que se assenta nos valores puros da simples decência. Quando se refere ao policial que o oprime como um ser humano abjeto, expõe toda a sua personalidade humanista para a qual o defeito imperdoável em que alguém pode incorrer é a abjeção, a degradação de si e de tudo a sua volta, a desqualificação das potencialidades verdadeiramente  humanas do homem.