A Anatomia da Desilusão e o Triunfo da Mediocridade

Introdução
Depois de cento e cinquenta anos de leituras e de comentários, muito já está estabelecido do valor de Madame Bovary. O romance é reconhecido como uma obra fundadora do Realismo europeu, crítica contundente à escola romântica e recusa da moral burguesa do século XIX, além de um marco da técnica do romance, o exemplo do rigor extremo do ofício do romancista. Ezra Pound em um ensaio famoso afirmou que “quanto a técnica, a prosa deveria ser estudada a partir de Flaubert”. De fato, de Madame Bovary tudo já foi dito: a precisão das descrições, a arquitetura da composição, a psicologia dos personagens, a dissecação da vida provinciana, a crítica da ilusão. E entre tudo que foi dito se inscreve a minha experiência de leitura.
Madame Bovary está longe de ser o meu livro preferido de Flaubert. Na verdade, em Três Contos, a história “Um Coração simples”, foi a minha segunda experiência de leitura de Flaubert, e que permanece sendo para mim um dos momentos mais altos da prosa de imaginação, o momento raro em que uma escrita fria e analítica queima a nossa sensibilidade com o reconhecimento da compaixão.
Mas eu poderia citar também a sua correspondência ou o romance Educação Sentimental com a radiografia do fracasso de toda uma geração, sua reflexão da história. Todos esses mais lidos e admirados que Bovary.
Ainda assim, foi Madame Bovary o livro que mais li. E essa agora foi minha terceira leitura de um livro que somos constantemente solicitados a ler.
A Moldura de Charles: O Rigor da Forma
E talvez tenha sido justamente a repetição o que me permitiu perceber com mais nitidez algo fundamental: o rigor estrutural de Flaubert faz com que a história de Emma comece e termine dentro da moldura da vida de Charles Bovary, e isso propõe toda uma vasta leitura do romance.
Notemos que este se abre com a infância de Charles e se encerra com a sua morte e a dispersão de seus bens. Como um conjunto, a existência de Emma está contida na vida de Charles e é limitada por sua narração. Essa escolha não me parece neutra. Ao contrário, ela, de uma certa forma, organiza toda a leitura. Ao apresentar Charles como inepto, desajeitado e irremediavelmente medíocre, Flaubert estabelece o pano de fundo contra o qual Emma irá se inscrever e se insurgir. A vida de Charles é a medida da normalidade burguesa que envolve Emma, uma normalidade opaca, repetitiva, sem imaginação.
Mas essa emolduração também tem um efeito mais sutil e mais cruel: a história de Emma só pode existir dentro da vida de Charles. Ela não é somente Emma — é “Madame Bovary”. Sua identidade é derivada, apontada, socialmente definida. A narrativa incorpora, assim, a própria estrutura de subordinação que descreve.
O Espelho da Alienação
E essa escolha aponta que o romance não se reduz à tragédia de Emma, mas se constitui conjuntamente da tragédia de Charles. Pois, se Emma fracassa por excesso imaginativo, Charles fracassa por ausência de imaginação. Eles se espelham e se invertem. Se Emma é imaginação descontrolada, Charles é a falta de imaginação.
Daí que a tragédia de Madame Bovary não esteja apenas no destino de Emma, mas na convergência entre dois destinos divergentes em seus desajustes: o excesso de sonho de um e a incapacidade de sonhar do outro.
Ambos expressam uma forma de alienação.
Emma deseja viver segundo imagens herdadas da literatura: amores sublimes, gestos grandiosos, luxos e arrebatamentos raros. Sua tragédia é o choque entre o ideal e a matéria, entre o sonho e o cotidiano. Charles, ao contrário, não vê além do que tem diante de si. Vive imerso em hábitos, gestos automáticos, na sua mediocridade satisfeita. Sua tragédia é não perceber a tragédia e talvez julgar que a tragédia não exista.
Ambos estão presos, cada um à sua maneira, ao que Flaubert chamou de bêtise: esse embotamento da inteligência e da sensibilidade que a existência burguesa parece produzir.
E sob essa luz, o romance deixa de ser apenas a história de um adultério, ou o destino triste de uma mulher para se tornar uma anatomia da desilusão — e, mais profundamente, um estudo de caso radical da estupidez.
A estupidez de Emma está em tentar viver uma vida imaginária sem compreender ou aceitar as condições reais que a devem sustentar. A de Charles está na incapacidade de superar o mecanismo social que o define, a essência de seu papel. São dois extremos que se encontram na ruína.
O contraste final com Homais torna isso ainda mais evidente e doloroso. Enquanto os Bovary são destruídos, Homais (a mediocridade burguesa autoconsciente e satisfeita) prospera, recebe honrarias, acumula prestígio. O romance termina não com a redenção, mas com a vitória acachapante da mediocridade satisfeita. A moldura de Charles prepara esse desfecho: o desaparecimento silencioso do homem comum e de certa forma sensível, abre espaço para o triunfo ruidoso da estupidez social.
Outro aspecto estrutural que me chamou a atenção foi o paralelo entre as duas esposas de Charles. A primeira, a viúva Dubuc, morre rapidamente após um colapso financeiro e moral. Sua morte é seca, quase sem relevo, condizente com sua figura apagada. Emma, ao contrário, tem sua agonia descrita em detalhe, numa intensidade quase insuportável.
O Dinheiro como Operador do Desejo
Ambas são vítimas de ilusões e de ruínas materiais. Mas enquanto uma desaparece sem deixar vestígios, a outra transforma sua morte em espetáculo. Possivelmente há, nesse contraste, uma reflexão sobre a relação entre sofrimento, visibilidade e valor.
E isso nos leva a um dos eixos centrais do romance: o dinheiro.
O dinheiro atravessa todas as relações do romance. De uma certa forma ele é o romance. Vejamos, o primeiro casamento de Charles é um negócio direto sustentado por um dote. O segundo também é um cálculo, uma negociação silenciosa entre famílias burguesas. O amor se estabelece como subproduto de um acordo econômico.
É Lheureux que encarna essa lógica material de forma quase pura. Ele não é apenas um agiota, mas um operador do desejo. Seduz a cidade com crédito, cria dependência, transforma sonhos em dívidas. Sua ação é discreta, silenciosa, mas devastadora. Ao final, ele não apenas lucra com a tragédia de Emma, ele absorve os restos de sua vida como despojos merecidos.
Mesmo os amantes de Emma estão inseridos na lógica totalizante da economia. Rodolphe, o nobre, exerce o privilégio do desapego de sua classe, sua posição lhe permite conquistar sem consequências. Léon, burguês apenas e mais modesto, ascende lentamente, moldando-se às expectativas sociais. Nenhum dos dois oferece a Emma aquilo que ela realmente deseja: uma transformação de sua existência.
Aqui se torna evidente a proximidade e a lição de Balzac, o anatomista da concretude do dinheiro. Mas enquanto Balzac descreve o funcionamento do dinheiro na sociedade, a materialidade de seu poder formativo nas relações sociais, Flaubert o investiga como experiência subjetiva, como devastação psicológica. O dinheiro, em Madame Bovary, não é apenas estrutura, é também sensação, ansiedade, ilusão.
A tragédia de Emma é inseparável dessa dimensão do dinheiro. Ela tenta viver como aristocrata, mas com recursos burgueses. Quer o luxo sem ter a base material que o sustenta, quer a licenciosidade moral sem a proteção social que tornaria este comportamento possível. Ela não sabe, não tem como saber, que o nó é estrutural.
A aristocracia, tal como ela a imagina, organiza a vida em torno do desejo e do prazer. O dinheiro não é questão, mas a condição invisível. Já a burguesia vive sob o signo do cálculo: reputação, crédito, estabilidade, as vezes próxima demais da mera pobreza. O casamento é uma sociedade e uma empresa; o amor, um risco.
Emma tenta impor um sistema de valores aprendidos na literatura para um mundo que não pode realmente sustentá-lo. Seus gastos são tentativas de comprar uma cenografia (vestidos, objetos, gestos) que simulem uma vida que não lhe pertence. Mas a sociedade real na qual ela está inscrita e que ela despreza é a mesma que a julga e a condena.
A rigor, Emma não quer ser burguesa (pois despreza a burguesia de Yonville), mas também não pode ser aristocrata. Sua tragédia de classe, talvez. é “não ter classe” no duplo sentido: ela não pertence a uma classe definida (é da pequena-burguesia rural) e não tem “classe” ali como distinção social. Seus gestos aristocráticos são simulacros que apenas a burguesia provinciana percebe como ameaçadores, mas que a verdadeira aristocracia despreza. Ela está no limbo social — e o limbo é o lugar ideal para a queda.
E então a sua queda é inevitável porque suas ações indeterminaram o seu lugar.
Nesse sentido, Madame Bovary é também um romance sobre classe, não só no sentido explícito de conflito político, mas também como a estrutura invisível que regula o que é possível e o que é impossível de ser tentado.
Emma: A Personagem em busca de um Papel
Mas aqui, preciso dizê-lo, há ainda um outro movimento, mais íntimo, psicologicamente mais complexo e não tão simples de entender: Emma não busca apenas em suas ações uma outra vida — ela busca um papel. Ela quer ser uma personagem.
Então vejamos: sempre que a desgraça se aproxima, sua linguagem se intensifica e seu comportamento se dramatiza. Seus gestos se tornam mais teatrais. O sofrimento não a destrói imediatamente, ele a alimenta. A realização mesmo circunstancial de seus anseios, ao contrário, a frustra. Quando o desejo se concretiza, revela-se banal e ela não suporta a banalidade.
O que a sustenta é a expectativa do transe, o interdito do tabu sonhado, a preparação da vertigem muito menos que o encontro.
Daí que em uma perspectiva radical de julgamento, Emma não busca a felicidade; busca a intensidade voraz do devaneio. A encarnação radical no papel de heroína romântica. Ora, essa intensidade só se realiza plenamente no sofrimento, e talvez na morte. Sua melancolia é um modo de se distinguir, de se afirmar como diferente da esfera burguesa de sua vida e apenas igual a imagem de seus romances. Sem o drama da dor, sua vida não tem sentido.
Nesse caso, sua morte não é apenas um fim, mas a culminação, já antes encenada, da sublimidade de seu papel. É o momento em que sua vida finalmente coincide com a forma que ela sempre desejou: a da tragédia.
Mas Flaubert neste exato momento, como um implacável fisiologista, retira toda a idealização romântica de seu suicídio e o reduz ao sofrimento atroz de uma pequena e miserável mulher que lentamente agoniza. O romance se encerra com o lento desvario de Charles e a infelicidade da vida de Berthe.
Ao contrário da viúva Dubuc que morreu de uma forma seca e moralizada e quase desapercebida, Emma transforma a sua morte em espetáculo. Mas, ao final, um espetáculo inútil. Ninguém aprende nada com a morte de Emma. Nem Charles (que só entende tarde demais), nem Homais (que prospera), nem Rodolphe ou Léon (que seguem suas vidas). A intensidade de Emma é devorada pelo silêncio que se segue. É a derrota final do romantismo: não apenas a morte da heroína, mas a indiferença do mundo diante dela.
O Triunfo de Homais
Somente a mediocridade triunfa e Homais ao fim acaba desbaratando os poucos pertences que sobraram daquelas vidas destroçadas. Nada resta para além daquelas personagens e delas apenas se salva, ironicamente, a literatura, a mesma literatura que foi de uma certa forma a maldição de Emma Bovary.