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O Castelo : A Enclausurada Consciência de K.

“os pesadelos da razão engendram monstros”

                                                                                                          Francisco Goya

A Experiência Sensorial do Impasse em Kafka

Eu queria pensar sobre Kafka. Mais especificamente sobre o romance O Castelo (Das Schloss) de 1926. Mas o que dizer da experiência de ler este romance, do contato com este texto? Há um Kafka metafísico (Deleuze, Guattari), há um Kafka teológico (Brod, Scholem), há o existencialista (Camus), há o da psicanálise em Baudouin, e outros, muitos outros. No entanto eu queria expressar a minha experiência de leitura, o que eu sentia na medida em que lia o livro. Porque em Kafka todas as interpretações são corretas, e a amplitude de sua imaginação sustenta, de uma certa maneira, todas estas leituras (e outras mais) de uma maneira convincente. Mas, o que eu lia? O que aquele texto me dizia? A experiência de ler O Castelo de Franz Kafka assemelha-se menos a uma interpretação de símbolos e mais à vivência de um pesadelo. O romance, eu sentia, não representava uma ideia; ele apresentava uma experiência. Sua força estava numa estrutura formal que replicava a sensação asfixiante do pesadelo: vemos o Castelo, mas cada passo em sua direção revela-se um desvio e cada esforço apenas aprofunda a impossibilidade de alcança-lo. No romance eu vivia a experimentação sensorial do impasse, a angustia e a aflição dos sonhos.

A Arquitetura da Clausura: Por que “Das Schloss?

Já na escolha do título um sentido se insinuava. Por que Das Schloos e não Die Burg? Die Burg é também castelo. Refere-se especificamente a uma fortaleza medieval, um castelo fortificado, construído para defesa. Evoca imagens de muralhas, torres, fossos – algo militar, histórico e, daí, muito tangível. Das Schloss tem três significados principais: Palácio ou Castelo-Residência, cadeado ou fechadura e fecho (em geral): Pode ser o fecho de uma porta, de uma janela, de um colar. A indeterminação do título, junto aos seus significados de interdição e clausura introduziam o campo semântico adequado aos estados oníricos. Na escolha de Das Schloss já a arquitetura era um fechamento. A imersão no romance é o espaço confinado dos atos no sono, a consciência se fecha em si mesma e ritualiza a sua clausura.

A Geografia Sonâmbula e o Labirinto do Espaço

Mas então o pesadelo começa com a geografia. K. avista o Castelo no cume, tangível e próximo, a alguns passos, logo à frente. No entanto, ao tentar aproximar-se, as ruas da aldeia encurvam-se, devolvendo-o ao ponto de partida. Sua progressão não avança, seus movimentos levam a um vazio, sente-se cansado, a neve o impede de andar. A impossibilidade não é barrada por muros, mas por uma lógica espacial pesada e distorcida, sonambúlica, que transforma o espaço num labirinto aberto. Mas não só o espaço branco e vazio da neve que parece engolir o personagem, e sim, principalmente, os espaços fechados, a estalagem atulhada de pessoas, a enevoada sala de Barnabás, a sala de escola dormitório, os corredores da estalagem. É na topografia do Landvermesser, (agrimensor) que primeiro se identifica o território geral da angústia do romance.

A Burocracia como Linguagem do Inconsciente

 A narrativa desdobra-se não como uma progressão, mas como variações sobre o tema do impedimento. A comunicação, suposta âncora da razão, é como um instrumento da falta de sentido. As cartas que K. recebe via Barnabás são “velhas, tiradas de uma pilha”, inúteis; o seu significado se esvai em generalidades ocas e burocráticas. Os telefonemas para o Castelo dissolvem-se num “zumbido incessante” de “vozes infantis”. A cada tentativa de agir racionalmente — procurar autoridades, buscar aliados, examinar sua contratação — K. é absorvido e anulado pela mesma lógica que rege um sonho: a do esforço infinito que não produz nenhum progresso. Como nos pesadelos, tudo é real e nada é real, tudo o que é concreto desafia a solidez geral da realidade do mundo e adquire os contornos do sonho, da paranoia e do pesadelo. No episódio do capítulo 9, o secretário de Klamm, Momo, está ali para concluir um inquérito sobre a situação de K. Já em seu nome está a farsa, a ilusão. O inquérito não será lido por Klamm (que nunca lê inquéritos) e este, como outros inquéritos, não será lido por ninguém.

Avançando na leitura esta sensação vai se confirmando: toda a ordenação causal das coisas está rompida, os atos e as respostas aos atos não fazem sentido. K conhece os dois ajudantes esperados, estes não são aqueles que ele já conhecia; a cronologia de sua chegada é absurda, ela dissolve o tempo (supostamente os recém-chegados são reconhecidos e tratados pelos outros personagens da aldeia como antigos conhecidos). K mal conhece Frida e imediatamente falam em casamento e apenas alguns minutos após se conhecerem fazem amor no chão imundo do saguão da hospedaria, sendo observados pelos dois silenciosos ajudantes. Nós leitores sentimos um desconforto, um sentimento de angústia e de apatia, a sensação de um real indeterminado, de um real à deriva do real reconhecível.

Nestes topos estão apresentadas as situações oníricas do espaço e do tempo. Confinamento, neve, brancura, névoa, corredores. O espaço constantemente se contrai e se expande. Para o tempo: o tempo no romance é circular, é regressivo e recusa a cronologia. Os acontecimentos que se sucedem não têm consequências, efeitos, desdobramentos. O presente é como nos sonhos, um estado absoluto. K nunca chega, está sempre entrando, se acomodando, sempre no início de sua permanência, perpetuamente recomeçando.

A Ambivalência do Feminino no Castelo

Na relação com Frida sentimos que a tensão sexual que percorre o romance constitui a versão corporal do mesmo pesadelo. K. vivencia a relação com uma mulher como uma das formas de alcançar o Castelo. Seu envolvimento com Frieda, amante do oficial Klamm, é a encarnação disso: ele a deseja como um atalho, um objeto que contém a aura do Castelo. Ela é, de certa forma, o ponto máximo de sua aproximação com Klamm, sua proximidade vicária. O resultado, no entanto, é o oposto. Em vez de elevação, o casamento afunda K. na asfixia da estalagem, consumindo-o com ciúmes e da rotina. O encontro com Frieda, que nasce num gesto abrupto e quase grotesco dentro da taverna, parece prometer uma fusão com o mundo do Castelo, mas logo se converte em mais um emaranhado de dependências e vigilâncias. O encontro é frustração e apatia, ele é um gesto imanente; ele repete o mesmo movimento de atração e exclusão que estrutura a relação de K com a busca do Castelo. O atalho revela-se um beco sem saída. Esta economia relacional perversa estende-se às irmãs Olga e Amalia, que demonstram que tanto a subserviência de uma quanto a rebeldia da outra, como num pesadelo, conduzem à mesma impotência.

Mas há também as figuras como a Dona da Estalagem e a Mulher do Prefeito que encarnam uma dominação diferente: a do cuidado autoritário e da experiência esmagadora. Elas não seduzem K.; como em um sonho elas o infantilizam. Através de monólogos intermináveis, fixam-no num lugar de ignorância eterna, num ponto servil, sendo as guardiãs de um arquivo inteiro de interdições. Juntas, as mulheres do romance formam um sistema de controle quase total: a possibilidade do desejo (Frieda, Olga) promete acesso e conduz à degradação, enquanto a possibilidade da lei (a Dona da Estalagem, A Mulher do Prefeito) impõe, com uma racionalidade perversa, a sentença do fracasso. São os dois limites do corredor do pesadelo. Aqui, o feminino surge não como objeto de desejo, mas como figura de poder doméstico e opaco, indiferente capaz de controlar, excluir e humilhar. O mundo do Castelo é também o mundo das mulheres que o protegem, representam e o fazem funcionar. Essa duplicidade — o feminino como erotismo estéril e como autoridade crua — reforça a ambivalência onírica central do romance e a ambivalência da mulher em toda a obra kafkiana. Toda aproximação se converte em novo obstáculo; todo contato gera uma nova forma de dor e afastamento.

Os Ajudantes: Funções Narrativas e o Espelhamento do Horror

No centro desta teia, os dois ajudantes, Artur e Jeremias, surgem como a mais pura encarnação da lógica do pesadelo. Eles não são personagens, mas funções narrativas vivas, entidades que, embora tenham a forma humana, não possuem a psicologia, a consistência ou a autonomia de um personagem tradicional. Eles não são; eles agem para cumprir uma função. E no caso de O Castelo, as funções são múltiplas e paradoxais.  Sua duplicação e intercambialidade violam a lógica, gerando uma névoa de irrealidade. Sua chegada antecipada e misteriosa introduz uma fissura temporal, sugerindo que o cenário foi montado antes de K. chegar. Sua vigilância é lúdica e amoral — testemunham o coito de K. com a curiosidade de crianças, violando a privacidade, sem culpa. Eles são os ajudantes que atrapalham, a companhia permanente que isola. E K. reproduz com os ajudantes os mesmos gestos de arbitrariedade e violência simbólica de que é vítima. Ele os trata como entidades indistintas e sem valor, troca seus nomes e, no ato supremo de os demitir, pratica uma paródia grotesca do poder que o oprime. K., que clama por reconhecimento, nega-o àqueles que estão abaixo dele. Se na lógica final do sonho não há um outro, todos dentro deste teatro de sombras cumprem a função de espelhamento. Este é um dos horrores que o romance desvenda: o pesadelo não é uma prisão externa, mas um sistema que está internalizado, amplificado, congruente. Na tentativa desesperada de chegar ao centro do Castelo, K se reproduz na lógica do labirinto, reproduz a estrutura perversa da totalidade do pesadelo. Infantis, amorais, risonhos, os ajudantes agem como fantasmagorias cômicas e grotescas de K. Assistem a seus atos mais íntimos — inclusive à cena sexual na taverna — sem pudor, como se participassem de um jogo sem regra. Encarnam o componente bizarro do sonho, a deformação risonha do medo e da angústia. Mas sua função narrativa é mais profunda: eles duplicam a relação de K com o poder. O modo como K os trata repete o modo como o Castelo o trata. A cadeia de submissão não tem origem, não tem centro, não tem fim, a totalidade é a submissão: o agrimensor, dominado pela burocracia, torna-se o dominador de seus ajudantes. A violência simbólica desce de instância em instância, reproduzindo-se infinitamente. No pesadelo ninguém é apenas vítima: tudo funciona como agente da mesma estrutura de tormentos.

Mas há na concepção dos ajudantes a escalada do humor grotesco de Kafka. Um humor variado que aparece em outras partes do romance. No capítulo 5, “Com o Prefeito”, pela primeira vez aparece a lógica do jogo burocrático que causou a confusão da contratação de K. Penso que há no texto todo um tom humorístico na impostação e racionalidade distanciada das explicações do Prefeito. O Prefeito fala com segurança, detalha os trâmites, cita relatórios, reconhece erros e se corrige com naturalidade, como se o emaranhado de contradições e equívocos que arruinou a contratação de K fosse apenas um mal-entendido técnico. O tom do discurso é de uma serenidade quase científica — mas essa racionalidade, em vez de esclarecer, produz o oposto da clareza. O humor nasce exatamente dessa inversão: quanto mais racional e “objetiva” é a explicação do Prefeito, mais se aprofunda o absurdo da situação. Percebemos que a linguagem da administração é o próprio veículo da confusão, e que o poder não opera pelo silêncio, mas pela proliferação das palavras. A lógica do jogo burocrático é que não há erro algum, porque todos os erros são administráveis e previstos. O Prefeito não mente: ele coordena o irreal. Do ponto de vista da experiência da leitura, a cena tem uma função central: ela desloca o absurdo do campo da ação para o campo profundo da linguagem. Estamos diante da mecânica discursiva que sustenta o pesadelo — um discurso tão articulado que destrói o sentido ao tentar construí-lo. Nos pesadelos a linguagem encarna apenas a lógica de seu próprio funcionamento, a mecânica do inconsciente fraturado onde a experiência verdadeira está ausente. Logo adiante (capítulo 9), a fala da Estalajadeira é o desvelamento metafísico da verborragia burocrática. Se o Prefeito explicou o mecanismo do erro, a dona da Estalagem radicaliza e expõe a sua filosofia delirante: a produção burocrática do Castelo é um fim em si mesmo, um ritual auto-referente e deliberadamente inútil.

Esta linguagem burocratizada, fim em si mesma, seca, repetitiva, banal, é o motor material do romance. A objetividade delirante dos diálogos concretiza na própria linguagem toda a impossibilidade de escapar da dinâmica centrípeta do pesadelo. Este é o pesadelo da razão, a razão enclausurada em um espaço sem referências ao que está fora de si, ao que a contradiga, entregue a sua clausura essencial de angústia e de medo, à representação repetida de seus terrores e de seus apavoramentos. Ela expressa o dom do narrador, objetivo, imparcial, alheio, frio. O narrador produz a documentação do sonho e também está perdido no pesadelo.

Neste universo que foge há a figura central, e só uma vez referida, do conde WestWest, dono do Castelo. O acesso (melhor dizendo, o não-acesso ) de K. é ao inalcançável Klamm. Ele é a mediação possível interditada, o objeto inatingível que substitui o núcleo do desejo no sonho. Curiosamente, no romance, este centro buscado nem ao menos é o centro, o centro real seria o poder do Conde, tão inefável que uma vez referido nada mais é dito. Ou seja, no centro do pesadelo o verdadeiramente terrível não é sequer vislumbrado, ele está encarnado em um objeto central, buscado e nunca alcançado por sua vez, e que, no entanto, nem ao menos é o poder verdadeiro, mas um deslocamento. Há aqui uma teleologia sem o Telos. A figura axial do conjunto é a Aporia.

O Núcleo Racional: A História de Amália

Em todo este aspecto fantasmático, no entanto, há um corte racional, uma sequência narrativa transparente cuja coerência e organicidade atraem e recusam os outros campos do romance. Este são os capítulos 15,16,17 e 18 na tradução de Modesto Carone. A casa de Amália, a continuação (16), O Segredo de Amália e A Punição de Amália. Aqui tudo muda, a narrativa é linear, tem início, meio, fim. Articula causa e consequência, organiza o tempo com clareza, tem personagens que mudam ao longo do relato, apresenta uma tragédia familiar completa e autônoma. Ao contrário das outras situações até aqui, a causalidade é clara, a motivação é compreensível, as consequências são delimitadas e o acontecimento obedece a cronologia e a forma. A história de Amália parece ser o único lugar em que o universo do Castelo faz sentido. Há é claro uma ordem injusta que foi perpetrada, mas ela tem um desenvolvimento lógico. Na chave interpretativa que intuo nesta leitura, este contraponto organizado dentro do fragmentário caótico do conjunto funciona como uma explicitação racional dos elementos irracionais vividos no resto do romance em sua forma desorganizada. A saber: o mecanismo da culpa, o caráter difuso da opressão, a base sexual do conflito, a humilhação introjetada, a ambiguidade das estratégias para enfrentar o conflito. Há aqui uma suspensão que explicita a totalidade da dominação do poder do Castelo que K vive e nos transmite como um pesadelo, e neste conto dentro do romance se organiza o núcleo trágico de uma família.

O Despertar Inacabado: O Fim em Meio à Frase

A indeterminação do final (o romance notoriamente não termina e se encerra no meio de uma frase) contribui para a sensação do vazio e da falta de respostas. Tudo na leitura foi a desestabilização e a procura, a tentativa de formular uma pergunta, de entrever uma resposta. Tudo nele foi inacabamento e suspensão, paralisia, opacidade, incomunicação. A angústia de um movimento de pantominas e momices que nada resolve. O romance termina em meio a uma frase como se despertássemos de um pesadelo. A experiência da leitura se completou, na frase interrompida despertamos. Não compreendemos bem o que se passou, o conjunto de lembranças não fazem sentido. Tentamos compreender o romance e é como o recordar de um sonho onde estivemos há poucos minutos em meio à movimentos sucessivos e desconexos; e nos perguntamos: o que significa?

Por isso, ler O Castelo é entrar numa experiência estética específica. Toda tentativa de interpretação filosófica, teológica ou psicanalítica corre o risco de afastar-se daquilo que o texto realiza em si mesmo: uma experiência da impotência, uma forma que faz sentir o impasse em vez de descrevê-lo. O romance, ao dissolver o sentido, leva o leitor para a pura percepção — a leitura como ato estético e não como decifração.

A estrutura de O Castelo é a estrutura de um sonho que narra a si mesmo. O desejo de alcançar o Castelo é o desejo de alcançar o sentido, o domínio, a completude — mas a forma narrativa garante que esse desejo jamais se cumpra. A ambivalência do feminino, a duplicação dos ajudantes, a repetição da violência, a inacessibilidade de Klann — tudo converge para um mesmo núcleo formal: a experiência do inatingível, a incompreensão fundamental. O texto não explica o sonho; ele é o sonho.


É importante dizer que esta não é uma interpretação de Kafka, da obra de Kafka. Esta é a leitura específica e particular deste romance: O Castelo. Não pretende ser uma chave para a interpretação da literatura de Kafka. Suspeito que relendo, por exemplo A Metamorfose ou O Processo, encontrarei nestas obras outras formulações particulares e específicas. Esta é, reafirmo, apenas uma leitura e interpretação de O Castelo.

Para a literatura de Kafka todas as explicações (filosóficas, psicanalíticas, teosóficas, metafísicas) continuarão a permanecer válidas. E O Castelo também (sendo a minha uma leitura entre outras) sempre será uma máquina de produção de interpretações e ideias, instrumento de compreensão das várias camadas do real e seus mistérios. Mas em seu núcleo, na experiência inocente de sua leitura, com o corpo aberto no embate com o texto, o leitor sempre encontrará a experiência da desorientação que subjaz aos sonhos e a expressão do que, antes inexprimível, agora foi, por um momento, experenciado.

Homens que Leem Livros: Jorge e Miguel, do Escrutínio da Biblioteca à Biblioteca de Babel.

É muito lida, discutida e admirada a famosa cena do capítulo VI do Quixote onde o cura e o barbeiro destroem, com a ama e a sobrinha, a biblioteca do fidalgo Alonso Quijana. O título inteiro do capítulo é “Del donoso y grande escrutínio que el cura y el barbeiro hicieron en la libreria de nuestro ingenioso hidalgo’. E de fato é uma das cenas inaugurais e determinantes do romance, onde ficamos conhecendo um pouco os parâmetros que conformam o personagem, a concentração e escolha de seus temas, a origem de sua loucura, assim como da tensão familiar gerada por aquela posse. A ama tanto quanto a sobrinha temem o encantamento dos livros e por causa deste temor os odeiam. Os livros para elas têm um poder mágico e tenebroso, e por isso a ama dá um frasco de água benta ao barbeiro e diz “Tome vuestra merced, senhor licenciado, rocie este aposento; no este aqui algún outro encantador de los muchos que tiene estos libros e nos encanten…”   Os livros são, naquela casa, fonte de disputa e terror.

O Escrutínio de Quijana: A Censura como Pedagogia

Devemos supor que, dadas as condições da educação da época, as duas sejam analfabetas e daí, menos que substância, os livros seriam monstros materiais encantados, não o espírito do Mal, mas a sua corporificação. O cura e o barbeiro já seriam outra coisa: um certo semiletramento pretensamente ilustrado que teme, não o poder materializado do mal no livro, mas seu espírito e sua essência. Eles é que executam o “donoso” (gracioso, garboso) escrutínio e destruição da biblioteca depois de uma certa ponderação “erudita”. O cura e o barbeiro não são, no entanto, apenas semiletrados; são as autoridades locais (religiosa e social) aplicando um index librorum prohibitorum doméstico. Eles não queimam por ódio, mas por uma pretensão pedagógica e sanitária. Assim, de um lado está o perigo que os livros correm por causa da ignorância; do outro o perigo que correm em razão de uma suposta autoridade.

O que faz este episódio mais apavorante para nós leitores é o dia seguinte. No dia seguinte, após os livros serem queimados e as cinzas serem escondidas, o quarto onde estavam os livros é emparedado e mesmo a memória da biblioteca é suprimida. A destruição da biblioteca não bastava; era necessário destruir também a possibilidade de lembrar que ela um dia existiu. A censura não se contenta apenas com a eliminação do objeto, ela quer também remodelar a memória. Dias depois, o velho Quijada, tendo se recuperado das pancadas, vai procurar a orientação e consolo em seus velhos livros e nada encontra. E é a partir daí que já não há mais retorno e toda a ficção teria que se encarnar no mundo.

A Biblioteca em Movimento: Resistência e Memória

Mas como? A partir daquele momento o Quixote passa a ser a sua biblioteca em movimento, a sua ficção em ação, as suas leituras implementadas na realidade. Vítima de uma atenção carinhosa (afinal os quatro biblioclastas estavam agindo com as melhores intenções) só resta ao Quixote viver a sua biblioteca, ser a sua biblioteca em um esforço da vontade e da memória. Notadamente da memória.  Ao lermos o romance podemos observar que a cada momento ele evoca um episódio lido para validar as suas ações. Ele não só está regido pelas ordens da cavalaria que extraiu dos livros, mas da lembrança dos episódios e das ações de seus predecessores literários. E é assim porque em sua prodigiosa memória (capaz de recitar a todo momento poemas inteiros com inúmeros versos) ele carrega uma biblioteca completa, milhares de páginas compulsadas, contos, poemas, citações, filosofia, ensaios. É de dentro da memória de Quijana que o Quixote lê e reescreve o mundo.

Uma memória que supera a morte. Senão vejamos. O gesto do barbeiro, do cura, da ama e da sobrinha é (guardadas as boas intenções) um ato de assassinato que podemos desdobrar em duas direções. Em primeiro lugar é a tentativa de controlar o espírito (diríamos hoje, a subjetividade) do Quixote, destruir pela imolação dos livros a imaginação e a memória que são o fundamento da sua personalidade. Mas é também, sob o ponto de vista interpretativo e simbólico, um ato contra a própria leitura, um incêndio para destruir a possibilidade da interpretação, do sonho, da ficção e da imaginação como potências necessárias para a vida humana.

Isso permite então que vejamos a aventura posterior do Dom Quixote como um ato de resistência, da retomada integral da vida e da proteção da memória. Porque nos livros está, de certa forma, a memória da humanidade.

Jorge Luis Borges e a Centralidade do Leitor

A memória da humanidade é, em suma, um assunto metafísico, e quem disso irá tratar, melhor do que qualquer um, será Borges, que em essência foi, talvez, o leitor ideal de Cervantes e, poderíamos supor, o ilustre leitor nomeado no segundo volume; e mais ainda, o insuspeito bibliotecário da Biblioteca de Babel que guarda a memória de todos os livros do universo, uma memória metafísica que está fora da história e contém em si tudo o que foi é e será produzido. Pois, se o Dom Quixote é o primeiro grande romance que coloca o leitor no centro da obra, Borges radicalizará e mostrará que, a rigor, na produção infinita da memória dos livros, não há obra, o que existe é o ato do leitor.

Mas eu diria um pouco mais, Borges foi também o Quixote que por causa da cegueira teve que utilizar a sua memória para reinventar o mundo.

Pierre Menard e a Reescritura do Mundo

Mas vejamos o primeiro ponto. Borges colocou o leitor na centralidade absoluta de seu projeto literário. Neste projeto ler é escrever e escrever é reescrever. O “Pierre Menard, Autor do Quixote” é a mais direta e conhecida ilustração deste projeto borgiano, mas há outras neste sentido e menos lembradas.

Uma das mais poderosas surge de um de seus projetos conjuntos com Adolfo Bioy Casares que é o livro Crônicas de Busto Domecq. Neste pequeno livro estão os textos ‘Homenagem a Cesar Paládion”, “Uma tarde com Ramon Bonavena”, “Em Busca do Absoluto” etc em que esta vertigem da reescritura é levada ao paroxismo. Nestes e em alguns outros contos deste volume todo o universo da literatura é repetição e paródia, é a leitura que reencena os livros. Por exemplo, já no primeiro texto “Homenagem a Cesar Paládion” lemos, se referindo a trajetória de Paládion: “O período 1911-1919 corresponde, já, a uma fecundidade quase sobre-humana: em veloz sucessão apareceram : O Livro Estranho, o romance pedagógico Emílio, Egmont, Thebussianas (segunda série), O Cão dos Basquerville, Dos Apeninos aos Andes, A Cabana do Pai Tomás…” prosseguindo na enumeração da “obra” de Paládion e concluindo “ a morte o surpreendeu em pleno labor, segundo testemunho de seus íntimos , tinha em avançada preparação o Evangelho segundo São Lucas, obra de corte bíblico”. O humor cervantino em Borges se hipertrofia no espelhamento e abismo da escritura.

Estes contos, assim como o “Menard”, apontam que o texto é imutável, mas a leitura é sempre nova. Em Borges o leitor determina o texto. O Ilustre leitor de Cervantes com Borges se instala no centro da literatura.

Este centro é a Biblioteca de Babel, que é de tal forma abstrata e transcendente que está protegida de todos os escrutinadores e incendiários. Uma biblioteca que se projeta para uma esfera que, como o Aleph, é o alfa e ômega de todas as coisas. Em Borges a biblioteca de Quijana se volatizou em um espaço sutil. Em Borges o quarto da biblioteca de Cervantes agora é todo o universo.

Mas devo dizer porque, para mim, Borges foi também Quixote.

Eu propus acima que a aventura de Quixote foi um ato de resistência, um modo de sobrevivência a uma violência só aparentemente executada pela ama, a sobrinha, o cura e o barbeiro.  E digo aparentemente porque a violência ressentida de Quixote que o faz penetrar definitivamente no terreno da ficção, antes estava dada pela feiura do real, um mundo real de tortura, de escravidão (Cervantes foi escravo), de encarceramentos vis, de guerras, destruição e sofrimento, Em Cervantes a derrota da Batalha de Lepanto, a perda da sua mão esquerda, as misérias de sua vida familiar era o núcleo de sofrimento que ele transmutou em Dom Quixote e o fez o campeão de todas os injustiçados do mundo. Ao sair pelo mundo tendo como arma a memória de seus livros lidos, reorganizava para si um sentido mais alto de um mundo que não tem sentido. E assim, de uma certa maneira, também Borges, porque há em Borges um núcleo melancólico que somente através dos livros reorienta o mundo. Do mesmo modo como a memória de Quixote, a memória de Borges era uma biblioteca de interpretação e estratégia para dar sentido a um universo que fundamentalmente não faz sentido. E é nesse aspecto, para mim, que o destino de Borges, muito borgeanamente, reescreve o do Quixote. Não apenas pelos horrores evidentes das facinorosas guerras do século xx, não apenas no grau inesperado de inumanidade que floresceu em torno dele durante a sua vida (não só por isso, pois Borges sempre se declarou o menos político dos autores), mas por alguns detalhes específicos de seus versos (e fala-se muito pouco do Borges poeta, para mim um dos mais importantes poetas do século XX), como Le regret d’Héraclite que diz:

“Yo, que tantos hombres he sido, no he sido nunca

aquel en cuyo abrazo desfallecía Matilde Urbach.”

No qual se oculta uma marca melancólica que talvez resuma toda uma vida.

O Encontro em O Nome da Rosa

Por fim gostaria de dizer que, por uma vez, o incêndio da biblioteca medieval de Miguel de Cervantes se encontrou com a biblioteca labiríntica de Jorge Luis Borges.  No romance O Nome da Rosa o também ilustre leitor Umberto Eco fez coincidir estes dois universos retirando o livro da proteção metafísica criada por Borges e o devolvendo aos riscos mundanos que Cervantes compreendeu. Diante das evidências da História (os livros destruídos na Guerra Civil Espanhola, o bibliocausto nazista, as bibliotecas bombardeadas na segunda guerra mundial, os livros milenares destruídos com a invasão do Iraque) e compreendendo a grandeza da concepção de Borges, devemos sempre lembrar que os livros são elementos frágeis, sujeitos aos escrutínios da simples desaparição e da força, mas que são eles que guardam a memória dos homens e como Borges e Cervantes ensinaram, são a essência mesma da Humanidade.

O Diálogo do Dom Quixote: do Engenhoso Fidalgo ao Engenhoso Cavaleiro

Eu leio o Dom Quixote há quarenta anos e há quarenta anos sou um devedor de Cervantes, que em sua alma mal ferida e melancólica gestou a mais humana das criaturas literárias. Um Dom Quixote que, para mim, começa na leitura do prólogo, onde a inesgotável ironia cervantina anuncia a esfera de humor que será o fio condutor de todo o romance. Define-se já ali, em sua primeira frase, o grande sujeito de toda a história da literatura: este “desocupado leitor” que há quatrocentos anos ocupa toda a história e que, de certa forma, é no romance como a prefiguração de si mesmo. Desde esse prólogo estabelece-se a literatura como jogo, a ironia como regra e a modernidade como estrutura. É nesse primeiro romance da história dos romances que a desconstrução da ilusão narrativa e da própria produção literária começa. Apesar de se confessar, de saída, como contestação aos livros de cavalaria, o Quixote é também a crítica e o elogio de toda a literatura, a homenagem e a celebração de todos os “desocupados leitores” que, como Quijano, “de mucho leer y poco dormir”, passaram grandes partes de suas vidas lendo. E é no prólogo que nasce a grande gozação e a grande alegria popular que é o Dom Quixote, onde tudo — desde o maravilhoso título — vai-se desdobrando até revelar a poética figura do Cavaleiro da Triste Figura, que, sem estar presente, já o encarna e prefigura.

O Prólogo e o Nascimento do Desocupado Leitor

A célebre primeira linha — “En un lugar de la Mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme…” — é, na sua essencialidade geográfica, amplidão e suave melancolia, um falso começo. O verdadeiro início da revolução literária de Cervantes ocorre antes, no prólogo frequentemente ignorado, que não é um preâmbulo ocioso, mas o manifesto da atualidade cervantina. É neste momento que a narrativa se volta sobre si mesma, põe em questão sua autoridade, seus mecanismos de aparição e a segurança de seus propósitos. A confissão das dificuldades de escrevê-lo, o diálogo fictício com um amigo que lhe sugere uma erudição postiça, encena o ato inaugural da ironia literária e da impostura da crítica. Agora o romance já ri de si mesmo e da encenação literária de seu e nosso tempo. Nesse gesto de consciência metalinguística, Cervantes inaugura a modernidade e o desocupado leitor é a sua testemunha, talvez até seu cúmplice inadvertido, nesta revolução narrativa.

Mas, dez anos depois, na segunda parte, esse leitor é renomeado como “lector ilustre”. Renomeado e promovido. O que aconteceu? Aconteceu a consagração da obra, aconteceu o Quixote apócrifo de Avellaneda que tanta dor de cabeça causou em Cervantes. O novo prólogo, com seu novo tratamento modifica o tom do registro e já não brinca com a dificuldade de escrever, mas transforma-se em instrumento de polêmica direta, demonstrando que o mundo de ficção criado por Cervantes havia ganhado vida própria. E o leitor agora “ilustre” era convocado a participar novamente, neste momento com a sua ilustração, não mais com sua ociosidade, mas desta vez como testemunha da excelência do verdadeiro Quixote. Esta convocação do Leitor nos dois prólogos revela que aí não há meramente um elemento ornamental, mas um recurso narrativo que modifica toda a percepção do livro.

Mas há outras mudanças entre os dois livros além do status do leitor. Vejamos uma delas.

Do Fidalgo ao Cavaleiro: A Engenhosidade como Identidade

O primeiro livro tem por título El Ingenioso Hidalgo Dom Quixote de la Mancha e a segunda parte se intitula El Ingenioso Cavallero Dom Quixote de la Mancha, e nisso há uma sutil mudança. O personagem que começou a sua aventura como nobre decaído da memória das antigas ordens feudais da Espanha, pobre e envelhecido, mas com o espírito suficientemente lúcido para engendrar a sua transformação, agora surge, não mais como um engenhoso fidalgo, e sim como aquele que todo o mundo já conhece por suas aventuras, aquele que tinha escrito o seu nome na história e se reinventado de fidalgo à cavaleiro. Pois, afinal, a sua fidalguia anterior era uma condição da sua linhagem assumida, de sua ancestralidade presumida e da sua casa. Sua condição de cavaleiro não, pois esta foi urdida – e agora era reconhecida em todo o mundo – no embate com uma ordem hostil e indiferente. Disso decorre a nomeação do aventureiro da segunda parte como Cavaleiro, herói do feito das armas, personalidade sabida e reconhecida pelos personagens da segunda parte. Esta modificação de seu status foi conseguida a partir da qualidade comum as duas parte e presente nos dois títulos: a engenhosidade. No sentido que entendo, esta engenhosidade é uma mistura de inteligência e imaginação, o que não excluiria a inocência, a loucura e uma certa obtusidade generosa. O que há de comum ao Engenhoso Fidalgo e o Engenhoso Cavaleiro é este dado criativo da imaginação que engendra soluções delirantes e justas (o ideal) para as circunstancias postas pelo real. É esta engenhosidade, comum ao Fidalgo e ao Cavaleiro o que permite ao Dom Quixote escapar aos estratos mais humildes da loucura para alcançar aquela loucura luminosa que engenhosamente desmonta o jogo da realidade. Como Cavaleiro o Quixote percebe-se e se reconhece no livro II como filho de suas obras e ações, personagem que é a invenção livre de sua imaginação e de seu engenho.

Cada Um é Filho de Suas Obras: A Crítica à Aristocracia

E esta é, talvez, uma das ideias centrais do romance, ou seja, que cada um é filho de suas obras. Já no capítulo IV, Dom Quixote profere essa sentença ao menino Andrés: “cada uno es hijo de sus obras”. No contexto imediato, a aplicação é ingênua e desastrosa (sua intervenção piora a situação do menino), mas o princípio é profundo e será corroborado por toda a trajetória do personagem.

Essa ideia da autonomia da vontade e da virtude pessoal que é construída, me parece uma crítica central (e que estará em outras partes do romance) da ordem aristocrática e hierarquizada da Espanha do século XVII, uma sociedade obcecada por limpieza de sangre e títulos herdados, onde os valores estavam nos títulos, nos acasos dos nascimentos e se estabeleciam como presumidos, dados, aceitos quase como uma condição essencial do homem. Como só um Cervantes faria, ao longo de toda obra ele denuncia e revela como impostura aquilo mesmo que está no frontispício de seu livro, o patronato de um Duque de Beiar, Marques de Gibraleon, Conde de Benalçar y Bañares, Visconde de la Puebla de Alcozer, Señor de las villas de Capila, Curiel, y Burguillos ou a Pedro Fernandes de Castro, Conde Lemos e Andrade y de Villalua, Marques de Sarria etc.… da segunda parte.

A Sagração de Dom Quixote e a Figura do Vendeiro Pícaro

Por essa razão, para mim, o Dom Quixote é um livro necessariamente parcial e que toma o partido dos despossuídos. E penso que este sinal de nascença está posto desde o princípio no episódio da sagração de Dom Quixote no capítulo III  “Donde se cuenta la graciosa manera que tuvo Dom Quixote em armarse Caballero”, onde então lemos que Dom Quixote é sagrado cavaleiro pela figura levemente acanalhada de um pobre vendeiro, analfabeto e astuto, tendo como testemunhas duas prostitutas e um punhado de arrieiros, em uma estalagem de beira de estrada de terceira categoria.

A reinvenção do ritual medieval (castelo, damas, capela) subverte a ordem hierárquica em que se assenta todo o passado da estrutura aristocrática. Aqui, Cervantes executa uma crítica profunda à sociedade estamental da Espanha do Século de Ouro, que venerava o sangue, os títulos e a linhagem. Dom Quixote, ao contrário, é um cavaleiro legitimado pelos rejeitados, pelas putas, pelos pobres, pelos excluídos.

Somente o vendeiro já exigiria um ensaio à parte e toda uma genealogia. Eis como ele se apresenta a Dom Quixote: Depois de dizer que em sua juventude também foi uma espécie de cavaleiro andante, diz: “que él, ansimesmo, en los años de su mocedad, se había dado a aquel honroso ejercicio, andando por diversas partes del mundo buscando sus aventuras, sin que hubiese dejado los Percheles de Málaga, Islas de Riarán, Compás de Sevilla, Azoguejo de Segovia, la Olivera de Valencia, Rondilla de Granada, Playa de Sanlúcar, Potro de Córdoba y las Ventillas de Toledo y otras diversas partes, donde había ejercitado la ligereza de sus pies, sutileza de sus manos, haciendo muchos tuertos, recuestando muchas viudas, deshaciendo algunas doncellas y engañando a algunos pupilos, y, finalmente, dándose a conocer por cuantas audiencias y tribunales hay casi en toda España”. Ou seja: ele foi ladrão, vadio e delinquente, sedutor e aproveitador, um fugitivo da lei que ainda chama tudo isso de “honroso ejercicio”. E assim estamos no auge da ironia cervantina.

Eu penso que o Vendeiro é o pícaro, mas o pícaro deslocado, o pícaro burgês. O pícaro é uma figura central da literatura espanhola do Século de Ouro (com obras como Lazarillo de Tormes e Guzmán de Alfarache). Como tipo ele tem: uma origem humilde e marginal, uma moral de sobrevivência, um itinerário de aprendizado pela prática, o humor como denúncia. Mas, enquanto o pícaro clássico é um eterno deslocado, um anti-herói sempre à beira da fome, o Vendeiro representa o que acontece com o pícaro quando ele já está dentro do sistema e já é um proprietário.

Imagino que a figura do Vendeiro prefigura Sancho por seu tipo físico e é ao mesmo tempo uma visão irônica de como os explorados podem ver a si mesmos como “Cavaleiros Andantes” ou como escudeiros (no caso de Sancho), como um espelho social invertido, o signo carnavalizador no centro da narrativa. Por fim, é na sagração de Dom Quixote que o elemento da narrativa pícara reatualiza e transforma toda o idealizado mundo do romance de cavalaria. A visão de Cervantes se dá pela base da sociedade e a marca em seguida disso é a malfadada primeira aventura como cavaleiro em que o Dom Quixote se insurge contra um patrão explorador que chicoteava um empregado. Sua vitória é malograda, mas sua primeira intenção fica evidente.

A Pedagogia do Diálogo: Sancho e a Paridade na Diferença

É claro que estes são um ou dois aspectos do romance, de um romance que é fundamentalmente inesgotável em sua capacidade de gerar interpretações. Com tudo o que disse não arranhei nem na superfície de tudo o que este romance me provoca a cada releitura, cada releitura que renova e aprofunda minha dívida com ele. De tudo que ele me deu, deu-me principalmente a abertura e a capacidade para o diálogo, pois o Quixote é também em sua essência uma pedagogia do diálogo, da leitura e da leitura como diálogo. Nos prólogos há o diálogo de Cervantes com o ‘desocupado e, depois, ilustre leitor”, mas há também o diálogo interno entre Cervantes e seu amigo erudito. Por todo o enredo, entretecido de histórias, o Quixote estará sempre conversando, contando, se entendendo e desentendendo, dialogando com todos os que aparecerem na sua frente. Mas há, acima de tudo, o diálogo fundamental entre Dom Quixote e Sancho Pança onde começamos a entrever tudo o que em um diálogo verdadeiro comporta de afeição e mudança.  Porque é finalmente na encenação deste diálogo que toda a profundidade humana do romance se revela. Em tudo Cervantes os criou como no mais completo antagonismo: o cavaleiro magro e o escudeiro gordo, o senhorial mancebo e o lavrador campesino, o erudito leitor de poemas e o porqueiro analfabeto, no entanto, desde o início, não há desigualdade no seu diálogo. Logo no início, em meio a primeira conversa Dom Quixote pergunta “pues quiém lo duda?” e imediatamente Sancho responde “yo lo dudo”, pois não há subordinação neste diálogo que deste o início se estabelece como respeito e troca. É a paridade na diferença. Ao longo do livro Quixote e Sancho vão se modificando lentamente e no final já são um outro personagem, se tornaram uma síntese de seus sentimentos, Sancho se “quixotiza”, absorvendo a linguagem e a imaginação; Quixote se “sanchifica”, tornando-se mais atento à materialidade crua do mundo. e nós agora só vemos um se vemos o outro. Cervantes nos ensina que  a verdade e a humanidade nascem do encontro, do conflito e da afeição entre perspectivas radicalmente diferentes. Harold Bloom, um crítico de que discordo muito, em um ensaio do livro o Cânone Ocidental  fez essa afirmação brilhante: “Hamlet nos ensina a falar conosco mesmo, mas o Quixote nos ensina a falarmos uns com os outros”. E esta é para mim a lição essencial de toda a literatura.   

Memórias do Condado de Hécate

Gostei muito da leitura do livro de contos de Edmund Wilson Memórias do Condado de Hécate. Há muita elegância na prosa de Wilson e principalmente uma capacidade descritiva que vai aos detalhes mais importantes de uma determinada atmosfera.

O Crítico na Prosa de Imaginação

A crítica em geral despreza o Wilson da prosa de imaginação e praticamente o admoesta a ficar nos limites da crítica. Acho demasiadamente estreita esta visão, e embora a ficção de Wilson não ascenda a dimensão de sua prosa, deve e merece ser lida e meditada pelos que gostam da literatura.

Dois dos seis contos, me chamaram a atenção Aprincesa dos cabelos dourados e Os Milholands e sua alma condenada.

A Princesa dos Cabelos Dourados: Amor e Luta de Classes

O primeiro é uma narrativa bastante crua, quase cruel na sua sutil descrição do relacionamento do personagem com duas mulheres de classes sociais diferentes. Wilson, com seu estilo objetivo e direto caracteriza a imensa distancia destas duas mulheres através de vários detalhes como a roupa, os gostos, a fala e principalmente os seus ambientes e seus passados. Mas principalmente disseca o tratamento de classe, a base de amargura e preconceito que está inscrita em nosso comportamento social, no modo como lidamos com os seres humanos através de uma rede de relações construídas sobre os alicerces da luta de classes. É um conto amargo de amor.

Os Milholands: A Sátira ao Mundo Editorial Americano

Os Milholands e sua alma condenada é uma divertida narrativa, sarcástica, irônica sobre o mundo editorial e, por tabela, de toda a falsidade e representação artificial do mundo intelectual. Wilson demole uma a uma as imposturas da vida editorial da América do início do século vinte, o tom postiço de suas pretensões, a falsidade de suas mais altas alegações de cultura e seriedade. O conto desnuda o modo pelo qual as mais baixas demandas materialistas se fantasiam para o público como altas expectativas culturais e jogos civilizados; como os personagens que encenam uma alta espiritualidade não passam de materialistas grosseiros que encontraram no mundo dos livros um mercado adequado para as suas ambições. O alvo dele é claro é a sociedade capitalista americana do início do século XX, o modo como tudo era visto como mercadoria e produto, onde tudo estava envolvido pelo desejo puro de lucro e o cálculo frio das perdas e ganhos financeiros. Um grande conto, mas tem duas faltas: a primeira é que Wilson de uma certa maneira apresenta este mundo em contraposição – ele imagina – de uma época passada, o século XIX, onde os verdadeiros intelectuais ainda faziam o jogo verdadeiro do espírito. Há uma certa idealização da geração anterior que, esta sim, ainda estaria imbuída dos “verdadeiros valores da América”.

A Falta de Autoironia: Rindo de Wilson

A segunda falta é a seguinte: este é um conto de muito humor e sarcasmos e crítica. Sob o olhar do autor nada fica sem ser ridicularizado ou ao menos reduzido a sua verdadeira dimensão, em geral, mesquinha e ridícula. Tudo está posto à prova, tudo menos o autor. Ao narrador de Wilson (e suspeito, ao próprio Wilson) falta a auto ironia, o dom superior que, sem ser depreciativo, permite a alguém rir de si mesmo. O narrador de Wilson se leva a sério mesmo fazendo parte do mesmo ambiente editorial que ele perfeitamente ironiza. Não consegue rir de si mesmo e isso faz de parte de seu riso apenas escárnio. Mas ao perceber isso nós também rimos de Wilson.

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